Quarta-feira, Outubro 29, 2003
VENDO BEM, A VIDA PASSA NUM INSTANTE
Mas que raio de ideia a minha! Por que fui eu meter-me nisto?
Está certo que lá pelos meus dezoito anos não era um grande entendido em mulheres, em namoros e nas banalidades do sexo, mas por que perdi eu a cabeça pela Amélinha?
Está certo que ela me fez coisas que nunca nenhuma namorada me tinha feito e muitas dessas coisas eram, na verdade, de perder a cabeça. Bom, vendo bem, o facto é que nunca nenhuma namorada me tinha até então feito coisa alguma... Isto é, vendo mesmo as coisas como deve ser, nunca até então tinha tido uma namorada.
Talvez não sirva de desculpa, mas devo ter estado apaixonado no meio de todo aquele tempo de confusão que passou como quem risca um fósforo, sem eu perceber metade do que se estava a passar.
E os meus pais, coitados! Ainda me arrepio quando revejo a cara da minha mãe lavada em lágrimas e a do meu pai branca como a cal. E o Vasco, o meu irmão mais velho, com aquele físico todo de jogador de rugby no Direito, aos gritos, a ameaçar-me com as manápulas que mais parecem dois guardanapos,
- O menino enlouqueceu Gonçalo? Quer que eu lhe devolva o juízo com um par de bofetadas?!,
logo eu que tenho um pavor terrível da dor física, logo eu que não sou capaz de ouvir um grito sem estremecer da cabeça aos pés, que havia eu de fazer quando o senhor Santos, o pai da Amélia, nos apanhou na cama dela, às tantas da manhã, nós convencidíssimos de que ele dormia como uma pedra, a ressonar como de costume, e eis que ele abre a porta e a luz de repente e fica ali, na ombreira, a olhar para nós com o branco dos olhos raiados de sangue, em tronco nu, cheio de pelos todos no peito, nas costas e na barriga enorme com o umbigo a parecer uma cratera lunar, de caçadeira encaixada no sovaco, os canos apontados à minha cabeça, perguntando numa voz grossa por entre dentes:
- Então pombinhos? Para quando é que é o casório?...
Que havia eu de fazer?
Foi o cabo dos trabalhos para me aguentar e não me aguentei, urinei-me todo com o terror, mas só quem viu a morte aos pés da cama como eu é que sabe o que isso é, e eu vi a morte bem de perto, isso é que vi! Uma morte gorda, cheia de pelos nas costas, na barriga e no peito, com uma caçadeira encaixada no sovaco lá pelas quatro da manhã, a perguntar com um ar furioso e os olhos raiados de sangue:
- Então pombinhos? Para quando é que é o casório?...
Nem precisava de ter perguntado já que foi o próprio senhor Santos, agora meu sogro, que o marcou. A minha mãe apareceu vestida de luto, o meu pai de gravata preta, o Vasco nem lá pôs os pés, o que vale é que a família da Amélia é enorme, vieram parentes da França, da Suíça e da Alemanha e toda aquela gente de Chelas e do Poço do Bispo, os antigos colegas do senhor Santos na tropa e na Guarda Fiscal, ninguém prestou muita atenção à indumentária dos meus pais, estavam mais entusiasmados com o vestido de noiva rosa-choque da Amélia e com os acepipes do Antunes dos Caracóis, ali a Moscavide, onde foi o copo de água, uma mesa cheia de croquetes e rissóis de camarão e chamuças e pratinhos de presunto Gameiro e queijo Rabaçal e garrafas de Casal da Eira, branco e tinto.
É claro que os meus pais têm razão! Não foi uma boda como a gente gostava que tivesse sido, não pudemos convidar as manas da mamã de Cascais nem o tio Alfredo que é Secretário de Estado, nem aqueles amigos giríssimos do Vasco que estão sempre a viajar por lugares fantásticos como as Maldivas ou a Polinésia. É claro que a Amélia não tem muito que ver comigo, não é má rapariga mas acha a ópera uma estucha e diz que a Callas é uma histérica, tem um peito enorme que me entusiasma mas está sempre a perguntar-me se não tenho nada melhor para fazer senão ler livros estúpidos, tem umas ancas que me deixam comichões nas mãos mas não gosta muito de tomar banho e passa a vida a pintar as unhas dos pés em tons malva ou roxo escuro.
Vamos lá a ver: nem tudo é mau. A mãe, a Dona Aurora, até cozinha bem, embora empape o arroz em água, encharque as pataniscas e os pasteis de bacalhau em óleo queimado e deixe dessorar o Molotov. O senhor Santos tem pequenos vícios difíceis de suportar: o palito no canto da boca, o bagaço misturado com o café, a barba sempre por fazer, a unha do dedo mindinho da mão direita crescidíssima para tirar o cerume dos ouvidos que depois raspa com a unha do polegar, aquela mania de tirar fiapos de comida dos dentes com estalinhos de língua, o comer em tronco nu e ir limpando o suor dos sovacos ao guardanapo, o excesso de flatulências, a teimosia de me querer obrigar a jogar à lerpa, logo a mim que só aprendi a jogar o brídege, as histórias intermináveis da guerra da Guiné e das emboscadas dos escarumbas ou dos bijagós, como ele lhes chama no meio de um chorrilho de palavrões, o hábito de misturar vinho tinto com Sumol de laranja e de me acordar ao nascer do sol, que é a hora em que se levanta para ir ao quarto de banho, a perguntar lá da ombreira da porta, agora sem os olhos raiados de sangue e sem a caçadeira:
- Então ò pombinho? Hoje não se trabuca?,
a despachar-me para o escritório do dr. Marçal onde faço a contabilidade e onde aproveito as horas mortas para estudar para os exames de Setembro que isto de ter uma família a cargo não me deixa muito tempo para acabar o curso de Economia, que a reforma do senhor Santos na Guarda Fiscal não chega para as encomendas e desde que o meu pai me pôs fim aos financiamentos sou obrigado a fazer horas extraordinárias para pagar as mensalidades da Universidade Católica, que o Natal vem a caminho e a Dona Aurora não admite que a dispensa não esteja recheada para poder convidar lá para casa todos aqueles parentes da França, da Alemanha e da Suiça e fazer figura de abastada, que a passagem do ano vem a caminho e a Amélia faz questão de um reveillon no Casino da Figueira ou no Casino de Espinho e o senhor Santos gasta uma pipa de massa na roleta e em charutos, ele que detesta charutos.
Mas que hei-de eu fazer?, meti-me nisto e agora é preciso aguentar, não vale a pena fazer um drama, vamos a isto que o Natal passa num instante, vamos a isto que a Passagem de Ano passa num instante. Vendo bem, há que ser optimista, e a vida também passa num instante.
AM
Mas que raio de ideia a minha! Por que fui eu meter-me nisto?
Está certo que lá pelos meus dezoito anos não era um grande entendido em mulheres, em namoros e nas banalidades do sexo, mas por que perdi eu a cabeça pela Amélinha?
Está certo que ela me fez coisas que nunca nenhuma namorada me tinha feito e muitas dessas coisas eram, na verdade, de perder a cabeça. Bom, vendo bem, o facto é que nunca nenhuma namorada me tinha até então feito coisa alguma... Isto é, vendo mesmo as coisas como deve ser, nunca até então tinha tido uma namorada.
Talvez não sirva de desculpa, mas devo ter estado apaixonado no meio de todo aquele tempo de confusão que passou como quem risca um fósforo, sem eu perceber metade do que se estava a passar.
E os meus pais, coitados! Ainda me arrepio quando revejo a cara da minha mãe lavada em lágrimas e a do meu pai branca como a cal. E o Vasco, o meu irmão mais velho, com aquele físico todo de jogador de rugby no Direito, aos gritos, a ameaçar-me com as manápulas que mais parecem dois guardanapos,
- O menino enlouqueceu Gonçalo? Quer que eu lhe devolva o juízo com um par de bofetadas?!,
logo eu que tenho um pavor terrível da dor física, logo eu que não sou capaz de ouvir um grito sem estremecer da cabeça aos pés, que havia eu de fazer quando o senhor Santos, o pai da Amélia, nos apanhou na cama dela, às tantas da manhã, nós convencidíssimos de que ele dormia como uma pedra, a ressonar como de costume, e eis que ele abre a porta e a luz de repente e fica ali, na ombreira, a olhar para nós com o branco dos olhos raiados de sangue, em tronco nu, cheio de pelos todos no peito, nas costas e na barriga enorme com o umbigo a parecer uma cratera lunar, de caçadeira encaixada no sovaco, os canos apontados à minha cabeça, perguntando numa voz grossa por entre dentes:
- Então pombinhos? Para quando é que é o casório?...
Que havia eu de fazer?
Foi o cabo dos trabalhos para me aguentar e não me aguentei, urinei-me todo com o terror, mas só quem viu a morte aos pés da cama como eu é que sabe o que isso é, e eu vi a morte bem de perto, isso é que vi! Uma morte gorda, cheia de pelos nas costas, na barriga e no peito, com uma caçadeira encaixada no sovaco lá pelas quatro da manhã, a perguntar com um ar furioso e os olhos raiados de sangue:
- Então pombinhos? Para quando é que é o casório?...
Nem precisava de ter perguntado já que foi o próprio senhor Santos, agora meu sogro, que o marcou. A minha mãe apareceu vestida de luto, o meu pai de gravata preta, o Vasco nem lá pôs os pés, o que vale é que a família da Amélia é enorme, vieram parentes da França, da Suíça e da Alemanha e toda aquela gente de Chelas e do Poço do Bispo, os antigos colegas do senhor Santos na tropa e na Guarda Fiscal, ninguém prestou muita atenção à indumentária dos meus pais, estavam mais entusiasmados com o vestido de noiva rosa-choque da Amélia e com os acepipes do Antunes dos Caracóis, ali a Moscavide, onde foi o copo de água, uma mesa cheia de croquetes e rissóis de camarão e chamuças e pratinhos de presunto Gameiro e queijo Rabaçal e garrafas de Casal da Eira, branco e tinto.
É claro que os meus pais têm razão! Não foi uma boda como a gente gostava que tivesse sido, não pudemos convidar as manas da mamã de Cascais nem o tio Alfredo que é Secretário de Estado, nem aqueles amigos giríssimos do Vasco que estão sempre a viajar por lugares fantásticos como as Maldivas ou a Polinésia. É claro que a Amélia não tem muito que ver comigo, não é má rapariga mas acha a ópera uma estucha e diz que a Callas é uma histérica, tem um peito enorme que me entusiasma mas está sempre a perguntar-me se não tenho nada melhor para fazer senão ler livros estúpidos, tem umas ancas que me deixam comichões nas mãos mas não gosta muito de tomar banho e passa a vida a pintar as unhas dos pés em tons malva ou roxo escuro.
Vamos lá a ver: nem tudo é mau. A mãe, a Dona Aurora, até cozinha bem, embora empape o arroz em água, encharque as pataniscas e os pasteis de bacalhau em óleo queimado e deixe dessorar o Molotov. O senhor Santos tem pequenos vícios difíceis de suportar: o palito no canto da boca, o bagaço misturado com o café, a barba sempre por fazer, a unha do dedo mindinho da mão direita crescidíssima para tirar o cerume dos ouvidos que depois raspa com a unha do polegar, aquela mania de tirar fiapos de comida dos dentes com estalinhos de língua, o comer em tronco nu e ir limpando o suor dos sovacos ao guardanapo, o excesso de flatulências, a teimosia de me querer obrigar a jogar à lerpa, logo a mim que só aprendi a jogar o brídege, as histórias intermináveis da guerra da Guiné e das emboscadas dos escarumbas ou dos bijagós, como ele lhes chama no meio de um chorrilho de palavrões, o hábito de misturar vinho tinto com Sumol de laranja e de me acordar ao nascer do sol, que é a hora em que se levanta para ir ao quarto de banho, a perguntar lá da ombreira da porta, agora sem os olhos raiados de sangue e sem a caçadeira:
- Então ò pombinho? Hoje não se trabuca?,
a despachar-me para o escritório do dr. Marçal onde faço a contabilidade e onde aproveito as horas mortas para estudar para os exames de Setembro que isto de ter uma família a cargo não me deixa muito tempo para acabar o curso de Economia, que a reforma do senhor Santos na Guarda Fiscal não chega para as encomendas e desde que o meu pai me pôs fim aos financiamentos sou obrigado a fazer horas extraordinárias para pagar as mensalidades da Universidade Católica, que o Natal vem a caminho e a Dona Aurora não admite que a dispensa não esteja recheada para poder convidar lá para casa todos aqueles parentes da França, da Alemanha e da Suiça e fazer figura de abastada, que a passagem do ano vem a caminho e a Amélia faz questão de um reveillon no Casino da Figueira ou no Casino de Espinho e o senhor Santos gasta uma pipa de massa na roleta e em charutos, ele que detesta charutos.
Mas que hei-de eu fazer?, meti-me nisto e agora é preciso aguentar, não vale a pena fazer um drama, vamos a isto que o Natal passa num instante, vamos a isto que a Passagem de Ano passa num instante. Vendo bem, há que ser optimista, e a vida também passa num instante.
AM
Terça-feira, Outubro 28, 2003
Estão todos perdidos
A Tucha desde que se viu livre de incómodos, não tem parado de receber mensagens. Isso também acontece por eu ter posto a correr que ela é muito bonita, não é só por se saber que está livre. A boa nova foi anunciada e um batalhão de seríssimos rapagões não descansa enquanto não entrar em contacto. E no entanto a Tucha não falou, até agora não disse nada, não escreve nem bloga, só tem fama. Chegaram propostas de anjos salvadores, outras provenientes directamente do inferno, trazidas por veros demónios em condições de se converterem ao azul celeste, outras vindas das Universidades, donde velhos sábios estão já cozidos também em caldeirões e no entanto continuam lá empregados, e ainda mais outras propostas de origem pouco clara, mas para mim é gente canalha das polícias, e também chamamentos lancinantes de bloguistas intensos, cuja seriedade moral não sou eu que vou por em dúvida, tudo gritos dispersos entoando esse nome de salvação Tucha! Tucha! E também chegaram mensagens de homens probos, da cultura e das artes, que se identificam e assinam, e que, tal como o José Martins, parece que vão pôr a cultura e as artes num saco, esquecer tudo e perder a vida por uma brasa. LACP
A Tucha desde que se viu livre de incómodos, não tem parado de receber mensagens. Isso também acontece por eu ter posto a correr que ela é muito bonita, não é só por se saber que está livre. A boa nova foi anunciada e um batalhão de seríssimos rapagões não descansa enquanto não entrar em contacto. E no entanto a Tucha não falou, até agora não disse nada, não escreve nem bloga, só tem fama. Chegaram propostas de anjos salvadores, outras provenientes directamente do inferno, trazidas por veros demónios em condições de se converterem ao azul celeste, outras vindas das Universidades, donde velhos sábios estão já cozidos também em caldeirões e no entanto continuam lá empregados, e ainda mais outras propostas de origem pouco clara, mas para mim é gente canalha das polícias, e também chamamentos lancinantes de bloguistas intensos, cuja seriedade moral não sou eu que vou por em dúvida, tudo gritos dispersos entoando esse nome de salvação Tucha! Tucha! E também chegaram mensagens de homens probos, da cultura e das artes, que se identificam e assinam, e que, tal como o José Martins, parece que vão pôr a cultura e as artes num saco, esquecer tudo e perder a vida por uma brasa. LACP
Segunda-feira, Outubro 27, 2003
As pérolas a porcos
O José Martins foi corrido de casa, posto à porta, despachado. Tinha combinado, já lá vão uns anos, numa noite de encanto, contratar-se com a minha amiga Tucha. Eu já era amigo dela antes, mas aborrecia-me a sua virgindade e também a mania de sacudir os sofás com a palma das mãos. Na verdade não era amigo dela, uma vez que era só ideia minha; gostaria, mas nada. Já dantes, era raro a Tucha falar comigo, mas também eu não lhe dirigia muito a palavra. Tinha a impressão que não me ouvia. Na prática não me ligava nenhuma.
O posterior amigo José, era doutra natureza. Como ele, conheci poucos que levassem tanto a sério o trabalho, e o mesmo é dizer que se esforçava para vencer os inevitáveis aspectos contingentes da vidinha. Talvez auto educado, diligente, curioso. O José fez-se um diabo culto; sabe disto e daquilo, ou seja, defende-se. E mostra que é realista nesse aspecto. Agora corrido de casa, a Tucha, ou seja lá quem for, não pode, nem tirará qualquer benefício desse espírito. A Tucha é uma superficial. Não viu a questão de fundo. Mas sendo tão bonita, não sei de que lado estão os porcos e as pérolas. LACP
O José Martins foi corrido de casa, posto à porta, despachado. Tinha combinado, já lá vão uns anos, numa noite de encanto, contratar-se com a minha amiga Tucha. Eu já era amigo dela antes, mas aborrecia-me a sua virgindade e também a mania de sacudir os sofás com a palma das mãos. Na verdade não era amigo dela, uma vez que era só ideia minha; gostaria, mas nada. Já dantes, era raro a Tucha falar comigo, mas também eu não lhe dirigia muito a palavra. Tinha a impressão que não me ouvia. Na prática não me ligava nenhuma.
O posterior amigo José, era doutra natureza. Como ele, conheci poucos que levassem tanto a sério o trabalho, e o mesmo é dizer que se esforçava para vencer os inevitáveis aspectos contingentes da vidinha. Talvez auto educado, diligente, curioso. O José fez-se um diabo culto; sabe disto e daquilo, ou seja, defende-se. E mostra que é realista nesse aspecto. Agora corrido de casa, a Tucha, ou seja lá quem for, não pode, nem tirará qualquer benefício desse espírito. A Tucha é uma superficial. Não viu a questão de fundo. Mas sendo tão bonita, não sei de que lado estão os porcos e as pérolas. LACP
Rotações do poder
Os primeiros talvez fossem os reis, mas não se lhes conhece nenhuma profissão. Não é seguro que os republicanos que vieram a seguir tenham feito do poder uma profissão, mas pelo menos houve personalidades e grandes vultos. A seguir, os de Direito tomaram bom posto, revezaram-se e muitos deles vieram de Coimbra. Dos militares já é sabido que o tomam sempre que o desejam ou outros deixam. Alguma fama caiu sobre os economistas, mas não foi tempo durável. É agora chegado o momento das polícias. Não é polícia de segurar governo ou de servir discretamente um ou mais democratas. É polícia directamente no poder, polícia feita de mãos grossas, daquela mesma despeitada por tanto servir outros e finalmente a pretender o lugar número um. LACP
Os primeiros talvez fossem os reis, mas não se lhes conhece nenhuma profissão. Não é seguro que os republicanos que vieram a seguir tenham feito do poder uma profissão, mas pelo menos houve personalidades e grandes vultos. A seguir, os de Direito tomaram bom posto, revezaram-se e muitos deles vieram de Coimbra. Dos militares já é sabido que o tomam sempre que o desejam ou outros deixam. Alguma fama caiu sobre os economistas, mas não foi tempo durável. É agora chegado o momento das polícias. Não é polícia de segurar governo ou de servir discretamente um ou mais democratas. É polícia directamente no poder, polícia feita de mãos grossas, daquela mesma despeitada por tanto servir outros e finalmente a pretender o lugar número um. LACP
Domingo, Outubro 26, 2003
Ode ao sexo fundamental
Nem em duas Odes Marítimas e idênticas
nem com a arte imarcescível do Campos
conseguiria resumir aqui, em linhas talvez concêntricas
a importância fundamental do sexo,
desde que o sol me entra, de manhã, pela janela
até à mais profunda madrugada que Deus dá,
- o sexo; o sexo; o sexo; o sexo como reflexo
de todas as deliberações sociais entre ele e ela,
sexo e sexos para cá e para lá,
o Mundo envolvido no mais gigantesco amplexo
- o complexo mundo do sexo!!!
Vejam bem:
Saio de casa pelo raiar do meio-dia e não resisto
ao menear das ancas da mulher-a-dias
no seu serviço obtuso e agachado
de encerar o assoalho, e insisto:
dou-lhe duas!!!
Dou duas na mulher-a-dias ao meio-dia e saio
para bater leve, levemente
na porta da vizinha da frente...
«Quem é!», grita de dentro o marido ensonado,
e para comigo penso: nessa não caio,
e rapidamente dispenso
o almoço que cheira a queimado
a garrafa de vinho barato e o ensopado
de irozes sem sabor, o caldo entornado,
o disco onde a falecida Amália canta o fado,
a discussão dos garotos que jogam o micado,
as notícias sobre as obras no Chiado
e aquele momento sabiamente programado
que contra a mesa da cozinha, meio enviezado
daria uma na vizinha sem ter sido convidado.
Que se quilhe! Não dei, não está dado!
Quem sabe se
não apanho no elevador que desce
a porteira que sobe
e nesse sobe-e-desce
nos esfregamos para cima e para baixo,
eu que desço
e a porteira que sobe
ou eu que subo
e a porteira que desce,
eu a subir até me vir,
- e já que me vim -
a porteira a descer até se ver
livre de mim.
Quem sabe?
Quem conhece
os mistérios tão fundamentais do sexo?
Seriam precisos Lusíadas inteiros
para ir descrevendo em cantos e estrofes
estes vícios diariamente corriqueiros,
os bacanais, os regalórios, os regabofes,
e as circunvoluções do cérebro não seriam suficientes
para guardar estas ideias impudentes.
Sair à rua é um perigo,
há sexo por toda a parte!
Se calhar há sexo até em Marte...
Sexo no que vejo e no que digo;
sexo no autocarro; sexo no automóvel;
sexo bizarro; sexo imóvel;
sexo ao telefone
(com períodos e sem períodos
depende do ciclo da telefonista);
sexo transeunte
(que os franceses chamam «sexo en passant»);
sexo mirone;
sexo onanista;
sexo sem pecado e sem maçã.
Sexo ao almoço e ao jantar
com tempero e sem tempero;
sexo familiar, particular, parlamentar;
sexo irregular, vulgar e axilar;
sexo preliminar, exemplar, glandular;
sexo celular, cavalar e militar;
perpendicular, vesicular, sexangular.
Sexo em exagero!!!
Ah! E se vocês imaginassem
o sexo que existe num olhar!
E no trabalho?
E no talho?
Sexo em grupo e sem ninguém;
em fotocópias e em duplicado;
em iscas e em picado;
ao domingo e ao feriado.
E eu confesso: não é que me importe,
mas acredito no sexo depois da morte!
E enquanto vivo estas dúvidas terrenas
a maior certeza que cresce em mim
é a de que, no fundo, o sexo é apenas
um carinho que foi até ao fim.
AM
Nem em duas Odes Marítimas e idênticas
nem com a arte imarcescível do Campos
conseguiria resumir aqui, em linhas talvez concêntricas
a importância fundamental do sexo,
desde que o sol me entra, de manhã, pela janela
até à mais profunda madrugada que Deus dá,
- o sexo; o sexo; o sexo; o sexo como reflexo
de todas as deliberações sociais entre ele e ela,
sexo e sexos para cá e para lá,
o Mundo envolvido no mais gigantesco amplexo
- o complexo mundo do sexo!!!
Vejam bem:
Saio de casa pelo raiar do meio-dia e não resisto
ao menear das ancas da mulher-a-dias
no seu serviço obtuso e agachado
de encerar o assoalho, e insisto:
dou-lhe duas!!!
Dou duas na mulher-a-dias ao meio-dia e saio
para bater leve, levemente
na porta da vizinha da frente...
«Quem é!», grita de dentro o marido ensonado,
e para comigo penso: nessa não caio,
e rapidamente dispenso
o almoço que cheira a queimado
a garrafa de vinho barato e o ensopado
de irozes sem sabor, o caldo entornado,
o disco onde a falecida Amália canta o fado,
a discussão dos garotos que jogam o micado,
as notícias sobre as obras no Chiado
e aquele momento sabiamente programado
que contra a mesa da cozinha, meio enviezado
daria uma na vizinha sem ter sido convidado.
Que se quilhe! Não dei, não está dado!
Quem sabe se
não apanho no elevador que desce
a porteira que sobe
e nesse sobe-e-desce
nos esfregamos para cima e para baixo,
eu que desço
e a porteira que sobe
ou eu que subo
e a porteira que desce,
eu a subir até me vir,
- e já que me vim -
a porteira a descer até se ver
livre de mim.
Quem sabe?
Quem conhece
os mistérios tão fundamentais do sexo?
Seriam precisos Lusíadas inteiros
para ir descrevendo em cantos e estrofes
estes vícios diariamente corriqueiros,
os bacanais, os regalórios, os regabofes,
e as circunvoluções do cérebro não seriam suficientes
para guardar estas ideias impudentes.
Sair à rua é um perigo,
há sexo por toda a parte!
Se calhar há sexo até em Marte...
Sexo no que vejo e no que digo;
sexo no autocarro; sexo no automóvel;
sexo bizarro; sexo imóvel;
sexo ao telefone
(com períodos e sem períodos
depende do ciclo da telefonista);
sexo transeunte
(que os franceses chamam «sexo en passant»);
sexo mirone;
sexo onanista;
sexo sem pecado e sem maçã.
Sexo ao almoço e ao jantar
com tempero e sem tempero;
sexo familiar, particular, parlamentar;
sexo irregular, vulgar e axilar;
sexo preliminar, exemplar, glandular;
sexo celular, cavalar e militar;
perpendicular, vesicular, sexangular.
Sexo em exagero!!!
Ah! E se vocês imaginassem
o sexo que existe num olhar!
E no trabalho?
E no talho?
Sexo em grupo e sem ninguém;
em fotocópias e em duplicado;
em iscas e em picado;
ao domingo e ao feriado.
E eu confesso: não é que me importe,
mas acredito no sexo depois da morte!
E enquanto vivo estas dúvidas terrenas
a maior certeza que cresce em mim
é a de que, no fundo, o sexo é apenas
um carinho que foi até ao fim.
AM
Qual o maior rude golpe?
Já pensei em apontar qual deles o maior. Sem dúvida que o de corno não é coisa de somenos, mas é pouco moderno e logo me inclino a pensar que pior não deve haver do que ser mal governado, pertencer a S. Bento e não digo mais que me engano e depois é um nunca mais acabar de pazadas em cima de um cabra em dúvida. Qual o maior e mais pernicioso rude golpe? Alguém me quer ajudar? LACP
Já pensei em apontar qual deles o maior. Sem dúvida que o de corno não é coisa de somenos, mas é pouco moderno e logo me inclino a pensar que pior não deve haver do que ser mal governado, pertencer a S. Bento e não digo mais que me engano e depois é um nunca mais acabar de pazadas em cima de um cabra em dúvida. Qual o maior e mais pernicioso rude golpe? Alguém me quer ajudar? LACP
Sexta-feira, Outubro 24, 2003
O DESPESISMO PÚBLICO
Nas minhas frequentes deslocações pelas estradas deste país, quer por razões profissionais ou por mero turismo, fui-me apercebendo da inutilidade de algumas despesas públicas, o que me levou a concluir estarmos servidos por governantes a quem eu não confiaria nem sequer o tomar conta do meu galinheiro. Não me convencem. E por muitos argumentos que apresentem…desconfio. É que já são muitos anos e os resultados são sempre os mesmos. Não há que enganar, são mesmo incompetentes. Todos! Não pensem que vou “cascar” só neste governo (e haveria muito por onde começar), não senhor, porque este mal já vem de longe. Provavelmente de mais longe do que se poderia pensar, mas está de tal forma agarrado que vai custar a despegar.
Bem, tudo isto tudo porquê? Porque se continua a desbaratar à tripa forra o erário público, o dinheiro de todos nós, venha ele de Bruxelas ou directamente dos exauridos bolsos dos pobres contribuintes.
Não pensem que vou falar do estado da Saúde, com a sua inextricável rede de dívidas para com os hospitais, farmácias, bombeiros, etc…e onde, em caso de doença, para se ter acesso à assistência que por direito nos é devida, pois pagamos para isso, é necessário quase que dormir nas escadas dos postos de atendimento para, com um pouco de sorte, ser examinado por um médico. Isto já para não falar nas famosas e pouco cirúrgicas listas de espera agora tão em moda (não sei porquê, o termo cirúrgico faz-me sempre lembrar a guerra do Golfo…).
Tampouco me quero referir ao estado da Justiça. Que se pode dizer de uma justiça em que os poderosos vêm os seus casos prescrever ou serem objecto de “tratamento especial”, enquanto outros aguardam na prisão, em condições necessariamente mais penosas, a instrução dos seus processos?
Nem sequer me vou referir à Educação que, neste pais de elevado índice de analfabetismo deveria constituir, de facto, a verdadeira paixão de qualquer governo.
Quero pura e simplesmente fazer algumas considerações sobre as Obras Públicas. Desiludam-se, porém, aqueles que esperam que me vá pronunciar sobre as recentes tragédias ou sobre as obras da Capital Europeia da Cultura. Não, não é disso que vou falar. Nem sequer vou tocar naquele espinho que ainda trago atravessado na garganta e que se chama Linha do Norte (ainda se lembram que foram comprados comboios ultra sofisticados a preços ultra elevados para que se pudesse fazer a viagem de Lisboa ao Porto em 2 horas e 15 minutos? E que depois de muitos milhões gastos, não só em material circulante como também na manta de retalhos que são agora os diversos troços da via férrea, se consegue actualmente a brilhante proeza de efectuar o trajecto nas mesmas 3 horas e tal em que já era feito? Isto quando tudo corre bem e não há os habituais contratempos. Que diferença dos nossos vizinhos que até devolvem o dinheiro dos bilhetes quando o AVE regista mais de 15 minutos de atraso!).
Não, o que quero é chamar a Vossa atenção para o despesismo que tem havido na construção das auto estradas. Já repararam que em determinados troços se construíram três faixas de rodagem? E por acaso notaram que só duas é que são utilizadas? Que ninguém utiliza a faixa da direita? Então isto não é uma evidente falta de capacidade de gestão? Para quê tantas faixas de rodagem se, depois, noventa por cento dos utentes circula na faixa central? Que falta de senso de quem projecta. Que ausência de visão estratégica de quem decide. Brada aos céus! Ainda por cima ainda ninguém se preocupou em tentar descobrir as razões que levam aos automobilistas a relegarem para segundo plano a referida faixa. Não foi feito nenhum inquérito, não se efectuaram quaisquer sondagens, nem sequer o Paulo Portas propôs a realização de um referendo sobre o assunto !
Confesso que também levei algum tempo a perceber as razões de tal fenómeno. Mas se eu próprio consegui deslindar o assunto, como será possível que quem tem a tarefa de nos governar, sendo muito mais apto e esclarecido, não tenha percebido logo, tirado as consequentes ilações e encurtado a largura das estradas dando um melhor destino uns milhões que ali se gastaram (e gastam) ?
Ora a explicação é bem simples: isto é tudo uma questão política.
Como todos sabem, cerca de 80% da população é possuidora de transporte motorizado. Ora, pela sua condução e pela maneira como se comporta nas estradas, constata-se que a grande maioria do povo português é do centro-esquerda. Daí que os automobilistas prefiram circular na zona central, com alguns arremedos para o lado esquerdo. Como querem então que se passe a transitar na direita, quando isso das direitas é para os faxistas?
Que fazer nesta situação, perguntar-me-ão, quando estão já concluídas centenas de quilómetros de rodovias sem qualquer proveito? Ora bem, como não poderia deixar de ser, aqui vai, uma vez mais, o meu modesto contributo: proponho que se inicie desde já uma campanha de esclarecimento político em que se estabeleça a destrinça entre o código da estrada e as tendências políticas de cada um ou então, que se faça uma alteração a esse mesmo código interditando ao trânsito, pura e simplesmente, a faixa da direita. No limite, que a dita faixa seja reservada exclusivamente para turistas e para os passeios ciclistas do Engº Macário Correia.
AVRD
Nas minhas frequentes deslocações pelas estradas deste país, quer por razões profissionais ou por mero turismo, fui-me apercebendo da inutilidade de algumas despesas públicas, o que me levou a concluir estarmos servidos por governantes a quem eu não confiaria nem sequer o tomar conta do meu galinheiro. Não me convencem. E por muitos argumentos que apresentem…desconfio. É que já são muitos anos e os resultados são sempre os mesmos. Não há que enganar, são mesmo incompetentes. Todos! Não pensem que vou “cascar” só neste governo (e haveria muito por onde começar), não senhor, porque este mal já vem de longe. Provavelmente de mais longe do que se poderia pensar, mas está de tal forma agarrado que vai custar a despegar.
Bem, tudo isto tudo porquê? Porque se continua a desbaratar à tripa forra o erário público, o dinheiro de todos nós, venha ele de Bruxelas ou directamente dos exauridos bolsos dos pobres contribuintes.
Não pensem que vou falar do estado da Saúde, com a sua inextricável rede de dívidas para com os hospitais, farmácias, bombeiros, etc…e onde, em caso de doença, para se ter acesso à assistência que por direito nos é devida, pois pagamos para isso, é necessário quase que dormir nas escadas dos postos de atendimento para, com um pouco de sorte, ser examinado por um médico. Isto já para não falar nas famosas e pouco cirúrgicas listas de espera agora tão em moda (não sei porquê, o termo cirúrgico faz-me sempre lembrar a guerra do Golfo…).
Tampouco me quero referir ao estado da Justiça. Que se pode dizer de uma justiça em que os poderosos vêm os seus casos prescrever ou serem objecto de “tratamento especial”, enquanto outros aguardam na prisão, em condições necessariamente mais penosas, a instrução dos seus processos?
Nem sequer me vou referir à Educação que, neste pais de elevado índice de analfabetismo deveria constituir, de facto, a verdadeira paixão de qualquer governo.
Quero pura e simplesmente fazer algumas considerações sobre as Obras Públicas. Desiludam-se, porém, aqueles que esperam que me vá pronunciar sobre as recentes tragédias ou sobre as obras da Capital Europeia da Cultura. Não, não é disso que vou falar. Nem sequer vou tocar naquele espinho que ainda trago atravessado na garganta e que se chama Linha do Norte (ainda se lembram que foram comprados comboios ultra sofisticados a preços ultra elevados para que se pudesse fazer a viagem de Lisboa ao Porto em 2 horas e 15 minutos? E que depois de muitos milhões gastos, não só em material circulante como também na manta de retalhos que são agora os diversos troços da via férrea, se consegue actualmente a brilhante proeza de efectuar o trajecto nas mesmas 3 horas e tal em que já era feito? Isto quando tudo corre bem e não há os habituais contratempos. Que diferença dos nossos vizinhos que até devolvem o dinheiro dos bilhetes quando o AVE regista mais de 15 minutos de atraso!).
Não, o que quero é chamar a Vossa atenção para o despesismo que tem havido na construção das auto estradas. Já repararam que em determinados troços se construíram três faixas de rodagem? E por acaso notaram que só duas é que são utilizadas? Que ninguém utiliza a faixa da direita? Então isto não é uma evidente falta de capacidade de gestão? Para quê tantas faixas de rodagem se, depois, noventa por cento dos utentes circula na faixa central? Que falta de senso de quem projecta. Que ausência de visão estratégica de quem decide. Brada aos céus! Ainda por cima ainda ninguém se preocupou em tentar descobrir as razões que levam aos automobilistas a relegarem para segundo plano a referida faixa. Não foi feito nenhum inquérito, não se efectuaram quaisquer sondagens, nem sequer o Paulo Portas propôs a realização de um referendo sobre o assunto !
Confesso que também levei algum tempo a perceber as razões de tal fenómeno. Mas se eu próprio consegui deslindar o assunto, como será possível que quem tem a tarefa de nos governar, sendo muito mais apto e esclarecido, não tenha percebido logo, tirado as consequentes ilações e encurtado a largura das estradas dando um melhor destino uns milhões que ali se gastaram (e gastam) ?
Ora a explicação é bem simples: isto é tudo uma questão política.
Como todos sabem, cerca de 80% da população é possuidora de transporte motorizado. Ora, pela sua condução e pela maneira como se comporta nas estradas, constata-se que a grande maioria do povo português é do centro-esquerda. Daí que os automobilistas prefiram circular na zona central, com alguns arremedos para o lado esquerdo. Como querem então que se passe a transitar na direita, quando isso das direitas é para os faxistas?
Que fazer nesta situação, perguntar-me-ão, quando estão já concluídas centenas de quilómetros de rodovias sem qualquer proveito? Ora bem, como não poderia deixar de ser, aqui vai, uma vez mais, o meu modesto contributo: proponho que se inicie desde já uma campanha de esclarecimento político em que se estabeleça a destrinça entre o código da estrada e as tendências políticas de cada um ou então, que se faça uma alteração a esse mesmo código interditando ao trânsito, pura e simplesmente, a faixa da direita. No limite, que a dita faixa seja reservada exclusivamente para turistas e para os passeios ciclistas do Engº Macário Correia.
AVRD
A PROCURA AFLITA
DE UM PONTO FINAL
Quando éramos garotos, namorados, inseparáveis, havia um café com nome de cidade de França
St. Tropez?,
ou talvez não de cidade mas de região inteira
Pirenéus?,
mas acho que era mesmo de cidade,
Brest?,
era lá que nos sentávamos nos dias de Inverno, os pardais mergulhavam no conforto das árvores, tu seguravas a chávena do café entre as palmas das mãos, aquecendo-as numa concha íntima, às vezes chovia para lá da vidraça e os empregados retiravam apressadamente a esplanada,
Bourges?,
às vezes o céu era de um azul cristalino e eu gostava de ver fiapos de nuvens deslizando por ele devagar como o fazia nas Primaveras infantis do Olival a mastigar pedaços pequeninos de palha sem saber ainda como seriam as conchas das tuas mãos em redor de uma chávena de café, como seria a minha vida de agora a empilhar letras e mais letras em folhas de papel em branco, a descobrir atentamente as pausas onde encaixar as vírgulas com correcção, a descobrir a forma como os teus olhos se debruçavam sobre os cadernos e os livros de Direito; volta e meia desmontavas metade da concha das mãos e sublinhavas uma frase importante com a importância do azul da tinta permanente; volta e meia desmontavas metade da concha das mãos e eu via a risca azul da chávena do café que estava escondida atrás delas; os empregados sempre atentos à meteorologia,
Bayonne?,
a desenrolarem a esplanada de novo no passeio, a abrirem os guarda-sóis com anúncios da Canada Dry; as velhotas a recuperarem os cházinhos de limão com a casca dentro do líquido transparente e amarelo; os garotos debruçados sobre a fonte que fica defronte da igreja de São João de Brito numa saudade antecipada de mergulhos de Verão na água suja; os autocarros verdes de dois andares a fumegarem de esforço na paragem do 21 para a Avenida de Berlim; o pica-bilhetes agarrado ao ferro da porta de trás com pancadas de alicate a orientar os arranques do condutor,
tim-tim-tim
- SIGA!;
o melro saltitava pelo chão na procura das migalhas, afrontando as pombas e assustando os pardais; murmúrios de vozes vinham do fundo da sala onde se juntava a tertúlia dos reformados,
Dijon?;
eu perdia-me no movimento atento dos teus olhos sobre a autoridade dos códigos e das sebentas, atento à vontade por vezes incontrolável das vírgulas, atento à concha das tuas mãos que se abria e fechava numa necessidade momentânea de caneta de tinta permanente, atento ao deslizar suave das nuvens como farripas de algodão sopradas de uma palhinha de menino que faz bolas de sabão, tudo a nascer de repente, a crescer de repente e a desfazer-se de repente como na vida; um som estrídulo de buzina de automóvel de condutor irritado; as montras ainda enfeitadas de Natal com fitas douradas e prateadas como penas plastificadas de dançarinas de can-can no Moulin Rouge; os empregados equilibrando com minúcia torradas e jesuítas e folhados de carne na lisura metalizada das bandejas; um odor confortável de meias de leite com café que parecia vir direitinho das tardes amolecidas da infância, sem sequer passar pela casa de partida e receber os dois mil escudos como nos jogos do Monopólio da saleta aquecida a braseira da minha avó; o resfolegar cansado dos autocarros verdes que tinham escadas em caracol para o andar de cima,
tim-tim-tim
- SIGA!;
a azáfama dos empregados a satisfazer pedidos de bolos com nomes franceses,
duchaises, croissants, palmiers,
seria Béziers?,
não, não era certamente, era outro nome qualquer com cheiro a mar, com vento à mistura, um vento daqueles que empurra gaivotas, desacerta cabelos e desarruma vírgulas, um vento de areias e conchas fechadas sobre chávenas quentes de café que fumegam aquecendo as tuas mãos, aquecendo os teus olhos absolutamente atentos à verdade dos cadernos, de quando em vez distraídos nos meus que não encontram lugar para fugir, nem sequer dentro de ti, de quando em vez procurando insistentemente nos meus as palavras que não digo, que não sei dizer, que nunca soube dizer, que sei apenas escrever por toda a parte onde exista uma página em branco, as palavras que vou amontoando letra a letra dentro de mim sem saber onde as despejar de tempos a tempos; as palavras que me afligem e tu a distraíres-te dos códigos para perderes um pouco da tua atenção na minha aflição; para lá da vidraça os prédios absorvem as sombras da tarde; as pessoas caminham distraídas numa excitação de tráfegos; os pássaros esvoaçam para o refúgio das árvores que ficam por detrás da igreja de S. João de Brito; tu desenlaças definitivamente a concha das mãos, fechas a sabedoria com gestos suaves e pacientes, enclausuras as leis em capas de cores indefinidas, perguntas-me qualquer coisa da qual já perdi o sentido, perguntas-me qualquer coisa a que não sei responder, perguntas-me qualquer coisa e eu só queria, aqui e agora, lembrar-me do nome francês do café onde estávamos sentados,
Besançon?,
começava por bê, tenho a certeza de que começava por bê,
Biarritz!,
isso mesmo,
Biarritz!,
perguntavas-me qualquer coisa e eu não sentia este alívio que agora sinto; perguntavas-me qualquer coisa e eu limitava-me a olhar o céu azul pálido pelo qual deslizavam fiapos brancos de nuvens leves; perguntavas-me qualquer coisa e eu perdia-me numa confusão em desatino de vírgulas sem intervalos, perguntavas-me qualquer coisa e eu limitava-me a esconder aquela absurda, aquela tão grande aflição de não saber em que lugar colocar um ponto final.
AM
DE UM PONTO FINAL
Quando éramos garotos, namorados, inseparáveis, havia um café com nome de cidade de França
St. Tropez?,
ou talvez não de cidade mas de região inteira
Pirenéus?,
mas acho que era mesmo de cidade,
Brest?,
era lá que nos sentávamos nos dias de Inverno, os pardais mergulhavam no conforto das árvores, tu seguravas a chávena do café entre as palmas das mãos, aquecendo-as numa concha íntima, às vezes chovia para lá da vidraça e os empregados retiravam apressadamente a esplanada,
Bourges?,
às vezes o céu era de um azul cristalino e eu gostava de ver fiapos de nuvens deslizando por ele devagar como o fazia nas Primaveras infantis do Olival a mastigar pedaços pequeninos de palha sem saber ainda como seriam as conchas das tuas mãos em redor de uma chávena de café, como seria a minha vida de agora a empilhar letras e mais letras em folhas de papel em branco, a descobrir atentamente as pausas onde encaixar as vírgulas com correcção, a descobrir a forma como os teus olhos se debruçavam sobre os cadernos e os livros de Direito; volta e meia desmontavas metade da concha das mãos e sublinhavas uma frase importante com a importância do azul da tinta permanente; volta e meia desmontavas metade da concha das mãos e eu via a risca azul da chávena do café que estava escondida atrás delas; os empregados sempre atentos à meteorologia,
Bayonne?,
a desenrolarem a esplanada de novo no passeio, a abrirem os guarda-sóis com anúncios da Canada Dry; as velhotas a recuperarem os cházinhos de limão com a casca dentro do líquido transparente e amarelo; os garotos debruçados sobre a fonte que fica defronte da igreja de São João de Brito numa saudade antecipada de mergulhos de Verão na água suja; os autocarros verdes de dois andares a fumegarem de esforço na paragem do 21 para a Avenida de Berlim; o pica-bilhetes agarrado ao ferro da porta de trás com pancadas de alicate a orientar os arranques do condutor,
tim-tim-tim
- SIGA!;
o melro saltitava pelo chão na procura das migalhas, afrontando as pombas e assustando os pardais; murmúrios de vozes vinham do fundo da sala onde se juntava a tertúlia dos reformados,
Dijon?;
eu perdia-me no movimento atento dos teus olhos sobre a autoridade dos códigos e das sebentas, atento à vontade por vezes incontrolável das vírgulas, atento à concha das tuas mãos que se abria e fechava numa necessidade momentânea de caneta de tinta permanente, atento ao deslizar suave das nuvens como farripas de algodão sopradas de uma palhinha de menino que faz bolas de sabão, tudo a nascer de repente, a crescer de repente e a desfazer-se de repente como na vida; um som estrídulo de buzina de automóvel de condutor irritado; as montras ainda enfeitadas de Natal com fitas douradas e prateadas como penas plastificadas de dançarinas de can-can no Moulin Rouge; os empregados equilibrando com minúcia torradas e jesuítas e folhados de carne na lisura metalizada das bandejas; um odor confortável de meias de leite com café que parecia vir direitinho das tardes amolecidas da infância, sem sequer passar pela casa de partida e receber os dois mil escudos como nos jogos do Monopólio da saleta aquecida a braseira da minha avó; o resfolegar cansado dos autocarros verdes que tinham escadas em caracol para o andar de cima,
tim-tim-tim
- SIGA!;
a azáfama dos empregados a satisfazer pedidos de bolos com nomes franceses,
duchaises, croissants, palmiers,
seria Béziers?,
não, não era certamente, era outro nome qualquer com cheiro a mar, com vento à mistura, um vento daqueles que empurra gaivotas, desacerta cabelos e desarruma vírgulas, um vento de areias e conchas fechadas sobre chávenas quentes de café que fumegam aquecendo as tuas mãos, aquecendo os teus olhos absolutamente atentos à verdade dos cadernos, de quando em vez distraídos nos meus que não encontram lugar para fugir, nem sequer dentro de ti, de quando em vez procurando insistentemente nos meus as palavras que não digo, que não sei dizer, que nunca soube dizer, que sei apenas escrever por toda a parte onde exista uma página em branco, as palavras que vou amontoando letra a letra dentro de mim sem saber onde as despejar de tempos a tempos; as palavras que me afligem e tu a distraíres-te dos códigos para perderes um pouco da tua atenção na minha aflição; para lá da vidraça os prédios absorvem as sombras da tarde; as pessoas caminham distraídas numa excitação de tráfegos; os pássaros esvoaçam para o refúgio das árvores que ficam por detrás da igreja de S. João de Brito; tu desenlaças definitivamente a concha das mãos, fechas a sabedoria com gestos suaves e pacientes, enclausuras as leis em capas de cores indefinidas, perguntas-me qualquer coisa da qual já perdi o sentido, perguntas-me qualquer coisa a que não sei responder, perguntas-me qualquer coisa e eu só queria, aqui e agora, lembrar-me do nome francês do café onde estávamos sentados,
Besançon?,
começava por bê, tenho a certeza de que começava por bê,
Biarritz!,
isso mesmo,
Biarritz!,
perguntavas-me qualquer coisa e eu não sentia este alívio que agora sinto; perguntavas-me qualquer coisa e eu limitava-me a olhar o céu azul pálido pelo qual deslizavam fiapos brancos de nuvens leves; perguntavas-me qualquer coisa e eu perdia-me numa confusão em desatino de vírgulas sem intervalos, perguntavas-me qualquer coisa e eu limitava-me a esconder aquela absurda, aquela tão grande aflição de não saber em que lugar colocar um ponto final.
AM
Quinta-feira, Outubro 23, 2003
Olhar Ruminante 22OUT
Felizmente há os outros 30%
Estou a ouvir as colaborações de populares no forum TSF.
Na argumentação, mantêm-se os antes referidos 70% de intervenções abaixo dos níveis toleráveis de estupidez.
O português, sob a aparência de crítica (crítica que, em princípio, é socialmente positiva), pratica e gosta é da “má-língua”, da maledicência, da perfídia da divulgação do boato.
Contra “eles”, em abstracto. O poder, os poderosos, os outros.
Eles.
Numa atitude mais de inveja e de frustração, do que de crítica racional.
E como se não fossem cúmplices (todos somos) na situação, por participação ou omissão!
A situação é evidentemente confusa.
Particularmente confusa.
Cheia de falsidades, meias-verdades e informações incompletas, viciadas à partida.
Haverá agentes que a querem tornar ainda mais confusa (na pedofilia para fazer “esquecer” a averiguação dos responsáveis pela rede pedófila, pela prostituição infantil, pelo tráfego de crianças?).
Pressente-se uma “organização” a largar, judiciosamente, pingas de desinformação, vectorizada para, aumentando o impacte do espectáculo, distrair das questões essenciais.
Ou talvez se trate de vinganças e questões pessoais, coisas antigas ou modernas.
Sei lá.
A informação pública, agora chamada “media” ou, pior ainda, “midia”, deixou de se preocupar com a factualidade na informação, para apenas a travestir de “notícia”, para o show, para o espectáculo, a novela, o drama.
The show must go on.
É o que está a dar. A irresponsabilização é geral. É fartar, vilanagem!
Refiro-me aos jornalistas, claro.
Mas face às características intelectuais e à cultura deste nosso bom Povo, tal não seria sequer necessário, pois, a crer na maioria das participações nestes “fora”, Portugal faz naturalmente esse trabalho de baralhar, dar de novo, rebaralhar e tornar a dar.
De forma a que, a certa altura, já todos se esqueceram do que inicialmente se estava a discutir.
Mesmo sem a especializada ajuda dos media.
Por sistema, foca-se e aprofunda-se a análise em aspectos marginais, ao lado, do cerne das questões.
Complica-se o simples como se respira.
Generaliza-se o particular.
Viciam-se os factos através de conjecturas.
Conjectura-se como terapêutica de psicanálise e fora de qualquer processo de raciocínio lógico.
Como catarse de frustrações ancestrais.
Frustrações que deram, durante 600 anos, autos-de-fé, inquisições e carnificinas.
É muito tempo. Marca.
Resultantes de muita emoção e pouca razão.
Como agora no caso dos acima referidos 70% de compatriotas.
Pouco ou nada se consegue fazer para arrepiar caminho.
Será um novo paradigma da nossa cultura?
Infelizmente não.
Os paradigmas têm ideais subjacentes e dinâmicas de mudança.
Aqui é apenas decadência.
Decadência nos valores do paradigma antigo.
Podridão.
O Pântano.
Não se consegue mudar o Povo.
70% de Portugal será assim mesmo.
Felizmente há os outros 30%.
ASP
Felizmente há os outros 30%
Estou a ouvir as colaborações de populares no forum TSF.
Na argumentação, mantêm-se os antes referidos 70% de intervenções abaixo dos níveis toleráveis de estupidez.
O português, sob a aparência de crítica (crítica que, em princípio, é socialmente positiva), pratica e gosta é da “má-língua”, da maledicência, da perfídia da divulgação do boato.
Contra “eles”, em abstracto. O poder, os poderosos, os outros.
Eles.
Numa atitude mais de inveja e de frustração, do que de crítica racional.
E como se não fossem cúmplices (todos somos) na situação, por participação ou omissão!
A situação é evidentemente confusa.
Particularmente confusa.
Cheia de falsidades, meias-verdades e informações incompletas, viciadas à partida.
Haverá agentes que a querem tornar ainda mais confusa (na pedofilia para fazer “esquecer” a averiguação dos responsáveis pela rede pedófila, pela prostituição infantil, pelo tráfego de crianças?).
Pressente-se uma “organização” a largar, judiciosamente, pingas de desinformação, vectorizada para, aumentando o impacte do espectáculo, distrair das questões essenciais.
Ou talvez se trate de vinganças e questões pessoais, coisas antigas ou modernas.
Sei lá.
A informação pública, agora chamada “media” ou, pior ainda, “midia”, deixou de se preocupar com a factualidade na informação, para apenas a travestir de “notícia”, para o show, para o espectáculo, a novela, o drama.
The show must go on.
É o que está a dar. A irresponsabilização é geral. É fartar, vilanagem!
Refiro-me aos jornalistas, claro.
Mas face às características intelectuais e à cultura deste nosso bom Povo, tal não seria sequer necessário, pois, a crer na maioria das participações nestes “fora”, Portugal faz naturalmente esse trabalho de baralhar, dar de novo, rebaralhar e tornar a dar.
De forma a que, a certa altura, já todos se esqueceram do que inicialmente se estava a discutir.
Mesmo sem a especializada ajuda dos media.
Por sistema, foca-se e aprofunda-se a análise em aspectos marginais, ao lado, do cerne das questões.
Complica-se o simples como se respira.
Generaliza-se o particular.
Viciam-se os factos através de conjecturas.
Conjectura-se como terapêutica de psicanálise e fora de qualquer processo de raciocínio lógico.
Como catarse de frustrações ancestrais.
Frustrações que deram, durante 600 anos, autos-de-fé, inquisições e carnificinas.
É muito tempo. Marca.
Resultantes de muita emoção e pouca razão.
Como agora no caso dos acima referidos 70% de compatriotas.
Pouco ou nada se consegue fazer para arrepiar caminho.
Será um novo paradigma da nossa cultura?
Infelizmente não.
Os paradigmas têm ideais subjacentes e dinâmicas de mudança.
Aqui é apenas decadência.
Decadência nos valores do paradigma antigo.
Podridão.
O Pântano.
Não se consegue mudar o Povo.
70% de Portugal será assim mesmo.
Felizmente há os outros 30%.
ASP
Quarta-feira, Outubro 22, 2003
EM COLVA, DE REPENTE
De repente, tive a certeza absoluta que, lá longe, noutra esquina do Planeta, alguma coisa importante se quebrara na minha vida.
Pensei em ti e, pela primeira vez, não me senti completo.
À distância, as certezas são muito importantes.
À distância, as certezas fazem-nos ficar por dentro azuis e calmos.
Passou uma brisa: absorvi-a por inteiro, como se fosse uma árvore.
Quis fazer a promessa impossível, mas em Colva as promessas nunca se cumprem.
Pedi desculpa só para mim e ninguém ouviu.
Toda a Índia me envolveu num abraço de mãe que pega no seu filho ao colo. AM
De repente, tive a certeza absoluta que, lá longe, noutra esquina do Planeta, alguma coisa importante se quebrara na minha vida.
Pensei em ti e, pela primeira vez, não me senti completo.
À distância, as certezas são muito importantes.
À distância, as certezas fazem-nos ficar por dentro azuis e calmos.
Passou uma brisa: absorvi-a por inteiro, como se fosse uma árvore.
Quis fazer a promessa impossível, mas em Colva as promessas nunca se cumprem.
Pedi desculpa só para mim e ninguém ouviu.
Toda a Índia me envolveu num abraço de mãe que pega no seu filho ao colo. AM
FALTA DE RESPEITO
- Estou?
- Tá, Nuno?
- Sim.. João?
- Não. Pedro...
- Ah! Tás bom?
- Tou óptimo, e tu?
- Também, pá.. ainda bem que ligaste. Viste o meu e-mail?
- Não, quando é que mandaste?
- Foda-se, ontem! Disseste que ias ver...
- Porra, Nuno, não pude! Fui jantar a casa do meu Pai e... espera aí um bocado...
- ...
- Desculpa, tinha uma chamada em espera... Isto é incrível! Nunca tive... eh pá, nunca pedi este serviço à Telecel... Vodafone e activaram-me esta merda! Já lá em casa, no fixo, foi a mesma coisa...
- Olha, eu também nunca pedi nada... e até telefonemas a dizer que tenho mensagens me aparecem! Vai à loja da PT do Colombo. A gaja de lá tem uma mamas... Olha, pede ao teu primo para ir...
- Com os gajos da PT, só à cacetada!
- Só dando cabo dos gajos, mas não há alternativa...
- Tou-me cagando para os gajos. Estas merdas do Estado são sempre a mesma merda!
- O quê, estou-te a perder...
- E.tas mer... do Est...o são .empre a me.ma .erda!
- Deves estar sem rede. Liga-me quando isso estiver bom..
- Tá be.. At. .á!
- ...
Imaginando, por exemplo, que isto é uma conversa entre PAS, o político activo, e NCS, o creativo da TV, isto era ou não era um desrespeito pelas grandes instituições e em quem nelas trabalham? ACA
- Estou?
- Tá, Nuno?
- Sim.. João?
- Não. Pedro...
- Ah! Tás bom?
- Tou óptimo, e tu?
- Também, pá.. ainda bem que ligaste. Viste o meu e-mail?
- Não, quando é que mandaste?
- Foda-se, ontem! Disseste que ias ver...
- Porra, Nuno, não pude! Fui jantar a casa do meu Pai e... espera aí um bocado...
- ...
- Desculpa, tinha uma chamada em espera... Isto é incrível! Nunca tive... eh pá, nunca pedi este serviço à Telecel... Vodafone e activaram-me esta merda! Já lá em casa, no fixo, foi a mesma coisa...
- Olha, eu também nunca pedi nada... e até telefonemas a dizer que tenho mensagens me aparecem! Vai à loja da PT do Colombo. A gaja de lá tem uma mamas... Olha, pede ao teu primo para ir...
- Com os gajos da PT, só à cacetada!
- Só dando cabo dos gajos, mas não há alternativa...
- Tou-me cagando para os gajos. Estas merdas do Estado são sempre a mesma merda!
- O quê, estou-te a perder...
- E.tas mer... do Est...o são .empre a me.ma .erda!
- Deves estar sem rede. Liga-me quando isso estiver bom..
- Tá be.. At. .á!
- ...
Imaginando, por exemplo, que isto é uma conversa entre PAS, o político activo, e NCS, o creativo da TV, isto era ou não era um desrespeito pelas grandes instituições e em quem nelas trabalham? ACA
Olhar ruminante 21OUT
A grande batalha, quer dizer, baralha.
Inevitável falar-se, agora, do caso Pedroso e das suas sequelas político-partidárias.
Porque o que se tem visto é uma generalizada perdição de cabeças e exacerbamento de paixões agonísticas.
Uma confusão. Um desconsolo. Uma preocupação.
Tenho assim que blogar mais algumas ideias sobre o assunto. Procurarei não me repetir.
1. Quando o Ministério Público pôs sob escuta o Secretário geral do PS e o seu chefe do Grupo Parlamentar, nem um nem outro suspeitos ou indiciados em qualquer crime em investigação, politizou e partidarizou a Justiça. Irreversivelmente.
2. O que há que averiguar – e o PGR nada tem feito nesse sentido – é porque é que o MP, neste caso, quis politizar o processo e a Justiça. Como não foram espiadas os telefonemas de todos os amigos e relações do Dr. Pedroso, o escolher os dois acima citados, houve, descaradamente, um intuito de índole político-partidário.
3. A partir daí foi só deixar correr as coisas normalmente, que, em Portugal, é quase sempre de forma anormal, em termos racionais.
4. A atitude dos amigos e da família do Pedroso, quando souberam que se estava a preparar, com a máxima escandaleira-visibilidade possível, a sua prisão preventiva, foi a normal em todos os amigos e familiares de gente que é, surpreendentemente, arguida, seja em que processo for - procurar informar-se junto de quem sabe, de quem está metido nesses assuntos, das acusações e procedimentos judiciais – MP, PGR, juízes, etc – para saberem o que passava;
5. Relacionar tal com obstrução à Justiça é fruto de uma mente doentiamente persecutória ou imbuída de intuitos estranhos à averiguação dos factos em concreto importantes para o processo da pedofilia;
6. Calhou (?) que o Pedroso fosse o nº 2 do PS; e que, portanto, os seus amigos fossem gente de conhecimentos mais latos do que o cidadão comum. Onde está o mal? Onde está a ilegalidade de tentarem saber notícias e razões através desses contactos? Ou era previsível que ficassem todos quietos e consentâneos com o absurdo que, para eles pelo menos, era essa notícia?
7. Fraca opinião do PR, PGR e MP, terá o Juiz que entendeu tais movimentos como tentativas de obstrução à Justiça e como existência de risco de influenciar os contactados. Por um lado é gente que merece tanta ou mais credibilidade de isenção que o juiz de instrução; por outro porque o que foi perguntado e dito nos contactos realizados era completamente inócuo, a julgar pelos textos abusivamente e ilegalmente divulgados pelo MP.
8. Assim o considerou o Tribunal da Relação de Lisboa. Assim o consideraram todos os contactados, desde o prof. Marcelo ao Dr. Morais Sarmento.
9. Por trás de tudo isto sente-se uma “organização”a mexer cordéis, a deixar fugir “segredos” judiciosamente a conta gotas, a desviar para aspectos laterais a atenção que se devia concentrar nas averiguações sobre a rede de prostituição, o tráfego de menores em Portugal e a pedofilia institucionalizada, que se arrisca a ficar “esquecida” nesta confusão;
10. Agora, se o PS sabia com 2 meses de antecedência a previsibilidade do Pedroso ser preso e nomeou o seu irmão para o Conselho Superior de Magistratura, fez mal e tem de se explicar perante os portugueses dessa “esperteza saloia”; mas parece que tal foram suposições da mente transbordante do professor Marcelo, que, é bom não nos esquecer, usa assaz a sua função de comentador para explicar porque é que o seu partido é melhor do que os outros, mesmo que alguns dos seus componentes de vez em quando o desiludam . E é melhor porque ele lá está, claro.
11. Estou a ouvir o fórum TSF sobre o segredo de Justiça. Mantém-se a percentagem de 70% de intervenções estúpidas, a nível de espontâneos. Como estamos em democracia, onde as maiorias mandam e porque a informação é feita para agradar a essas maiorias de consumidores, não nos podemos admirar de toda a irracionalidade vigente neste nosso pobre País.
ASP
A grande batalha, quer dizer, baralha.
Inevitável falar-se, agora, do caso Pedroso e das suas sequelas político-partidárias.
Porque o que se tem visto é uma generalizada perdição de cabeças e exacerbamento de paixões agonísticas.
Uma confusão. Um desconsolo. Uma preocupação.
Tenho assim que blogar mais algumas ideias sobre o assunto. Procurarei não me repetir.
1. Quando o Ministério Público pôs sob escuta o Secretário geral do PS e o seu chefe do Grupo Parlamentar, nem um nem outro suspeitos ou indiciados em qualquer crime em investigação, politizou e partidarizou a Justiça. Irreversivelmente.
2. O que há que averiguar – e o PGR nada tem feito nesse sentido – é porque é que o MP, neste caso, quis politizar o processo e a Justiça. Como não foram espiadas os telefonemas de todos os amigos e relações do Dr. Pedroso, o escolher os dois acima citados, houve, descaradamente, um intuito de índole político-partidário.
3. A partir daí foi só deixar correr as coisas normalmente, que, em Portugal, é quase sempre de forma anormal, em termos racionais.
4. A atitude dos amigos e da família do Pedroso, quando souberam que se estava a preparar, com a máxima escandaleira-visibilidade possível, a sua prisão preventiva, foi a normal em todos os amigos e familiares de gente que é, surpreendentemente, arguida, seja em que processo for - procurar informar-se junto de quem sabe, de quem está metido nesses assuntos, das acusações e procedimentos judiciais – MP, PGR, juízes, etc – para saberem o que passava;
5. Relacionar tal com obstrução à Justiça é fruto de uma mente doentiamente persecutória ou imbuída de intuitos estranhos à averiguação dos factos em concreto importantes para o processo da pedofilia;
6. Calhou (?) que o Pedroso fosse o nº 2 do PS; e que, portanto, os seus amigos fossem gente de conhecimentos mais latos do que o cidadão comum. Onde está o mal? Onde está a ilegalidade de tentarem saber notícias e razões através desses contactos? Ou era previsível que ficassem todos quietos e consentâneos com o absurdo que, para eles pelo menos, era essa notícia?
7. Fraca opinião do PR, PGR e MP, terá o Juiz que entendeu tais movimentos como tentativas de obstrução à Justiça e como existência de risco de influenciar os contactados. Por um lado é gente que merece tanta ou mais credibilidade de isenção que o juiz de instrução; por outro porque o que foi perguntado e dito nos contactos realizados era completamente inócuo, a julgar pelos textos abusivamente e ilegalmente divulgados pelo MP.
8. Assim o considerou o Tribunal da Relação de Lisboa. Assim o consideraram todos os contactados, desde o prof. Marcelo ao Dr. Morais Sarmento.
9. Por trás de tudo isto sente-se uma “organização”a mexer cordéis, a deixar fugir “segredos” judiciosamente a conta gotas, a desviar para aspectos laterais a atenção que se devia concentrar nas averiguações sobre a rede de prostituição, o tráfego de menores em Portugal e a pedofilia institucionalizada, que se arrisca a ficar “esquecida” nesta confusão;
10. Agora, se o PS sabia com 2 meses de antecedência a previsibilidade do Pedroso ser preso e nomeou o seu irmão para o Conselho Superior de Magistratura, fez mal e tem de se explicar perante os portugueses dessa “esperteza saloia”; mas parece que tal foram suposições da mente transbordante do professor Marcelo, que, é bom não nos esquecer, usa assaz a sua função de comentador para explicar porque é que o seu partido é melhor do que os outros, mesmo que alguns dos seus componentes de vez em quando o desiludam . E é melhor porque ele lá está, claro.
11. Estou a ouvir o fórum TSF sobre o segredo de Justiça. Mantém-se a percentagem de 70% de intervenções estúpidas, a nível de espontâneos. Como estamos em democracia, onde as maiorias mandam e porque a informação é feita para agradar a essas maiorias de consumidores, não nos podemos admirar de toda a irracionalidade vigente neste nosso pobre País.
ASP
PÁSSAROS DE PLÁSTICO
NUM CÉU DE SOLIDÃO
A senhora velhinha que morava no 3º esquerdo afastou cuidadosamente as cortinas de plástico com pássaros e silhuetas de pássaros desenhadas a azul e espreitou para o pátio através da cegueira das cataratas. Uma mão magra com os ossos a tentarem fugir do seu invólucro de pele segurando os pássaros com medo que eles voassem numa excitação primaveril de bandos plastificados, a outra caída no parapeito, desistindo-se em alturas e vertigens, o fogão lá dentro com a panela de pressão por cima a apitar solenemente refogados
piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii
como um vale-do-Vouga em miniatura no tempo do carvão a acelarar na recta de Eirol ao Eixo, a soltar faúlhas
(a gente chamava-lhe o queima-fatos)
e a pegar fogo aos pinheiros e aos eucaliptos.
O galo de veludo da meteorologia está pousado por cima do armário dos pacotes de arroz Cigala e das massas Triunfo a ficar violeta com a humidade; o pacote de margarina Pastora foi abandonado no tampo de mármore da mesa onde as migalhas pretas das torradas despertam a gula dos pássaros de plástico e das suas silhuetas que batem as asas num nervoso miudinho e estático de cortinas.
Ao longe, no jardim do Hospital Curry Cabral, enfermeiras de bata branca empurram lentamente as cadeiras de rodas dos inválidos, para cá e para lá nos carreiros de terra batida que desenham os canteiros verdes de relva como se estivessem entretidas numa pista de carrinhos da Matchbox. Percursos sinuosos com os inválidos à frente; fantasmas descoloridos e mecânicos sem vontade própria conduzindo as cadeiras ou sendo conduzidos por elas; curvas e contracurvas de vidas em rectas finais, rectas compridas de vidas em zigue-zagues, as enfermeiras sempre atrás como fantasmas diligentes.
O sino dá as horas na igreja da Avenida de Berna.
Gaivotas sem estuário sobrevoam os prédios numa aflição de gritos, chamando os pássaros de plástico e as suas silhuetas num convite salgado de Tejo e mar, e eles e elas fechados nas cortinas e na mão ossuda da senhora velhinha do 3º esquerdo que ignora o silvo teimoso da panela de pressão
piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii
provavelmente uma Silampos como as dos velhos anúncios da televisão
Olha a linda carochinha
Que casou c’o João Ratão
Diz a história tão velhinha
Que caiu no caldeirão,
perdida na cegueira das cataratas, as memórias difusas pouco nítidas dentro de si, as gaivotas e os pássaros de plástico pouco nítidos pelo lado de fora.
Não há no parapeito, onde a outra mão o procura molemente numa desistência de vertigens, um botão de contraste que faça aclarar as imagens do tempo que passou, apenas uma inveja fininha, quase imperceptível, de não haver um fantasma vestido com a bata branca das enfermeiras que a empurre sem destino numa cadeira de rodas pelos carreiros das lembranças.
Não há ruído que a distraia da sua imobilidade de caixilhos como um quadro mal pintado numa moldura sem valor, nem o
piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii
dos refogados, nem o acordeão de metal das portas do elevador a anunciar a chegada do vizinho do direito a pisar a beata no oleado do corredor, nem o miar suplicante do gato por pires de leite, nem o cacarejar do galo de veludo da meteorologia saturado de se avioletar com a humidade da panela de pressão, seguro de que não há, para já, nuvens no horizonte, nem chuva a anunciar para amanhã, apenas uma claridade azul a ocupar o espaço deixado livre entre os horizontes.
As formigas sobem em fila indiana pelas pernas da cadeira com uma ideia fixa de açúcares e ladrilhos de marmelada.
Finalmente soltos da sua prisão de mãos, os pássaros de plástico e as suas silhuetas levantam voo pela cozinha em busca das migalhas negras das torradas em gritos estridentes que abafam o apito da panela de pressão
...nada disto acontecia
se tivesse uma Silampos...
e o cacarejar desesperado de veludo do galo da meteorologia, assustando o gato que patinou nos azulejos verdes do chão antes de mergulhar no conforto que encontrou por debaixo do tanque de lavar roupa, obedecem ao chamado insistente das gaivotas e flutuam em cortinas por sobre o jardim do Hospital Curry Cabral, puxando para cima os olhares inválidos dos habitantes das cadeiras de rodas que as enfermeiras empurram pelos carreiros de terra batida que desenham os canteiros de relva numa paciência mecânica de bonecos de corda, desarrumando a sequência das badaladas das horas do sino da igreja da Avenida de Berna, fugindo sempre para longe, para cada vez mais longe numa necessidade repentina de Tejo e mar, o plástico azul das asas confundindo-se com os vincos dos cortinados do céu, os traços azuis escuros das silhuetas misturando-se com os bandos de sombras que o fim da tarde espalhou pela cidade.
A senhora velhinha que morava no 3º esquerdo espreitou o pátio através da sua cegueira de cataratas. Um insistente
piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii
de refogados distraiu-a da sua obsessão de pássaros de plástico e da desistência de alturas e parapeitos empurrando-a para a cozinha como se a fizesse voar de regresso ao céu parado da sua solidão. AM
NUM CÉU DE SOLIDÃO
A senhora velhinha que morava no 3º esquerdo afastou cuidadosamente as cortinas de plástico com pássaros e silhuetas de pássaros desenhadas a azul e espreitou para o pátio através da cegueira das cataratas. Uma mão magra com os ossos a tentarem fugir do seu invólucro de pele segurando os pássaros com medo que eles voassem numa excitação primaveril de bandos plastificados, a outra caída no parapeito, desistindo-se em alturas e vertigens, o fogão lá dentro com a panela de pressão por cima a apitar solenemente refogados
piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii
como um vale-do-Vouga em miniatura no tempo do carvão a acelarar na recta de Eirol ao Eixo, a soltar faúlhas
(a gente chamava-lhe o queima-fatos)
e a pegar fogo aos pinheiros e aos eucaliptos.
O galo de veludo da meteorologia está pousado por cima do armário dos pacotes de arroz Cigala e das massas Triunfo a ficar violeta com a humidade; o pacote de margarina Pastora foi abandonado no tampo de mármore da mesa onde as migalhas pretas das torradas despertam a gula dos pássaros de plástico e das suas silhuetas que batem as asas num nervoso miudinho e estático de cortinas.
Ao longe, no jardim do Hospital Curry Cabral, enfermeiras de bata branca empurram lentamente as cadeiras de rodas dos inválidos, para cá e para lá nos carreiros de terra batida que desenham os canteiros verdes de relva como se estivessem entretidas numa pista de carrinhos da Matchbox. Percursos sinuosos com os inválidos à frente; fantasmas descoloridos e mecânicos sem vontade própria conduzindo as cadeiras ou sendo conduzidos por elas; curvas e contracurvas de vidas em rectas finais, rectas compridas de vidas em zigue-zagues, as enfermeiras sempre atrás como fantasmas diligentes.
O sino dá as horas na igreja da Avenida de Berna.
Gaivotas sem estuário sobrevoam os prédios numa aflição de gritos, chamando os pássaros de plástico e as suas silhuetas num convite salgado de Tejo e mar, e eles e elas fechados nas cortinas e na mão ossuda da senhora velhinha do 3º esquerdo que ignora o silvo teimoso da panela de pressão
piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii
provavelmente uma Silampos como as dos velhos anúncios da televisão
Olha a linda carochinha
Que casou c’o João Ratão
Diz a história tão velhinha
Que caiu no caldeirão,
perdida na cegueira das cataratas, as memórias difusas pouco nítidas dentro de si, as gaivotas e os pássaros de plástico pouco nítidos pelo lado de fora.
Não há no parapeito, onde a outra mão o procura molemente numa desistência de vertigens, um botão de contraste que faça aclarar as imagens do tempo que passou, apenas uma inveja fininha, quase imperceptível, de não haver um fantasma vestido com a bata branca das enfermeiras que a empurre sem destino numa cadeira de rodas pelos carreiros das lembranças.
Não há ruído que a distraia da sua imobilidade de caixilhos como um quadro mal pintado numa moldura sem valor, nem o
piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii
dos refogados, nem o acordeão de metal das portas do elevador a anunciar a chegada do vizinho do direito a pisar a beata no oleado do corredor, nem o miar suplicante do gato por pires de leite, nem o cacarejar do galo de veludo da meteorologia saturado de se avioletar com a humidade da panela de pressão, seguro de que não há, para já, nuvens no horizonte, nem chuva a anunciar para amanhã, apenas uma claridade azul a ocupar o espaço deixado livre entre os horizontes.
As formigas sobem em fila indiana pelas pernas da cadeira com uma ideia fixa de açúcares e ladrilhos de marmelada.
Finalmente soltos da sua prisão de mãos, os pássaros de plástico e as suas silhuetas levantam voo pela cozinha em busca das migalhas negras das torradas em gritos estridentes que abafam o apito da panela de pressão
...nada disto acontecia
se tivesse uma Silampos...
e o cacarejar desesperado de veludo do galo da meteorologia, assustando o gato que patinou nos azulejos verdes do chão antes de mergulhar no conforto que encontrou por debaixo do tanque de lavar roupa, obedecem ao chamado insistente das gaivotas e flutuam em cortinas por sobre o jardim do Hospital Curry Cabral, puxando para cima os olhares inválidos dos habitantes das cadeiras de rodas que as enfermeiras empurram pelos carreiros de terra batida que desenham os canteiros de relva numa paciência mecânica de bonecos de corda, desarrumando a sequência das badaladas das horas do sino da igreja da Avenida de Berna, fugindo sempre para longe, para cada vez mais longe numa necessidade repentina de Tejo e mar, o plástico azul das asas confundindo-se com os vincos dos cortinados do céu, os traços azuis escuros das silhuetas misturando-se com os bandos de sombras que o fim da tarde espalhou pela cidade.
A senhora velhinha que morava no 3º esquerdo espreitou o pátio através da sua cegueira de cataratas. Um insistente
piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii-piiiii
de refogados distraiu-a da sua obsessão de pássaros de plástico e da desistência de alturas e parapeitos empurrando-a para a cozinha como se a fizesse voar de regresso ao céu parado da sua solidão. AM
Segunda-feira, Outubro 20, 2003
Olhar ruminante 20OUT
A República da irracionalidade
Ponto 1.
Declaração
Na minha última prestação “O Superpateta”, por estar irritado com a irracionalidade crescente que vem enquadrando a vida pública nacional e especialmente o caso Pedroso
apelidei de “estúpidos”, na generalidade, os que tinham manifestado opiniões diferentes das minhas. Mas fiquei incomodado intimamente com a generalização do qualificativo.
Nessa noite jantei com amigos que não partilhavam os meus pontos de vista e não são, manifestamente, estúpidos. Também não argumentavam da foram idiota daqueles a quem eu me referia.
Deixo a aqui a declaração formal que “estúpidos” se referia aos argumentos e não ás pessoas, que nem sequer conheço na sua enorme maioria.
Ponto 2
Bastaram cinco dias, cinco, fora deste cantinho nacional, para a irracionalidade da vida pública se ter extremado, quase se revelando acto artístico da escola surrealista.
Os pensamentos mais profundos que encontrei foram de escândalo, nomeadamente com dois factos que, aparentemente, abalaram a hipócrita ética dos “comunicadores” profissionais:
a) Foi divulgado nos media que o Dr. Ferro Rodrigues (a seguir referido por “o Ferro”) tinha dito, num telefonema a um amigo, que se estava “cagando para o segredo de justiça” (sic);
b) A Time dedicou 6 páginas aos conflitos domésticos em Bragança, originados pela opção dos machos locais, nos intervalos do futebol, a dedicarem-se ao convívio com profissionais brasileiras de hard-alterne, em vez de ficaram a ver TV em casa.
Vamos por partes:
a) A instituição da escatologia como forma de comunicação às massas
É perfeitamente compreensível a utilização de palavras soezes ou vulgares por parte dos detentores de lugares cimeiros nas instituições nacionais.
Trata-se de uma sua diligente busca de se fazerem melhor entender do que normalmente fazem, inspirada nalguns exemplos de comunicação com o Povo.
Após análise ao comportamento das massas assistentes aos programas do popular artista Herman José, constatou-se que os portugueses aí presentes, que se considerou serem representativos da maioria do antigamente chamado Povo, agora População, apreciavam manifestamente não tanto o desempenho dos artistas, mas sobretudo as ordinarices e palavrões utilizados, que chegavam a levar alguns mais morcões e as seus equivalentes femininas (repare-se na subtileza do texto) a paroxismos de gozo.
Tal induziu ao uso desse léxico nas alocuções de altas figuras do Estado e não só.
Veja-se o caso de uma das figuras mais respeitáveis da Justiça portuguesa ao gritar, irado, para os jornalistas que o pretendiam filmar numa cerimónia pública – “tirem-me daqui essa merda”. Correctíssimo.
A compreensão dessas suas instruções teria ficado muito prejudicada se ele tivesse optado por expressão mais erudita, como por exemplo “ Tirem-me daqui esses excrementos” e sido ridicularizada se ele utilizada termo mais coloquial, como “tirem-me daqui esse cocó”.
Igualmente, com muita probabilidade, a gentil esposa de um conhecido apresentador da televisão, quando se quis ver livre de jornalistas que a incomodavam, teria tido muito menos êxito se, em frente das câmaras, os tivesse mandado para um “falo”, em abstracto, em vez da tão popular e apreciada expressão nacional usada do “vão para o caralho”, como fez, se bem que mantendo a conveniente ambiguidade quanto ao seu proprietário.
Só a ignorância dos fundamentos destes plebeismos, pode justificar o escândalo quanto à frase do Ferro, na altura com o seu chapéu de simples cidadão a falar com um amigo (anote-se a proliferação dos “pás” transcritos diligentemente pelo Ministério Público), que provavelmente não seria entendida em todo o seu conteúdo se tivesse dito “estou defecando no segredo de justiça”.
O que me faz confusão, não é, assim, ele ter dito que se estava “nas tintas” (como mente antiquada é até onde consigo ir de motus proprio) para o dito segredo. De facto poderia e até o deveria estar, não sendo nem agente da Justiça , nem indiciado, ou advogado no processo em causa.
O segredo de justiça, como o segredo de confissão, só respeita aos que nele estão envolvidos, neste caso, especificamente aos agentes da Justiça.
E o Ferro, falando particularmente com um seu amigo, na ignorância de que estava a ser escutado, não estando suspeito, indiciado ou arguido em qualquer processo, poderia dizer, com toda a propriedade “estou-me cagando” seja para o que for e muito mais para um segredo de justiça que o não vincula.
O que me faz confusão e acho escandaloso em termos de ética, é a quebra do segredo de Justiça por parte do Ministério Público, ao revelar a gravação.
Já que o Ministério Público, esse sim, está sujeito ao segredo de Justiça.
b) As meninas de Bragança
É tão bom ser pequinino e vermo-nos na TV a dizer adeus à avó.
Portugal orgulha-se (admira-se até) de aparecer na Time, uma das revistas mais internacionais do mundo. Mesmo quando em anúncios pagos ficamos satisfeitos dessa nossa capacidade de aparecermos ao mundo.
Mas Portugal ofende-se quando aparece sem ser pelas suas bondades, interiorizadas como extraordinárias e únicas: a sua paisagem, os 800km de praias, a cultura tradicional, o povo hospitaleiro, o fado.
Longe da Europa-mãe, estranha quando lhe escrevem sem ser para lhe dar Boas-festas.
A Time viu em Bragança um caso com impacte mediático quanto ao choque de uma cultura rural, convencional e antiquada, como a nova cultura do liberalismo e da globalização. Como tem feito, com outros temas, na Turquia, em França ou na Holanda.
A estória configura-se de teatro de vaudeville, com pais de família a tornarem um qualquer Bataclan em local de encontro diário, isto é, noturno, e entusiasmos com a descoberta do mundo de prazeres de forma geral fechados a agricultores e proprietários rurais de uma das zonas mais deprimidas de Portugal, já de si um dos países mais pobres da Europa. Uma boa estória.
Seis ou sete páginas serão excessivas. O Privilégio da capa é-o, seguramente.
Mas os media já se não preocupam com a informação ou a sua importância, mas apenas com o impacto do espectáculo, nesta sociedade dos “loisirs” em que nos transformámos.
Mas Portugal ou os portugueses até não são atacados em nada de essencial e o caso fica circunscrito ao “case study” de Bragança, cidade onde há prostituição, como a há em todas as outras cidades de alguma dimensão e às vezes até sem qualquer dimensão.
O artigo não será elogioso, mas também não é ofensivo.
Nem mesmo particularmente negativo, como o seria se a questão fosse levada “ a sério”, com análise das causas dos estrangulamentos ao desenvolvimento existentes ou dos desprestigiantes níveis de vida da região, uns dos mais baixos da Europa.
Poderá ser triste Bragança só aparecer na Time por esta estória picaresca. Mas isso não é culpa da Time. É de Portugal no seu conjunto e dos seus governantes, presentes e passados, em particular.
O que me preocupa é a reacção de alguns radicais que se “ofendem” em nome do País e que querem exercer represálias sobre a Time, ridículas represálias de lhe retirarem a publicidade do Euro 2004.
Que raio de visão mesquinha suporta essa sugestão? ASP
A República da irracionalidade
Ponto 1.
Declaração
Na minha última prestação “O Superpateta”, por estar irritado com a irracionalidade crescente que vem enquadrando a vida pública nacional e especialmente o caso Pedroso
apelidei de “estúpidos”, na generalidade, os que tinham manifestado opiniões diferentes das minhas. Mas fiquei incomodado intimamente com a generalização do qualificativo.
Nessa noite jantei com amigos que não partilhavam os meus pontos de vista e não são, manifestamente, estúpidos. Também não argumentavam da foram idiota daqueles a quem eu me referia.
Deixo a aqui a declaração formal que “estúpidos” se referia aos argumentos e não ás pessoas, que nem sequer conheço na sua enorme maioria.
Ponto 2
Bastaram cinco dias, cinco, fora deste cantinho nacional, para a irracionalidade da vida pública se ter extremado, quase se revelando acto artístico da escola surrealista.
Os pensamentos mais profundos que encontrei foram de escândalo, nomeadamente com dois factos que, aparentemente, abalaram a hipócrita ética dos “comunicadores” profissionais:
a) Foi divulgado nos media que o Dr. Ferro Rodrigues (a seguir referido por “o Ferro”) tinha dito, num telefonema a um amigo, que se estava “cagando para o segredo de justiça” (sic);
b) A Time dedicou 6 páginas aos conflitos domésticos em Bragança, originados pela opção dos machos locais, nos intervalos do futebol, a dedicarem-se ao convívio com profissionais brasileiras de hard-alterne, em vez de ficaram a ver TV em casa.
Vamos por partes:
a) A instituição da escatologia como forma de comunicação às massas
É perfeitamente compreensível a utilização de palavras soezes ou vulgares por parte dos detentores de lugares cimeiros nas instituições nacionais.
Trata-se de uma sua diligente busca de se fazerem melhor entender do que normalmente fazem, inspirada nalguns exemplos de comunicação com o Povo.
Após análise ao comportamento das massas assistentes aos programas do popular artista Herman José, constatou-se que os portugueses aí presentes, que se considerou serem representativos da maioria do antigamente chamado Povo, agora População, apreciavam manifestamente não tanto o desempenho dos artistas, mas sobretudo as ordinarices e palavrões utilizados, que chegavam a levar alguns mais morcões e as seus equivalentes femininas (repare-se na subtileza do texto) a paroxismos de gozo.
Tal induziu ao uso desse léxico nas alocuções de altas figuras do Estado e não só.
Veja-se o caso de uma das figuras mais respeitáveis da Justiça portuguesa ao gritar, irado, para os jornalistas que o pretendiam filmar numa cerimónia pública – “tirem-me daqui essa merda”. Correctíssimo.
A compreensão dessas suas instruções teria ficado muito prejudicada se ele tivesse optado por expressão mais erudita, como por exemplo “ Tirem-me daqui esses excrementos” e sido ridicularizada se ele utilizada termo mais coloquial, como “tirem-me daqui esse cocó”.
Igualmente, com muita probabilidade, a gentil esposa de um conhecido apresentador da televisão, quando se quis ver livre de jornalistas que a incomodavam, teria tido muito menos êxito se, em frente das câmaras, os tivesse mandado para um “falo”, em abstracto, em vez da tão popular e apreciada expressão nacional usada do “vão para o caralho”, como fez, se bem que mantendo a conveniente ambiguidade quanto ao seu proprietário.
Só a ignorância dos fundamentos destes plebeismos, pode justificar o escândalo quanto à frase do Ferro, na altura com o seu chapéu de simples cidadão a falar com um amigo (anote-se a proliferação dos “pás” transcritos diligentemente pelo Ministério Público), que provavelmente não seria entendida em todo o seu conteúdo se tivesse dito “estou defecando no segredo de justiça”.
O que me faz confusão, não é, assim, ele ter dito que se estava “nas tintas” (como mente antiquada é até onde consigo ir de motus proprio) para o dito segredo. De facto poderia e até o deveria estar, não sendo nem agente da Justiça , nem indiciado, ou advogado no processo em causa.
O segredo de justiça, como o segredo de confissão, só respeita aos que nele estão envolvidos, neste caso, especificamente aos agentes da Justiça.
E o Ferro, falando particularmente com um seu amigo, na ignorância de que estava a ser escutado, não estando suspeito, indiciado ou arguido em qualquer processo, poderia dizer, com toda a propriedade “estou-me cagando” seja para o que for e muito mais para um segredo de justiça que o não vincula.
O que me faz confusão e acho escandaloso em termos de ética, é a quebra do segredo de Justiça por parte do Ministério Público, ao revelar a gravação.
Já que o Ministério Público, esse sim, está sujeito ao segredo de Justiça.
b) As meninas de Bragança
É tão bom ser pequinino e vermo-nos na TV a dizer adeus à avó.
Portugal orgulha-se (admira-se até) de aparecer na Time, uma das revistas mais internacionais do mundo. Mesmo quando em anúncios pagos ficamos satisfeitos dessa nossa capacidade de aparecermos ao mundo.
Mas Portugal ofende-se quando aparece sem ser pelas suas bondades, interiorizadas como extraordinárias e únicas: a sua paisagem, os 800km de praias, a cultura tradicional, o povo hospitaleiro, o fado.
Longe da Europa-mãe, estranha quando lhe escrevem sem ser para lhe dar Boas-festas.
A Time viu em Bragança um caso com impacte mediático quanto ao choque de uma cultura rural, convencional e antiquada, como a nova cultura do liberalismo e da globalização. Como tem feito, com outros temas, na Turquia, em França ou na Holanda.
A estória configura-se de teatro de vaudeville, com pais de família a tornarem um qualquer Bataclan em local de encontro diário, isto é, noturno, e entusiasmos com a descoberta do mundo de prazeres de forma geral fechados a agricultores e proprietários rurais de uma das zonas mais deprimidas de Portugal, já de si um dos países mais pobres da Europa. Uma boa estória.
Seis ou sete páginas serão excessivas. O Privilégio da capa é-o, seguramente.
Mas os media já se não preocupam com a informação ou a sua importância, mas apenas com o impacto do espectáculo, nesta sociedade dos “loisirs” em que nos transformámos.
Mas Portugal ou os portugueses até não são atacados em nada de essencial e o caso fica circunscrito ao “case study” de Bragança, cidade onde há prostituição, como a há em todas as outras cidades de alguma dimensão e às vezes até sem qualquer dimensão.
O artigo não será elogioso, mas também não é ofensivo.
Nem mesmo particularmente negativo, como o seria se a questão fosse levada “ a sério”, com análise das causas dos estrangulamentos ao desenvolvimento existentes ou dos desprestigiantes níveis de vida da região, uns dos mais baixos da Europa.
Poderá ser triste Bragança só aparecer na Time por esta estória picaresca. Mas isso não é culpa da Time. É de Portugal no seu conjunto e dos seus governantes, presentes e passados, em particular.
O que me preocupa é a reacção de alguns radicais que se “ofendem” em nome do País e que querem exercer represálias sobre a Time, ridículas represálias de lhe retirarem a publicidade do Euro 2004.
Que raio de visão mesquinha suporta essa sugestão? ASP
Sábado, Outubro 18, 2003
Moldar a história
O livro do Sr. Kissinger, Anos de Renovação ajuda-nos a compreender o modo de actuação dos E.U.A nos grandes conflitos e também o modo como ele próprio actuou, como encarregado de gestão, nos anos em que foi o responsável pela diplomacia americana. O sr. professor desenvolve uma teia de ideias encadeadas num ronronar surdo que muitas vezes parece que se separa dos factos e não se alimenta de nenhuma presa. Teia sem conteúdo portanto, onde a forma se espraia em circunvoluções entrelaçadas contínuas sem que apanhe algo comestível, ou pelo menos, nessas teias conceptuais, só caiem bocados das coisas presas. De facto, só quando lhe convém é que o homem encara e explicita as realidades. Verborreia contínua, aqui e ali cortada por agudas e às vezes irónicas observações de detalhe sobre a psicologia dos intervenientes, a dar o tom realista aos enredos, numa aparência de sagacidade que é também a nota da pesporrência de um ditador mental.
É um porta-voz disfarçado das encrencas geradas pela CIA, suas fantasias e contínua intervenção abusiva nas diferentes partes do mundo, onde os seus agentes estarrecem a elaborar relatórios sobre inimigos danados. A estranha CIA, esse misterioso serviço de “informações” e de instrumentos práticos de controlo e conquista, afinal está quase sempre enganado sobre as crises, a sua natureza, a liberdade e o devir histórico e passa a maior parte das vezes ao largo do conhecimento extenso e honesto produzido pela inteligência das relações internacionais.
As fanfarronadas do Sr. Secretario de Estado destinam-se a ocultar as próprias faltas inerentes à desadequação de muitas das suas análises e assim atirar a culpa para terceiros. Resiste mal a essa tentação. Em cada crise do lado das causas há mais aventura do que factos e justificação. São crises e incidentes a maior parte forjadas e evitáveis, se não fossem os pressupostos mentais das pseudo análises e dos proclamados “interesses” dos EUA Tem-se a sensação de que estamos a conhecer o mundo da criminalidade pura, os parâmetros mentais e a insensibilidade e facilidade em recorrer aos meios ilícitos à mão. Com efeito temos assim conhecimento do que é uma quadrilha d e homicidas no poder. É pena que, no nosso grupo e cultura, aquele a que pertencemos, nós portugueses e ocidentais, esteja na mão de quadrilheiros.
É tal a magnitude das abordagens que tudo fica de contornos velados. Como se disse, as realidades moldam-se aos esquemas de análise. O que se projecta e se evidencia, é a forma analítica e quase desaparece o objecto de análise. O homem tem um ego demasiado grande. É uma presunção de análise extensível a tudo o que se passa no mundo, com a intenção de alterar o decurso dos acontecimentos em função naturalmente dos pressupostos estratégicos dos interesses e contenção do comunismo e expansionismo soviético, o que foi uma política desde cedo traçada, logo no inicio da guerra fria, pelo Conselho Nacional de Segurança. Mas bastava um pouco mais de formação cultural para perceberem, com muito maior pertinência como as coisas são. Não fazem parte dos pressupostos, a literatura, a arte e a cultura. Se lessem um bocadinho mais, tal como parece que leram Soljetzine, e isso porque convinha, era antisoviético e esclareceu o que era essa ditadura, se lessem mais ficção e conhecessem as produções do espírito, a pintura e as artes em geral, não se enganariam tantas vezes.
De facto, os “documentos classificados”, e bem assim os “critérios de poder” são cegos e nada dizem, enquanto a literatura diz tudo.
Comenta-se contudo que quando não está em causa directa o papel que o Sr. Kissinger teve nos diferentes cenários e não é necessário ocultar ou esbater um lado que lhe é desfavorável, consegue dar-nos descrições elucidativas. Isso resulta da sua mente prática e argúcia para ir a detalhes pertinentes, pondo de lado teorias e concepções de história embaraçosas. Compreendemos muito bem o que está em jogo com países dos quais nos faz a sua história.
Destaca-se que do ponto de vista geoestratégico a diplomacia conseguiu moldar os acontecimentos na África austral, seis meses depois do colapso de Angola. Os resultados, ou bases de trabalho, foram conseguidos em 1976. Foise de trabalho que conduziu à solução pacífica dos velhos problemas da Rodésia, África do Sul e Namíbia. É justo concordar. Esta actuação meritória teve por base a convicção e consciência de que o caso de Angola não se repetiria. O que estava em aberto era a intervenção cubana e o avanço e consolidação de Moscovo na região e com isso a introdução de novos desequilíbrios na política de contenção. Perante uma ameaça dessas, num ápice, o velho problema do racismo e segregação racial, da privação dos direitos e necessidade de um governo das maiorias, no fundo a solução suspensa nessa região do globo, ou seja, o problema político fundamental da África do Sul, Rodésia e Namíbia, sempre adiado, passou a prioritário. Desinteressados de África, tinham perdido muito tempo; Kissinger percebeu que outra Angola não podia acontecer e era necessário urgentemente antecipar soluções antes da “débacle”, ou como os Sul Africanos diziam, antes que chegasse “ o momento”.
A complexa negociação de 1976 que envolveu os estados da linha da frente, Grã bretanha, África do Sul, exigiu mais coragem e imaginação e naturalmente realismo, do que aquela que teria sido necessária para resolver o problema português da descolonizarão. Qualquer teórico da ciência política saberia encontrar o género adequado de transição que melhor defendesse os interesses recíprocos e salvaguardasse a felicidades de todas as partes. Não era um problema impossível, era um problema com solução e seguramente poderia ter sido encontrado na altura própria, isto é, antes do colapso do regime. Mas ao contrario, venceu a estagnação mental e humana, venceu a obstinação, numa acrescida prova, de que muitas vezes a história nos fala, da menoridade das ditaduras. A plataforma da negociação serviria enfim para moldar a história, antes da degradação. Com efeito a história segundo Kissinger é obra da diplomacia e da conjugação dos interesses dos seus protagonistas. Nada exclui que essa actuação, de concessões mutuas no palco dos conflitos, não possa desenvolver-se de acordo com princípios éticos que subordinem os interesses ao bem e à paz. LACP
O livro do Sr. Kissinger, Anos de Renovação ajuda-nos a compreender o modo de actuação dos E.U.A nos grandes conflitos e também o modo como ele próprio actuou, como encarregado de gestão, nos anos em que foi o responsável pela diplomacia americana. O sr. professor desenvolve uma teia de ideias encadeadas num ronronar surdo que muitas vezes parece que se separa dos factos e não se alimenta de nenhuma presa. Teia sem conteúdo portanto, onde a forma se espraia em circunvoluções entrelaçadas contínuas sem que apanhe algo comestível, ou pelo menos, nessas teias conceptuais, só caiem bocados das coisas presas. De facto, só quando lhe convém é que o homem encara e explicita as realidades. Verborreia contínua, aqui e ali cortada por agudas e às vezes irónicas observações de detalhe sobre a psicologia dos intervenientes, a dar o tom realista aos enredos, numa aparência de sagacidade que é também a nota da pesporrência de um ditador mental.
É um porta-voz disfarçado das encrencas geradas pela CIA, suas fantasias e contínua intervenção abusiva nas diferentes partes do mundo, onde os seus agentes estarrecem a elaborar relatórios sobre inimigos danados. A estranha CIA, esse misterioso serviço de “informações” e de instrumentos práticos de controlo e conquista, afinal está quase sempre enganado sobre as crises, a sua natureza, a liberdade e o devir histórico e passa a maior parte das vezes ao largo do conhecimento extenso e honesto produzido pela inteligência das relações internacionais.
As fanfarronadas do Sr. Secretario de Estado destinam-se a ocultar as próprias faltas inerentes à desadequação de muitas das suas análises e assim atirar a culpa para terceiros. Resiste mal a essa tentação. Em cada crise do lado das causas há mais aventura do que factos e justificação. São crises e incidentes a maior parte forjadas e evitáveis, se não fossem os pressupostos mentais das pseudo análises e dos proclamados “interesses” dos EUA Tem-se a sensação de que estamos a conhecer o mundo da criminalidade pura, os parâmetros mentais e a insensibilidade e facilidade em recorrer aos meios ilícitos à mão. Com efeito temos assim conhecimento do que é uma quadrilha d e homicidas no poder. É pena que, no nosso grupo e cultura, aquele a que pertencemos, nós portugueses e ocidentais, esteja na mão de quadrilheiros.
É tal a magnitude das abordagens que tudo fica de contornos velados. Como se disse, as realidades moldam-se aos esquemas de análise. O que se projecta e se evidencia, é a forma analítica e quase desaparece o objecto de análise. O homem tem um ego demasiado grande. É uma presunção de análise extensível a tudo o que se passa no mundo, com a intenção de alterar o decurso dos acontecimentos em função naturalmente dos pressupostos estratégicos dos interesses e contenção do comunismo e expansionismo soviético, o que foi uma política desde cedo traçada, logo no inicio da guerra fria, pelo Conselho Nacional de Segurança. Mas bastava um pouco mais de formação cultural para perceberem, com muito maior pertinência como as coisas são. Não fazem parte dos pressupostos, a literatura, a arte e a cultura. Se lessem um bocadinho mais, tal como parece que leram Soljetzine, e isso porque convinha, era antisoviético e esclareceu o que era essa ditadura, se lessem mais ficção e conhecessem as produções do espírito, a pintura e as artes em geral, não se enganariam tantas vezes.
De facto, os “documentos classificados”, e bem assim os “critérios de poder” são cegos e nada dizem, enquanto a literatura diz tudo.
Comenta-se contudo que quando não está em causa directa o papel que o Sr. Kissinger teve nos diferentes cenários e não é necessário ocultar ou esbater um lado que lhe é desfavorável, consegue dar-nos descrições elucidativas. Isso resulta da sua mente prática e argúcia para ir a detalhes pertinentes, pondo de lado teorias e concepções de história embaraçosas. Compreendemos muito bem o que está em jogo com países dos quais nos faz a sua história.
Destaca-se que do ponto de vista geoestratégico a diplomacia conseguiu moldar os acontecimentos na África austral, seis meses depois do colapso de Angola. Os resultados, ou bases de trabalho, foram conseguidos em 1976. Foise de trabalho que conduziu à solução pacífica dos velhos problemas da Rodésia, África do Sul e Namíbia. É justo concordar. Esta actuação meritória teve por base a convicção e consciência de que o caso de Angola não se repetiria. O que estava em aberto era a intervenção cubana e o avanço e consolidação de Moscovo na região e com isso a introdução de novos desequilíbrios na política de contenção. Perante uma ameaça dessas, num ápice, o velho problema do racismo e segregação racial, da privação dos direitos e necessidade de um governo das maiorias, no fundo a solução suspensa nessa região do globo, ou seja, o problema político fundamental da África do Sul, Rodésia e Namíbia, sempre adiado, passou a prioritário. Desinteressados de África, tinham perdido muito tempo; Kissinger percebeu que outra Angola não podia acontecer e era necessário urgentemente antecipar soluções antes da “débacle”, ou como os Sul Africanos diziam, antes que chegasse “ o momento”.
A complexa negociação de 1976 que envolveu os estados da linha da frente, Grã bretanha, África do Sul, exigiu mais coragem e imaginação e naturalmente realismo, do que aquela que teria sido necessária para resolver o problema português da descolonizarão. Qualquer teórico da ciência política saberia encontrar o género adequado de transição que melhor defendesse os interesses recíprocos e salvaguardasse a felicidades de todas as partes. Não era um problema impossível, era um problema com solução e seguramente poderia ter sido encontrado na altura própria, isto é, antes do colapso do regime. Mas ao contrario, venceu a estagnação mental e humana, venceu a obstinação, numa acrescida prova, de que muitas vezes a história nos fala, da menoridade das ditaduras. A plataforma da negociação serviria enfim para moldar a história, antes da degradação. Com efeito a história segundo Kissinger é obra da diplomacia e da conjugação dos interesses dos seus protagonistas. Nada exclui que essa actuação, de concessões mutuas no palco dos conflitos, não possa desenvolver-se de acordo com princípios éticos que subordinem os interesses ao bem e à paz. LACP
Quinta-feira, Outubro 16, 2003
O NOJO
Este país mete-me nojo.
St.º Agostinho dizia: «Se há seres monstruosos em todas as nações, porque não admitir que há nações inteiras de seres monstruosos». Acho que ele escrevia sobre esse país que o mar não quer, como lhe chamou Ruy Belo. O mar não quer? O que é que o mar não quer? Geralmente cadáveres e lixo. É aquilo que dá à praia.
País impossível.
País de meninos violados e sem culpados.
País de senhores engravatados que falam de Fernando Pessoa sem saberem o lugar certo onde colocar uma vírgula.
País de políticos infames.
País de meninos que dormem à noite debaixo de folhas de cartão canelado.
País sem ideias.
País de gramática maltratada.
País de sintaxe inexistente.
País estúpido.
Pais sem infância.
País sem inocência.
País de gravatas, de gravatas, de muitas gravatas. País de milhares de gravatas.
País ainda de mais gravatas.
Quando violam meninos, os senhores tiram as gravatas?
País de lixo.
O lixo que o mar não quer.
Debaixo do cartão canelado, os meninos usarão gravatas?
País absurdo.
País surdo.
País que não ouve meninos que choram.
País preso.
País preso a senhores de gravata presos.
Os meninos mentem.
Quem usa gravata não mente!
Quem manda os meninos não usarem gravata?
Quem manda os velhos não usarem gravata?
País de vómito.
País de fome.
«O menino ia a pensar
porque seria ele só
sem sono para se deitar», dizia Almada Negreiros, o homem que descobriu que este era o país que deixou Camões morrer de fome e no qual toda a gente enchia a barriga de Camões.
Os velhos morrem de fome.
Os meninos morrem de frio.
As gravatas morrem de estupidez.
O país morre de tédio.
Este país mete-me nojo, ainda bem que sou como o mar: não quero o país.
«Fétida lesma que espapa à beira do Atlântico sob o nome desacreditado de Portugal», dizia o Eça.
País fétido.
País doente.
País podre.
Eu que uso as noites até às madrugadas vejo:
No Rossio, os meninos dormem debaixo de folhas de cartão canelado.
Nas ruas, os meninos estendem as mãos nas quais mal cabe uma moeda.
Na sombra das árvores, ao abrigo dos silêncios, os meninos prostituem-se.
Na sombra da nossa consciência, os meninos choram.
Que se fodam os meninos!
Metam uma gravata e cresçam! AM
Este país mete-me nojo.
St.º Agostinho dizia: «Se há seres monstruosos em todas as nações, porque não admitir que há nações inteiras de seres monstruosos». Acho que ele escrevia sobre esse país que o mar não quer, como lhe chamou Ruy Belo. O mar não quer? O que é que o mar não quer? Geralmente cadáveres e lixo. É aquilo que dá à praia.
País impossível.
País de meninos violados e sem culpados.
País de senhores engravatados que falam de Fernando Pessoa sem saberem o lugar certo onde colocar uma vírgula.
País de políticos infames.
País de meninos que dormem à noite debaixo de folhas de cartão canelado.
País sem ideias.
País de gramática maltratada.
País de sintaxe inexistente.
País estúpido.
Pais sem infância.
País sem inocência.
País de gravatas, de gravatas, de muitas gravatas. País de milhares de gravatas.
País ainda de mais gravatas.
Quando violam meninos, os senhores tiram as gravatas?
País de lixo.
O lixo que o mar não quer.
Debaixo do cartão canelado, os meninos usarão gravatas?
País absurdo.
País surdo.
País que não ouve meninos que choram.
País preso.
País preso a senhores de gravata presos.
Os meninos mentem.
Quem usa gravata não mente!
Quem manda os meninos não usarem gravata?
Quem manda os velhos não usarem gravata?
País de vómito.
País de fome.
«O menino ia a pensar
porque seria ele só
sem sono para se deitar», dizia Almada Negreiros, o homem que descobriu que este era o país que deixou Camões morrer de fome e no qual toda a gente enchia a barriga de Camões.
Os velhos morrem de fome.
Os meninos morrem de frio.
As gravatas morrem de estupidez.
O país morre de tédio.
Este país mete-me nojo, ainda bem que sou como o mar: não quero o país.
«Fétida lesma que espapa à beira do Atlântico sob o nome desacreditado de Portugal», dizia o Eça.
País fétido.
País doente.
País podre.
Eu que uso as noites até às madrugadas vejo:
No Rossio, os meninos dormem debaixo de folhas de cartão canelado.
Nas ruas, os meninos estendem as mãos nas quais mal cabe uma moeda.
Na sombra das árvores, ao abrigo dos silêncios, os meninos prostituem-se.
Na sombra da nossa consciência, os meninos choram.
Que se fodam os meninos!
Metam uma gravata e cresçam! AM
Terça-feira, Outubro 14, 2003
O discurso
Já se viu de tudo. Desde sempre se soube que o discurso serve, na prestação publica, para fazer a mais hábil sedução e engano. Palavras para um lado, pensamento para outro; factos e realidades, dessas que entram pelos olhos dentro, isso não interessa. É pelo discurso que se afirma o carácter pessoal, estilo e acuidade. Pouco importa o conteúdo. Subentende-se que o discurso é acto determinante e é variável independente, quando julgávamos que era parte do domínio da veracidade das relações falsidade/ certeza, erro. Julgávamos que a lógica regula a vida e afinal as palavras dispensaram a crença ingénua da verdade lógica. Não é fácil aceitar o discurso em política quando contém o absurdo. Custa-nos aceitar o discurso louco que nos quer calar, com a mentira. Há o discurso que nos remete de imediato para a noção vulgar de aldrabice, mas isso é tamanho menor, é comportamento de feirante vendilhão, não é bem ainda o fundo do problema da retórica profunda: a palavra orquestrada para induzir os factos que convém pôr à luz do dia, palavras para nos usar, para antecipar, condicionar, conduzir, manipular.
O mesmo que fez o discurso da tanga, queixa-se um ano depois do pessimismo dos outros. É aos portugueses que falta capacidade. Essa figura que arma, pouco tem para dizer de essencial a não ser aspectos fortuitos da gestão da mercearia. Despreza as palavras, despreza os sentidos que possam ir para longe, só conhece o que é conveniente e a necessidade de abaixar a aspiração e o desejo. Usa as palavras para nos entreter com discursos de circunstância, próprios de um espécimen inculto. Está sempre calado a congeminar, no obscuro jogo das peças, lá no seu imaginário de controlador. Não gere nenhuma estratégia de governação minimamente real, todos vemos que está tudo destruído e ao deus dará; e sobre esse vazio ergue o mais vazio dos discursos, o discurso- barreira. Já se disse antes: quem está do lado de lá, no palco da acção política não pode ser honesto? Grandes convencidos, a julgarem que nos enganam. LACP
Já se viu de tudo. Desde sempre se soube que o discurso serve, na prestação publica, para fazer a mais hábil sedução e engano. Palavras para um lado, pensamento para outro; factos e realidades, dessas que entram pelos olhos dentro, isso não interessa. É pelo discurso que se afirma o carácter pessoal, estilo e acuidade. Pouco importa o conteúdo. Subentende-se que o discurso é acto determinante e é variável independente, quando julgávamos que era parte do domínio da veracidade das relações falsidade/ certeza, erro. Julgávamos que a lógica regula a vida e afinal as palavras dispensaram a crença ingénua da verdade lógica. Não é fácil aceitar o discurso em política quando contém o absurdo. Custa-nos aceitar o discurso louco que nos quer calar, com a mentira. Há o discurso que nos remete de imediato para a noção vulgar de aldrabice, mas isso é tamanho menor, é comportamento de feirante vendilhão, não é bem ainda o fundo do problema da retórica profunda: a palavra orquestrada para induzir os factos que convém pôr à luz do dia, palavras para nos usar, para antecipar, condicionar, conduzir, manipular.
O mesmo que fez o discurso da tanga, queixa-se um ano depois do pessimismo dos outros. É aos portugueses que falta capacidade. Essa figura que arma, pouco tem para dizer de essencial a não ser aspectos fortuitos da gestão da mercearia. Despreza as palavras, despreza os sentidos que possam ir para longe, só conhece o que é conveniente e a necessidade de abaixar a aspiração e o desejo. Usa as palavras para nos entreter com discursos de circunstância, próprios de um espécimen inculto. Está sempre calado a congeminar, no obscuro jogo das peças, lá no seu imaginário de controlador. Não gere nenhuma estratégia de governação minimamente real, todos vemos que está tudo destruído e ao deus dará; e sobre esse vazio ergue o mais vazio dos discursos, o discurso- barreira. Já se disse antes: quem está do lado de lá, no palco da acção política não pode ser honesto? Grandes convencidos, a julgarem que nos enganam. LACP
UM SULISTA NO PORTO (2)
Os problemas de comunicação entre as pessoas são deveras interessantes e complexos. Não falo só do “quebrar o gelo” ou da dificuldade em nos fazermos entender pelo outro (ou pela outra). Refiro-me à própria língua, àquela que se aprende a soletrar e a compor desde a escola primária e que alguns vão tentando aperfeiçoar ao longo da vida.
Quantas páginas se escreveram já sobre o assunto e quanta mais tinta irá correr sem que se esgote a matéria!.
Vem isto a propósito das diferenças de linguagem, dos distintos modos com que as gentes do Norte e do Sul designam uma mesmíssima coisa. Confesso que me espanta o facto de num país tão pequeno como o nosso, haver várias palavras para identificar um mesmo objecto. Não me refiro a sinónimos, mas sim a palavras que não entram no léxico nacional e são de utilização puramente regional. Quem do Sul teve oportunidade de privar com gentes do Norte por certo que entende o que eu digo. Basta ter ido à tropa. Quem não se recorda do que é um “aloquete”? E uma “sertã”?. Não se lembram, “carago”? Que riqueza de linguagem! De onde virá esta diferenciação? Não consta que a torre de Babel existisse para estas bandas. É seguramente uma questão cultural, cujas raízes se afundam em tempos remotos e que hoje serve (para os xenófobos), de sinal, de código de reconhecimento, para identificar quem pertence ao círculo dos nascidos (ou naturalizados) em uma dada região e quem é um estranho e, portanto, considerado estrangeiro. Na zona onde agora estou, quem vem de além Mondego é, invariavelmente, apelidado de sulista ou mouro e olhado de forma diferente, com alguma desconfiança, como alguém não pertencente ao clã e que, portanto, deve ser tratado com a devida cautela (a inversa também é verdadeira, isto é, quem vai para a terra dos mouros terá que se precaver devidamente. Segundo consta em alguns meios nortenhos uma das causas da queda do ministro Fernando Gomes (lembram-se dele?)terá sido a sua inabalável oposição a abandonar o genuíno falar da Invicta).
Daí a necessidade premente de apoiar todos os que não têm entrada nestas confrarias, quiçá através de associações, agremiações ou movimentos de defesa de todos os excluídos (ex: “MAD” - Movimento de Auxílio aos Deslocados, ou “MAMA” - Movimento Associativo para Melhor Aclimatação, etc.). Outro modo de prestar auxílio aos que, temporária ou definitivamente, se movimentam para outras terras, é o fornecimento de um dicionário da linguagem local que, com o indispensável treino do sotaque, permitirá uma eficaz integração no meio. Face à inexistência de tal apetrecho e na impossibilidade de realizar tão homérica tarefa, dou o meu modesto contributo (o que faço com bastante satisfação) a quem, por uma razão ou outra, tiver que vir para estas bandas, na forte convicção de que a aglutinação cultural é um factor determinante no bom entendimento entre os povos (dizem que foi com base nesta teoria que os romanos instituíram a sua “pax” e os portugueses inventaram a mulata). Seguem, assim, uns quantos dizeres de utilização mais corrente, a que juntei o seu correspondente significado e que, certamente, irão permitirão uma sobrevivência segura nos primeiros tempos de habituação a estas paragens: “café” é o que costumamos designar por “bica”; “pingo” significa “garoto”; “fino” quer dizer “imperial”; “bolo de bacalhau” traduz-se por “pastel de bacalhau” e “tripas” é o que vulgarmente se denomina de “dobrada”.
Depois, se não tiver pretensões a morigerar estas gentes, é só munir-se de uns quantos vocábulos em português vernáculo, daqueles que até fazem corar as pedras da calçada, e aplicá-los entre cada duas palavras. Estou certo que ao fim de duas semanas estará perfeitamente adaptado e nem a sua família o irá reconhecer.
AVRD
Os problemas de comunicação entre as pessoas são deveras interessantes e complexos. Não falo só do “quebrar o gelo” ou da dificuldade em nos fazermos entender pelo outro (ou pela outra). Refiro-me à própria língua, àquela que se aprende a soletrar e a compor desde a escola primária e que alguns vão tentando aperfeiçoar ao longo da vida.
Quantas páginas se escreveram já sobre o assunto e quanta mais tinta irá correr sem que se esgote a matéria!.
Vem isto a propósito das diferenças de linguagem, dos distintos modos com que as gentes do Norte e do Sul designam uma mesmíssima coisa. Confesso que me espanta o facto de num país tão pequeno como o nosso, haver várias palavras para identificar um mesmo objecto. Não me refiro a sinónimos, mas sim a palavras que não entram no léxico nacional e são de utilização puramente regional. Quem do Sul teve oportunidade de privar com gentes do Norte por certo que entende o que eu digo. Basta ter ido à tropa. Quem não se recorda do que é um “aloquete”? E uma “sertã”?. Não se lembram, “carago”? Que riqueza de linguagem! De onde virá esta diferenciação? Não consta que a torre de Babel existisse para estas bandas. É seguramente uma questão cultural, cujas raízes se afundam em tempos remotos e que hoje serve (para os xenófobos), de sinal, de código de reconhecimento, para identificar quem pertence ao círculo dos nascidos (ou naturalizados) em uma dada região e quem é um estranho e, portanto, considerado estrangeiro. Na zona onde agora estou, quem vem de além Mondego é, invariavelmente, apelidado de sulista ou mouro e olhado de forma diferente, com alguma desconfiança, como alguém não pertencente ao clã e que, portanto, deve ser tratado com a devida cautela (a inversa também é verdadeira, isto é, quem vai para a terra dos mouros terá que se precaver devidamente. Segundo consta em alguns meios nortenhos uma das causas da queda do ministro Fernando Gomes (lembram-se dele?)terá sido a sua inabalável oposição a abandonar o genuíno falar da Invicta).
Daí a necessidade premente de apoiar todos os que não têm entrada nestas confrarias, quiçá através de associações, agremiações ou movimentos de defesa de todos os excluídos (ex: “MAD” - Movimento de Auxílio aos Deslocados, ou “MAMA” - Movimento Associativo para Melhor Aclimatação, etc.). Outro modo de prestar auxílio aos que, temporária ou definitivamente, se movimentam para outras terras, é o fornecimento de um dicionário da linguagem local que, com o indispensável treino do sotaque, permitirá uma eficaz integração no meio. Face à inexistência de tal apetrecho e na impossibilidade de realizar tão homérica tarefa, dou o meu modesto contributo (o que faço com bastante satisfação) a quem, por uma razão ou outra, tiver que vir para estas bandas, na forte convicção de que a aglutinação cultural é um factor determinante no bom entendimento entre os povos (dizem que foi com base nesta teoria que os romanos instituíram a sua “pax” e os portugueses inventaram a mulata). Seguem, assim, uns quantos dizeres de utilização mais corrente, a que juntei o seu correspondente significado e que, certamente, irão permitirão uma sobrevivência segura nos primeiros tempos de habituação a estas paragens: “café” é o que costumamos designar por “bica”; “pingo” significa “garoto”; “fino” quer dizer “imperial”; “bolo de bacalhau” traduz-se por “pastel de bacalhau” e “tripas” é o que vulgarmente se denomina de “dobrada”.
Depois, se não tiver pretensões a morigerar estas gentes, é só munir-se de uns quantos vocábulos em português vernáculo, daqueles que até fazem corar as pedras da calçada, e aplicá-los entre cada duas palavras. Estou certo que ao fim de duas semanas estará perfeitamente adaptado e nem a sua família o irá reconhecer.
AVRD
Segunda-feira, Outubro 13, 2003
A mamã dos meninos
A senhora quer fazer de mamã docinha, apesar de ser um bocado feia e não é qualquer uma que pode fazer de mamã doce. Fica chato e é uma aldrabice. O teatro ao teatro. Antes da representação estão os cargos que foi vaidoso ocupar, e além disso são pagos com dinheiro roxo e este é que dá para pagar despesas. Depois do cargo aceite é necessário fazer o papel, debitá-lo, seguir a opinião publica ingénua e também tomar partido, por causa da lealdade. A cavalheira tem os seus meninos, para isso é que está lá, para os ter no coração e mais nada. Não se pense que é livre. Ninguém num cargo é livre, não está lá para dizer o que sabe, mas antes para engolir sapos vivos. Portanto não vai dizer onde está a verdade, mesmo que a pense e muito menos se ela for contrária aos meninos. LACP
A senhora quer fazer de mamã docinha, apesar de ser um bocado feia e não é qualquer uma que pode fazer de mamã doce. Fica chato e é uma aldrabice. O teatro ao teatro. Antes da representação estão os cargos que foi vaidoso ocupar, e além disso são pagos com dinheiro roxo e este é que dá para pagar despesas. Depois do cargo aceite é necessário fazer o papel, debitá-lo, seguir a opinião publica ingénua e também tomar partido, por causa da lealdade. A cavalheira tem os seus meninos, para isso é que está lá, para os ter no coração e mais nada. Não se pense que é livre. Ninguém num cargo é livre, não está lá para dizer o que sabe, mas antes para engolir sapos vivos. Portanto não vai dizer onde está a verdade, mesmo que a pense e muito menos se ela for contrária aos meninos. LACP
ONDE JAMAIS A MÃO DO HOMEM PÔS O PÉ
Descobri que os desenhos animados me fazem falta no cinema.
Descobri que Os Canhões de Navarone, que vi para cima de quinze vezes no Cinema Paris, não teriam nunca sido os mesmos sem os cinco minutos dos desenhos animados do Tex Avery.
Descobri que o David Niven e o Antony Quinn e o Telly Savalas nunca teriam sido os mesmo sem aquela espécie de briefing de Elmer Fudd.
Mas descobri algo mais grave: o que me faz ainda mais falta do que os desenhos animados no cinema são os documentários sobre a vida selvagem que vinham sempre antes de O Homem Que Matou Liberty Valance, com o John wayne, o James Stewart e o Lee van Cleef, que vi para aí umas catorze vezes no Cinema Condes. Sobretudo aquele em que uma voz grave, de sotaque brasileiro, se soltava pelo meio de uma vertigem de árvores gigantescas com a solenidade de uma sentença que se me prolongou pela vida até hoje:
- Essa é a flôrésta amazônica. Ondi jamaisss a mão do homi pôis o pé...
VIAGEM DE TI
Acabo de chegar de um lugar distante.
Gostava que as minhas viagens não tivessem regresso. Mas têm.
As minhas viagens são eu e tu.
DESTINOS DE FERRO
Já passei por tantas e tantas estações de comboio na Índia.
A Índia de norte a sul: de Pathankot a Kanniyakumari.
A Índia de ocidente a oriente: de Aurangbad a Baharampur.
O coração quente e húmido da Índia: Jhansi, Gwalior, Agantapur, Mysore.
A Índia que escuta o som cavo do mar: Nidadavole, Rameswaran, Thiruvananthapuran, Dwarka, Margão, Cochim.
Toda a Índia eu conheço ao sabor férreo dos tirantes.
Em todas as estações encontro um fascínio bruto, um chamado obscuro.
As moscas picam como vespas; caras indesvendáveis cruzam-se nas plataformas.
- Tchaí! Tchaí! Cófié! Cófié!,
grita o rapaz meio despido que carrega um samovar ferrugento.
Homens escuríssimos de longos bigodes.
Carregadores dobrados de berrantes camisas vermelhas e cor-de-rosas.
Mulheres de meia idade de óculos de aros de massa grossa.
Mulheres envelhecidas de barrigas a descoberto caindo como odres quase cheios.
Rapazes negros de dhotis brancos e chinelos cambados.
Guardas de estação de pomposas fardas castanhas e pingalim na mão.
Raparigas exibindo na testa bindies de cores vivas.
Homens ocidentalizados de fato e gravata.
Gente suando em bica na exasperação da canícula.
Há carruagens estacionadas num silêncio de ferros prometendo-me mais destinos ainda por cumprir.
ESPERAS DE FERRO
Uma sala de espera fresca por entre a tarde de calor impossível.
Tectos altos, ventoinhas renovando o ar espesso. Janelas abertas para um exterior inevitável de palmeiras e corvos com gralhas ao fundo.
O crocitar teimoso dos corvos.
Osgas subindo pelas paredes que têm penduradas fotos antigas garantido as maravilhas desbotadas de Kerala, de Orissa, do Rajastão.
Frases importantes de Ghandi.
Avisos e proibições com ameaças brutas para aqueles que os não respeitam: NÃO FUME! NÃO USE O WC PARA TOMAR BANHO! NÃO UTILIZE ESTA SALA DE ESPERA SE NÃO FÔR DE UPPER CLASS!
A milenar ordem das castas...
Serei eu de upper class?
NOITES DE FERRO
Já passei por tantas e tantas estações de comboio de todo o Mundo.
O planeta de norte a sul: de Östersund e Kebnekaise a Coihaique e Punta Arenas.
O planeta de ocidente a oriente: de Quetzaltenango e Tegucigalpa a Geonju e Yokhoama.
O vasto coração do planeta: Novosibirsk, Samarcanda, Irkutsk, Oulan Bator.
O planeta que escuta o som cavo do mar: Ndangane, Mombaça, Nha Trang, Malaca.
Todo o planeta eu conheço ao sabor férreo dos tirantes.
Na Gambir Station, em Djakarta, tomo o caminho de Djodjyakarta.
O som intenso dos altifalantes vomitando avisos.
Um homenzinho minúsculo passa, de megafone na mão, gritando a plenos pulmões os comboios que chegam e que partem.
Rostos claros e rostos escuros. Rostos que desenham as ilhas de onde vêm: Kalimantan, Nusa Tengara, Sulawesi, Lombok.
Um velho sentado de pernas abertas e chapéu negro parece a re-incarnação de Sukarno.
Morcegos desprendem-se dos tectos de ferro e voam para longe no seu voo de papel.
A noite é profunda para lá das linhas paralelas dos carris.
Os carros misturam-se caóticos na direcção de Merdeka Square.
Por entre a escuridão do fumo dos escapes há um estranho cheiro claro de limão. AM
Descobri que os desenhos animados me fazem falta no cinema.
Descobri que Os Canhões de Navarone, que vi para cima de quinze vezes no Cinema Paris, não teriam nunca sido os mesmos sem os cinco minutos dos desenhos animados do Tex Avery.
Descobri que o David Niven e o Antony Quinn e o Telly Savalas nunca teriam sido os mesmo sem aquela espécie de briefing de Elmer Fudd.
Mas descobri algo mais grave: o que me faz ainda mais falta do que os desenhos animados no cinema são os documentários sobre a vida selvagem que vinham sempre antes de O Homem Que Matou Liberty Valance, com o John wayne, o James Stewart e o Lee van Cleef, que vi para aí umas catorze vezes no Cinema Condes. Sobretudo aquele em que uma voz grave, de sotaque brasileiro, se soltava pelo meio de uma vertigem de árvores gigantescas com a solenidade de uma sentença que se me prolongou pela vida até hoje:
- Essa é a flôrésta amazônica. Ondi jamaisss a mão do homi pôis o pé...
VIAGEM DE TI
Acabo de chegar de um lugar distante.
Gostava que as minhas viagens não tivessem regresso. Mas têm.
As minhas viagens são eu e tu.
DESTINOS DE FERRO
Já passei por tantas e tantas estações de comboio na Índia.
A Índia de norte a sul: de Pathankot a Kanniyakumari.
A Índia de ocidente a oriente: de Aurangbad a Baharampur.
O coração quente e húmido da Índia: Jhansi, Gwalior, Agantapur, Mysore.
A Índia que escuta o som cavo do mar: Nidadavole, Rameswaran, Thiruvananthapuran, Dwarka, Margão, Cochim.
Toda a Índia eu conheço ao sabor férreo dos tirantes.
Em todas as estações encontro um fascínio bruto, um chamado obscuro.
As moscas picam como vespas; caras indesvendáveis cruzam-se nas plataformas.
- Tchaí! Tchaí! Cófié! Cófié!,
grita o rapaz meio despido que carrega um samovar ferrugento.
Homens escuríssimos de longos bigodes.
Carregadores dobrados de berrantes camisas vermelhas e cor-de-rosas.
Mulheres de meia idade de óculos de aros de massa grossa.
Mulheres envelhecidas de barrigas a descoberto caindo como odres quase cheios.
Rapazes negros de dhotis brancos e chinelos cambados.
Guardas de estação de pomposas fardas castanhas e pingalim na mão.
Raparigas exibindo na testa bindies de cores vivas.
Homens ocidentalizados de fato e gravata.
Gente suando em bica na exasperação da canícula.
Há carruagens estacionadas num silêncio de ferros prometendo-me mais destinos ainda por cumprir.
ESPERAS DE FERRO
Uma sala de espera fresca por entre a tarde de calor impossível.
Tectos altos, ventoinhas renovando o ar espesso. Janelas abertas para um exterior inevitável de palmeiras e corvos com gralhas ao fundo.
O crocitar teimoso dos corvos.
Osgas subindo pelas paredes que têm penduradas fotos antigas garantido as maravilhas desbotadas de Kerala, de Orissa, do Rajastão.
Frases importantes de Ghandi.
Avisos e proibições com ameaças brutas para aqueles que os não respeitam: NÃO FUME! NÃO USE O WC PARA TOMAR BANHO! NÃO UTILIZE ESTA SALA DE ESPERA SE NÃO FÔR DE UPPER CLASS!
A milenar ordem das castas...
Serei eu de upper class?
NOITES DE FERRO
Já passei por tantas e tantas estações de comboio de todo o Mundo.
O planeta de norte a sul: de Östersund e Kebnekaise a Coihaique e Punta Arenas.
O planeta de ocidente a oriente: de Quetzaltenango e Tegucigalpa a Geonju e Yokhoama.
O vasto coração do planeta: Novosibirsk, Samarcanda, Irkutsk, Oulan Bator.
O planeta que escuta o som cavo do mar: Ndangane, Mombaça, Nha Trang, Malaca.
Todo o planeta eu conheço ao sabor férreo dos tirantes.
Na Gambir Station, em Djakarta, tomo o caminho de Djodjyakarta.
O som intenso dos altifalantes vomitando avisos.
Um homenzinho minúsculo passa, de megafone na mão, gritando a plenos pulmões os comboios que chegam e que partem.
Rostos claros e rostos escuros. Rostos que desenham as ilhas de onde vêm: Kalimantan, Nusa Tengara, Sulawesi, Lombok.
Um velho sentado de pernas abertas e chapéu negro parece a re-incarnação de Sukarno.
Morcegos desprendem-se dos tectos de ferro e voam para longe no seu voo de papel.
A noite é profunda para lá das linhas paralelas dos carris.
Os carros misturam-se caóticos na direcção de Merdeka Square.
Por entre a escuridão do fumo dos escapes há um estranho cheiro claro de limão. AM
UM SORRISO TRISTE DE PALHAÇO POBRE
Tenho uma certeza tão, tão absoluta, que era capaz de apostar, singelo contra dobrado, que o condutor da Ford Transit vermelha escura que anda por aí, pelas ruas, a anunciar a última sessão de Verão do Circo Mundial é o mal-encarado do Atirador-de-Facas que ainda ontem vi, meio coxo, na matiné das quatro e meia, dar uma barraca maior do que a tenda do velho Circo Moscovo que assentava arraiais no Campo Pequeno todos os Natais com os seus Ursos Patinadores e os seus Tigres Brancos da Sibéria, não conseguindo espetar mais do que três punhais no contraplacado onde se contorcia uma rapariga magrinha, magrinha, de cara amarelada e corpito escanzelado picado de varizes amarrada pelas pontas dos pulsos e dos tornozelos.
Deve ser por isso que conduz como um louco, a cuspir panfletos azuis e amarelos pelo rectângulo da janela da Ford Transit. Ainda está irritado por causa da matiné das quatro e meia: vendo bem, três punhais no contraplacado não é lá das tais coisas.
Até eu que não percebo nada de circos tenho ideia que era capaz de fazer melhor. Acho que era menino para garantir pelo menos uns seis punhais no contraplacado sem espetar nenhum na magricelas de cara vendada a contorcer-se de medo, os olhos esbugalhados de cada vez que o Atirador-de-Facas lançava mais um punhal, assobiando no ar, e ele apoiado na perna boa, abanando a outra mais curta que deve dar muito jeito para tomar balanço mas que não deve dar jeito nenhum para carregar no travão da Ford Transit vermelha escura que ainda agora dobrou uma esquina a mais de cem à hora numa chiadeira de pneus.
Sou também capaz de apostar que quem ia com ele, sentado no lugar do morto, era o pequenitates do Homem-Bala que costuma ser disparado de um canhão foleiro contra uma rede que não merece confiança por entre uma fumarada de pólvora seca. O mesmíssimo Homem-Bala que vende pipocas e balões no intervalo das matinés e ainda anteontem vi a dar uma ajuda ao Homem-Mais-Forte-do-Mundo
(O único, senhoras e senhores, meninos e meninas, capaz de rasgar com as mãos dois volumes das páginas amarelas!!!)
e que deve ser, suponho eu, casado com a Mulher-Barbada pela regra universal da atracção dos horrores, a alimentar os elefantes, carregando para trás e para a frente baldes de alumínio a transbordar de vegetais com aspecto muito pouco fresco, enquanto o Domador-de-Feras, sem a fatiota vermelha de botões dourados das matinés e sem o chicote que faz um
PLAC-PLAC-PLAC-PLAC
assustador, capaz de meter medo ao maior dos leões africanos acabados de chegar das savanas da Tanzânia, só com uma camisola interior sem mangas, fumava um cigarrinho de enrolar e lançava uns piropos mais ou menos ordinários à Lolita-do-Trapézio debruçada sobre o tanque a esfregar com a força diluente do sabão azul o fatinho das lantejoulas e que também não se portou lá muito bem ontem, na matiné das quatro e meia.
A verdade é que, embora o Mestre-de-Cerimónias, tenha ordenado que a iluminassem com os holofotes
(também não percebi muito bem essa dos holofotes às quatro e meia da tarde...)
enquanto ela subia para o trapézio do céu, e ficasse, cá em baixo, a abrir os braços até quase fazer rebentar o smoking esterlicado, mostrando o puído dos cotovelos e soltando ameaças em tons macabros:
- LEMBRA-TE LOLITA, TEUS PAIS MORRERAM ASSIM!,
nem por isso a Lolita-do-Trapézio deixou de se balouçar sem peva de malabarismos, para cá e para lá, sentada no ferro do trapézio a esticar os pezinhos delicados e as pernas cheias de rofegos, se calhar com a alma destroçada pela morte de seus pais, também eles para cá e para lá, certamente, dependurados na sua desgraça quotidiana de trapézios do céu.
Não vi muito bem, e por isso não aposto, é quem ia na traseira da Ford Transit vermelha escura que o Atirador-de-Facas furioso guiava que nem um louco. Não me pareceu gente muito feliz, por isso talvez fosse o trombanas do Mágico-Mandrake, sem a capa carmesim, claro está, e sem a camisa branca de manga larga onde cabem, bem escondidos
(mas eu já lhe topei o truque)
um ror de lenços de seda amarrados uns aos outros por nós cegos difíceis de desatar e um bando de pombas citadinas e sem ânimo que ainda ontem, na matiné nas quatro e meia, se espalharam por todo o lado numa saudade desesperada de estátuas ao mesmo tempo que o
- FANTÁSTICO! EXTRAORDINÁRIO! ALUCINANTE! INCOMPARÁVEL E INSUPORTÁVEL!
Mágico-Madrake serrava ao meio a magricelas do contraplacado do Atirador-de-Facas, de carantonha ainda mais amarela e olhos ainda mais esbugalhados, contorcendo-se numa caixa de pinho que só lhe deixava a cabeça e os pés de fora, talvez apenas ligeiramente mais descontraída do que a Lolita-do-Trapézio por saber, lá no fundo, que seus pais não morreram assim.
E daí, talvez não. Aquela infelicidade toda só podia pertencer a um palhaço. Não ao Palhaço-Rico, na sua indumentária idiota de arlequim, com o chapéu cónico de pom-pom na ponta, periclitantemente equilibrado na cabeça, entretido na sua tarefa melancólica de torturar o Palhaço-Pobre, atrapalhando-lhe os tangos e os pasos-dobles que ele toca desafinadamente com um tubo de mangueira e um serrote, os sapatos ridículos a tropeçarem um no outro num exagero de meias-solas, uma lágrima desenhada a carvão na superfície da bochecha sardenta que esconde uma lágrima verdadeira por debaixo, a bola vermelha do nariz que esconde, por debaixo, a bola vermelha do nariz inchado do vício do vinho, a careca cor-de-rosa de plástico que esconde, também ela, por debaixo, a careca rugosa da idade que já não há maneira de esconder.
Afinal, não vi muito bem mas até aposto que quem eu vi para lá da moldura quadrada do vidro traseiro da Ford Transit vermelha escura que o Atirador-de-Facas furibundo guiava como um louco, a cuspir panfletos azuis e amarelos e a chiar dos pneus pelas esquinas com o Homem-Bala sentado no lugar do morto, era o Palhaço-Pobre. No fundo, no fundo, acho que ele é inconfundível quando arreganha a boca no seu sorriso profundamente triste de palhaço pobre. A M
Tenho uma certeza tão, tão absoluta, que era capaz de apostar, singelo contra dobrado, que o condutor da Ford Transit vermelha escura que anda por aí, pelas ruas, a anunciar a última sessão de Verão do Circo Mundial é o mal-encarado do Atirador-de-Facas que ainda ontem vi, meio coxo, na matiné das quatro e meia, dar uma barraca maior do que a tenda do velho Circo Moscovo que assentava arraiais no Campo Pequeno todos os Natais com os seus Ursos Patinadores e os seus Tigres Brancos da Sibéria, não conseguindo espetar mais do que três punhais no contraplacado onde se contorcia uma rapariga magrinha, magrinha, de cara amarelada e corpito escanzelado picado de varizes amarrada pelas pontas dos pulsos e dos tornozelos.
Deve ser por isso que conduz como um louco, a cuspir panfletos azuis e amarelos pelo rectângulo da janela da Ford Transit. Ainda está irritado por causa da matiné das quatro e meia: vendo bem, três punhais no contraplacado não é lá das tais coisas.
Até eu que não percebo nada de circos tenho ideia que era capaz de fazer melhor. Acho que era menino para garantir pelo menos uns seis punhais no contraplacado sem espetar nenhum na magricelas de cara vendada a contorcer-se de medo, os olhos esbugalhados de cada vez que o Atirador-de-Facas lançava mais um punhal, assobiando no ar, e ele apoiado na perna boa, abanando a outra mais curta que deve dar muito jeito para tomar balanço mas que não deve dar jeito nenhum para carregar no travão da Ford Transit vermelha escura que ainda agora dobrou uma esquina a mais de cem à hora numa chiadeira de pneus.
Sou também capaz de apostar que quem ia com ele, sentado no lugar do morto, era o pequenitates do Homem-Bala que costuma ser disparado de um canhão foleiro contra uma rede que não merece confiança por entre uma fumarada de pólvora seca. O mesmíssimo Homem-Bala que vende pipocas e balões no intervalo das matinés e ainda anteontem vi a dar uma ajuda ao Homem-Mais-Forte-do-Mundo
(O único, senhoras e senhores, meninos e meninas, capaz de rasgar com as mãos dois volumes das páginas amarelas!!!)
e que deve ser, suponho eu, casado com a Mulher-Barbada pela regra universal da atracção dos horrores, a alimentar os elefantes, carregando para trás e para a frente baldes de alumínio a transbordar de vegetais com aspecto muito pouco fresco, enquanto o Domador-de-Feras, sem a fatiota vermelha de botões dourados das matinés e sem o chicote que faz um
PLAC-PLAC-PLAC-PLAC
assustador, capaz de meter medo ao maior dos leões africanos acabados de chegar das savanas da Tanzânia, só com uma camisola interior sem mangas, fumava um cigarrinho de enrolar e lançava uns piropos mais ou menos ordinários à Lolita-do-Trapézio debruçada sobre o tanque a esfregar com a força diluente do sabão azul o fatinho das lantejoulas e que também não se portou lá muito bem ontem, na matiné das quatro e meia.
A verdade é que, embora o Mestre-de-Cerimónias, tenha ordenado que a iluminassem com os holofotes
(também não percebi muito bem essa dos holofotes às quatro e meia da tarde...)
enquanto ela subia para o trapézio do céu, e ficasse, cá em baixo, a abrir os braços até quase fazer rebentar o smoking esterlicado, mostrando o puído dos cotovelos e soltando ameaças em tons macabros:
- LEMBRA-TE LOLITA, TEUS PAIS MORRERAM ASSIM!,
nem por isso a Lolita-do-Trapézio deixou de se balouçar sem peva de malabarismos, para cá e para lá, sentada no ferro do trapézio a esticar os pezinhos delicados e as pernas cheias de rofegos, se calhar com a alma destroçada pela morte de seus pais, também eles para cá e para lá, certamente, dependurados na sua desgraça quotidiana de trapézios do céu.
Não vi muito bem, e por isso não aposto, é quem ia na traseira da Ford Transit vermelha escura que o Atirador-de-Facas furioso guiava que nem um louco. Não me pareceu gente muito feliz, por isso talvez fosse o trombanas do Mágico-Mandrake, sem a capa carmesim, claro está, e sem a camisa branca de manga larga onde cabem, bem escondidos
(mas eu já lhe topei o truque)
um ror de lenços de seda amarrados uns aos outros por nós cegos difíceis de desatar e um bando de pombas citadinas e sem ânimo que ainda ontem, na matiné nas quatro e meia, se espalharam por todo o lado numa saudade desesperada de estátuas ao mesmo tempo que o
- FANTÁSTICO! EXTRAORDINÁRIO! ALUCINANTE! INCOMPARÁVEL E INSUPORTÁVEL!
Mágico-Madrake serrava ao meio a magricelas do contraplacado do Atirador-de-Facas, de carantonha ainda mais amarela e olhos ainda mais esbugalhados, contorcendo-se numa caixa de pinho que só lhe deixava a cabeça e os pés de fora, talvez apenas ligeiramente mais descontraída do que a Lolita-do-Trapézio por saber, lá no fundo, que seus pais não morreram assim.
E daí, talvez não. Aquela infelicidade toda só podia pertencer a um palhaço. Não ao Palhaço-Rico, na sua indumentária idiota de arlequim, com o chapéu cónico de pom-pom na ponta, periclitantemente equilibrado na cabeça, entretido na sua tarefa melancólica de torturar o Palhaço-Pobre, atrapalhando-lhe os tangos e os pasos-dobles que ele toca desafinadamente com um tubo de mangueira e um serrote, os sapatos ridículos a tropeçarem um no outro num exagero de meias-solas, uma lágrima desenhada a carvão na superfície da bochecha sardenta que esconde uma lágrima verdadeira por debaixo, a bola vermelha do nariz que esconde, por debaixo, a bola vermelha do nariz inchado do vício do vinho, a careca cor-de-rosa de plástico que esconde, também ela, por debaixo, a careca rugosa da idade que já não há maneira de esconder.
Afinal, não vi muito bem mas até aposto que quem eu vi para lá da moldura quadrada do vidro traseiro da Ford Transit vermelha escura que o Atirador-de-Facas furibundo guiava como um louco, a cuspir panfletos azuis e amarelos e a chiar dos pneus pelas esquinas com o Homem-Bala sentado no lugar do morto, era o Palhaço-Pobre. No fundo, no fundo, acho que ele é inconfundível quando arreganha a boca no seu sorriso profundamente triste de palhaço pobre. A M
Sexta-feira, Outubro 10, 2003
O Superpateta
Triteza, tristeza ao ouvir as opiniões dos meus concidadãos sobre a decisão da Relação no caso Pedroso. E consternação.
Duas em cada três intervenções manifestaram estupidez crassa e arrogante, senhoras e senhores das suas certezas, conceitos radicais e perfeitamente laterais aos factos e mesmo ao problema em causa. Uns cabotinos.
Espero que, nestes casos, os valores da República se imponham ao processo democrático.
Se é sempre doloroso lidar-se com a estupidez em casos individuais, quando se torna um fenómeno social, colectivo, chega a ser apavorante.
Os factos parecem ser claros:
a) um cidadão, conhecido por ser importante político do partido da Oposição, é preso preventivamente, por alegados actos pedófilos;
b) o juiz de instrução não lhe permite conhecer as razões ou o conteúdo do que é acusado;
c) é mantido preso por 4 meses, por alegadamente terceiros terem feito telefonemas para o PGR e PR, entendidos pelo Juiz como “obstruções” ao processo de averiguações;
d) não lhe é permitido, por truques administrativos, recorrer da decisão para a instância superior;
e) é necessário recorrer ao Tribunal Constitucional para que o recurso seja atendido.
f) as razões da prisão são revistas por 3 juízes desembargadores, que consideram infundadas as razões da prisão e mandam libertar o preso.
Objectivamente a Justiça funcionou mal, por incorrecções de um dos seus agentes. Foi necessário recorrer à mais alta instância judicial para que o processo retomasse a sua correcção, estando entretanto, o cidadão indevidamente preso por 4 meses.
Os estúpidos e militantes kafkianos pensam da seguinte forma:
z) os arguidos no processo Casa Pia são os responsáveis por todas as brutalidades que foram feitas às crianças da Instituição e devem pagar por isso, e são evidentemente culpados; é preciso arranjar culpados do que aconteceu e não há outros;
y) no caso Casa Pia, todos os arguidos, mesmo antes de serem acusados, são culpados, porque se não, não tinham sido acusados;
x) se estão presos, é porque a Justiça, personalizada no juiz instrutor, tem razões ponderosas para o fazer;
v) o juiz instrutor seguramente não se engana, porque é juiz; é absolutamente imparcial, porque é juiz; não tem quaisquer intuitos menos claros, porque é juiz; e é um juiz super-heroi, porque ousou enfrentar o poder político, no caso Pedroso;
u) outros juízes que contrariem as decisões do super-heroi, foram comprados pelo poder;
t) as razões e provas do envolvimento do arguido Pedroso no Caso são idênticas aos dos outros 13 arguidos, ou seja, todos eles são cúmplices na Organização pedófila (rede, tráfego, uso, etc);
s) o indiciamento de homem tão importante politicamente é prova segura que ele é iniludivelmente culpado;
r) os políticos são todos potenciais ou efectivos criminosos e gozam de impunidade sistemática;
q) se a Relação considerou não haver razão provada para a prisão e libertou o cidadão Pedroso foi por ele ser político, poderoso e o PS ter-se movimentado nos bastidores;
p) Pedroso é culpado, porque é arguido, foi preso e é poderoso.
A conclusão normal deste género de (des)pensamento seria um linchamento, que já vi proposto.
Com um povo com 80% de iliteracia, actos de incompetência de um agente idiota da Justiça podem conduzir às maiores brutalidades e injustiças.
Algumas já foram feitas, outras estarão a caminho.
Tristeza, tristeza. Preocupação.
ASP
Triteza, tristeza ao ouvir as opiniões dos meus concidadãos sobre a decisão da Relação no caso Pedroso. E consternação.
Duas em cada três intervenções manifestaram estupidez crassa e arrogante, senhoras e senhores das suas certezas, conceitos radicais e perfeitamente laterais aos factos e mesmo ao problema em causa. Uns cabotinos.
Espero que, nestes casos, os valores da República se imponham ao processo democrático.
Se é sempre doloroso lidar-se com a estupidez em casos individuais, quando se torna um fenómeno social, colectivo, chega a ser apavorante.
Os factos parecem ser claros:
a) um cidadão, conhecido por ser importante político do partido da Oposição, é preso preventivamente, por alegados actos pedófilos;
b) o juiz de instrução não lhe permite conhecer as razões ou o conteúdo do que é acusado;
c) é mantido preso por 4 meses, por alegadamente terceiros terem feito telefonemas para o PGR e PR, entendidos pelo Juiz como “obstruções” ao processo de averiguações;
d) não lhe é permitido, por truques administrativos, recorrer da decisão para a instância superior;
e) é necessário recorrer ao Tribunal Constitucional para que o recurso seja atendido.
f) as razões da prisão são revistas por 3 juízes desembargadores, que consideram infundadas as razões da prisão e mandam libertar o preso.
Objectivamente a Justiça funcionou mal, por incorrecções de um dos seus agentes. Foi necessário recorrer à mais alta instância judicial para que o processo retomasse a sua correcção, estando entretanto, o cidadão indevidamente preso por 4 meses.
Os estúpidos e militantes kafkianos pensam da seguinte forma:
z) os arguidos no processo Casa Pia são os responsáveis por todas as brutalidades que foram feitas às crianças da Instituição e devem pagar por isso, e são evidentemente culpados; é preciso arranjar culpados do que aconteceu e não há outros;
y) no caso Casa Pia, todos os arguidos, mesmo antes de serem acusados, são culpados, porque se não, não tinham sido acusados;
x) se estão presos, é porque a Justiça, personalizada no juiz instrutor, tem razões ponderosas para o fazer;
v) o juiz instrutor seguramente não se engana, porque é juiz; é absolutamente imparcial, porque é juiz; não tem quaisquer intuitos menos claros, porque é juiz; e é um juiz super-heroi, porque ousou enfrentar o poder político, no caso Pedroso;
u) outros juízes que contrariem as decisões do super-heroi, foram comprados pelo poder;
t) as razões e provas do envolvimento do arguido Pedroso no Caso são idênticas aos dos outros 13 arguidos, ou seja, todos eles são cúmplices na Organização pedófila (rede, tráfego, uso, etc);
s) o indiciamento de homem tão importante politicamente é prova segura que ele é iniludivelmente culpado;
r) os políticos são todos potenciais ou efectivos criminosos e gozam de impunidade sistemática;
q) se a Relação considerou não haver razão provada para a prisão e libertou o cidadão Pedroso foi por ele ser político, poderoso e o PS ter-se movimentado nos bastidores;
p) Pedroso é culpado, porque é arguido, foi preso e é poderoso.
A conclusão normal deste género de (des)pensamento seria um linchamento, que já vi proposto.
Com um povo com 80% de iliteracia, actos de incompetência de um agente idiota da Justiça podem conduzir às maiores brutalidades e injustiças.
Algumas já foram feitas, outras estarão a caminho.
Tristeza, tristeza. Preocupação.
ASP
O pior governo de todos
Não sei porque é que não vejo escrito em lado nenhum. Não percebo porque é que não dizem. Não sei porque é que insistem em fingir. Nós temos o pior governo que tivemos. O chefe deles é uma nulidade e não tem conteúdo. É um homem inculto. Como é possível que um grupelho destrua o nosso país, as nossas esperanças, o nosso futuro?
Não há ninguém que diga, não há ninguém que faça alguma coisa? LACP
Não sei porque é que não vejo escrito em lado nenhum. Não percebo porque é que não dizem. Não sei porque é que insistem em fingir. Nós temos o pior governo que tivemos. O chefe deles é uma nulidade e não tem conteúdo. É um homem inculto. Como é possível que um grupelho destrua o nosso país, as nossas esperanças, o nosso futuro?
Não há ninguém que diga, não há ninguém que faça alguma coisa? LACP
Estamos sujeitos ao impensável
Agora que se conhece com mais algum detalhe os procedimentos levados a cabo pelo sr. juiz (na base do noticiado no jornal Público de 9 de Outubro) não só se coloca a hipótese de um erro racional, mas mais ainda, um problema de carácter. Esse senhor é um caso de estudo de Antropologia. E se houvesse uma disciplina de Ética actualizada e não apenas investigação académica, teríamos também um caso vivo para estudo. Aparte a ciência, o nosso entendimento do que é a espécie humana, está a ser completado com novos dados. Só as corporações dogmáticas se fecham às realidades da natureza humana e este é o caso de um mafarrico que extravasou. Quem cai na esparrela da ingenuidade? Agora forçam-nos a conviver com o absurdo desta história, como se fosse natural e aceitável um magano que dá ordem de prisão se puder enganar. Em nome da dignidade da justiça deve ser levantado um inquérito aos arrogantes que tanto descrebilizam o sistema e mostram que afinal não funciona e é manipulável. Quem disse que o cidadão não deve interferir na justiça? LACP
Agora que se conhece com mais algum detalhe os procedimentos levados a cabo pelo sr. juiz (na base do noticiado no jornal Público de 9 de Outubro) não só se coloca a hipótese de um erro racional, mas mais ainda, um problema de carácter. Esse senhor é um caso de estudo de Antropologia. E se houvesse uma disciplina de Ética actualizada e não apenas investigação académica, teríamos também um caso vivo para estudo. Aparte a ciência, o nosso entendimento do que é a espécie humana, está a ser completado com novos dados. Só as corporações dogmáticas se fecham às realidades da natureza humana e este é o caso de um mafarrico que extravasou. Quem cai na esparrela da ingenuidade? Agora forçam-nos a conviver com o absurdo desta história, como se fosse natural e aceitável um magano que dá ordem de prisão se puder enganar. Em nome da dignidade da justiça deve ser levantado um inquérito aos arrogantes que tanto descrebilizam o sistema e mostram que afinal não funciona e é manipulável. Quem disse que o cidadão não deve interferir na justiça? LACP
Quinta-feira, Outubro 09, 2003
Para que servem os blogs?
Impõe-se uma pequena reflexão sobre o papel e destino da blogoesfera, o que aliás vai sendo frequente não só entre nós. Um dos destinos evidente diz respeito ao acesso individual. Assim se exercita a participação activa da cidadania, através de uma linguagem que inaugura um novo campo de comunicação. Na tese de dissertação de doutoramento na Kent State University “ From Zines to Enzines”, (393 páginas!) de Agosto de 2001, o Sr. Frederick Wright indica-nos por volta da pág. 93, alguns tipos de conteúdos mais frequentes, tais como descobertas de novos conceitos ou peças de conhecimento, histórias, poemas, letras de canções, ensaios e teorias, meias verdades, literatura confessional, crónica dos tempos, por vezes engraçada, zangada, triste, aborrecida, imprevista, contraditória; observa então, após diversos exemplos, que está em curso “uma voz individual que emerge” o que torna a weblog uma verdadeira pressão criativa. Um dos aspectos consequentes diz respeito à combinação da literatura com a cultura em rede da blogoesfera. Sem excluir a possibilidade de produção de pensamento, análise e crítica, e todo o rol de géneros em disputa, a “saída” ficção está a pairar; é uma ficção renovada, com o recurso a um novo meio, feita de palavras directas, em formato pequeno, preferencialmente de menos de uma página, para não fatigar o leitor do outro lado. Uma literatura apta a prender a atenção de um novo leitor cidadão, talvez em competição com os velhos leitores de linhas de livros impressos.
Há que dar voz a algumas personagens do nosso convívio de bloggers. O Rudegolpe é um espaço aberto, e algumas pessoas a quem acontecem coisas poderão aqui ter espaço para as suas desventuras. É o caso de José Lopo que foi posto fora de casa pela Tucha. E do amigo Jorge António Fonseca que também conhece a Tucha, estão a dar-se, em termos de contacto, sem mais nada. E por aí fora, por aí fora, numa espécie de folhetim que pega aqui e larga adiante. LACP
Impõe-se uma pequena reflexão sobre o papel e destino da blogoesfera, o que aliás vai sendo frequente não só entre nós. Um dos destinos evidente diz respeito ao acesso individual. Assim se exercita a participação activa da cidadania, através de uma linguagem que inaugura um novo campo de comunicação. Na tese de dissertação de doutoramento na Kent State University “ From Zines to Enzines”, (393 páginas!) de Agosto de 2001, o Sr. Frederick Wright indica-nos por volta da pág. 93, alguns tipos de conteúdos mais frequentes, tais como descobertas de novos conceitos ou peças de conhecimento, histórias, poemas, letras de canções, ensaios e teorias, meias verdades, literatura confessional, crónica dos tempos, por vezes engraçada, zangada, triste, aborrecida, imprevista, contraditória; observa então, após diversos exemplos, que está em curso “uma voz individual que emerge” o que torna a weblog uma verdadeira pressão criativa. Um dos aspectos consequentes diz respeito à combinação da literatura com a cultura em rede da blogoesfera. Sem excluir a possibilidade de produção de pensamento, análise e crítica, e todo o rol de géneros em disputa, a “saída” ficção está a pairar; é uma ficção renovada, com o recurso a um novo meio, feita de palavras directas, em formato pequeno, preferencialmente de menos de uma página, para não fatigar o leitor do outro lado. Uma literatura apta a prender a atenção de um novo leitor cidadão, talvez em competição com os velhos leitores de linhas de livros impressos.
Há que dar voz a algumas personagens do nosso convívio de bloggers. O Rudegolpe é um espaço aberto, e algumas pessoas a quem acontecem coisas poderão aqui ter espaço para as suas desventuras. É o caso de José Lopo que foi posto fora de casa pela Tucha. E do amigo Jorge António Fonseca que também conhece a Tucha, estão a dar-se, em termos de contacto, sem mais nada. E por aí fora, por aí fora, numa espécie de folhetim que pega aqui e larga adiante. LACP
Tropelias
Não faço a menor ideia do que vai na cabeça das minhas amadas. Os olhos delas passam às vezes pelo lugar onde me encontro, é o que os da óptica chamam ângulo de visão (será?) e seguem direccionados não sei para onde. Nem os olhos indicam o que o receptor devia saber e, muito menos tenho eu, baptizado Jorge António Fonseca, a aptidão de entender o sentido e expressão que eles podem trazer até cá, se acaso os olhos delas parassem apontados aos meus. Isso não acontece. Muitas vezes desviam-se. Também dizem que tal se deve à repugnância, ao enfado, sabe-se lá se não é melhor antes falar do medo de olhar. Além de que não é educado olhar muito nem fixamente. De qualquer modo, os olhos das minhas amadas o que procuram são bonitões e fala baratos, e já me disseram que não faço parte desse grupo e é melhor não duvidar. Mas isto são desvios, não conta para aqui nada o que cada um parece, o meu enigma não é a relação patética de ser e parecer, mas é antes a relação de ignorância que há entre o que uma garina pensa e o que um chavalo gostaria de saber. Se me fosse dado, por uns momentos, também não se pede muito, conhecer o contorno das preferências, a natureza das suas ansiedades e o fogo dos desejos que consomem aquelas belíssimas arquitecturas mentais que eu amo, compreenderia então o sentido do movimento dos olhos e a deslocação constante, constante, das minhas amadas, sempre dum lado para o outro, irrequietas e instáveis, como quem não há meio de encontrarem um bocadito de paz e pararem de vez com a gula. LACP
Não faço a menor ideia do que vai na cabeça das minhas amadas. Os olhos delas passam às vezes pelo lugar onde me encontro, é o que os da óptica chamam ângulo de visão (será?) e seguem direccionados não sei para onde. Nem os olhos indicam o que o receptor devia saber e, muito menos tenho eu, baptizado Jorge António Fonseca, a aptidão de entender o sentido e expressão que eles podem trazer até cá, se acaso os olhos delas parassem apontados aos meus. Isso não acontece. Muitas vezes desviam-se. Também dizem que tal se deve à repugnância, ao enfado, sabe-se lá se não é melhor antes falar do medo de olhar. Além de que não é educado olhar muito nem fixamente. De qualquer modo, os olhos das minhas amadas o que procuram são bonitões e fala baratos, e já me disseram que não faço parte desse grupo e é melhor não duvidar. Mas isto são desvios, não conta para aqui nada o que cada um parece, o meu enigma não é a relação patética de ser e parecer, mas é antes a relação de ignorância que há entre o que uma garina pensa e o que um chavalo gostaria de saber. Se me fosse dado, por uns momentos, também não se pede muito, conhecer o contorno das preferências, a natureza das suas ansiedades e o fogo dos desejos que consomem aquelas belíssimas arquitecturas mentais que eu amo, compreenderia então o sentido do movimento dos olhos e a deslocação constante, constante, das minhas amadas, sempre dum lado para o outro, irrequietas e instáveis, como quem não há meio de encontrarem um bocadito de paz e pararem de vez com a gula. LACP
SER PORTUGUÊS
“Que é ser Português?”. Que é ser Português hoje, neste mundo em constante transformação? O que é que nos torna únicos e distintos dos restantes povos? A língua? O local de nascimento – espaço físico? O temperamento? A cultura? O que é que de facto nos distingue dos espanhóis, dos franceses, em suma dos europeus e dos restantes povos do mundo? Qual é nossa verdadeira identidade?
A língua é um factor de aproximação, de congregação, é a nossa dimensão universal, mas hoje não nos diferencia de outros povos. Tempos houve em que os países de expressão portuguesa, como agora sói dizer-se, eram considerados como parte integrante de Portugal. Mas era uma situação forçada, sem base de sustentação, uma violência sem futuro, que dava origem a anedotas como esta, que não resisto a contar: Dizia-se que em Ángola, nos tempos da outra senhora, o criado negro de um abastado fazendeiro fazia olhos gulosos para a filha do patrão sempre que esta se pavoneava nas bordas da piscina. Asperamente repreendido pelo atrevimento, respondeu: “Não posso fazer nada patrão. É este nosso temperamento latino...”
Pese embora a afirmação do poeta (que foi dos maiores, se não o maior da língua portuguesa), não é pela língua que nos distinguimos de outros povos. Não somos brasileiros (ainda que se diga existir o português do Brasil), não somos angolanos, nem moçambicanos, nem de qualquer outro país onde se fala a língua de Camões.
O local de nascimento também não parece ser o que determina a nossa nacionalidade. Os filhos de emigrantes nascidos fora do solo pátrio continuam a poder ser portugueses. O “jus sanguinae” sobrepõe-se ao “jus soli” (perdoem-me o meu latim, pois nunca gostei de línguas mortas). É certo que não se nasce impunemente nas praias de Portugal, mas não é por aqui, também, o caminho para chegar à essência...
Será a cultura? De facto a nossa é única, é só nossa, não a dividimos com mais ninguém e isso já constitui um factor de diferenciação. Não se trata do “comer bacalhau”, já que há outros povos que também o comem, ou de ser do Benfica, pois também há portugueses (embora poucos, convenhamos) que têm mais afinidades com outros clubes mais pequenos, mais regionais, mas da cultura em sentido lato, que abarca toda a nossa história comum, todo o nosso passado e que nos confere esta maneira de estar no mundo, este nosso temperamento tolerante, hospitaleiro, desenrascado, aventureiro, subserviente, desorganizado ... sei lá! (Recordo-me muitas vezes de um escocês com quem trabalhei. Dizia ele que nós éramos (somos) o país do mais ou menos. Sempre que pretendia uma resposta precisa sobre determinado assunto ou perguntava a alguém como estava de saúde, nunca obtinha uma ideia concreta sobre a matéria. A resposta era, invariavelmente, “mais ou menos...”).
Mais ninguém tem o nosso passado. E ser Português é ter esta História comum, de coisas boas e de coisas menos boas. De ter dado a conhecer ao mundo novos mundos. De ter acabado com uma bolorenta ditadura utilizando cravos na ponta das espingardas. De tantas, tantas outras coisas...Mas também de acções menos felizes que não vale a pena aqui recordar.
Em meu entender é isto que partilhamos, que nos une e que nos faz ser portugueses. E tudo aquilo que nos une deve ser preservado. Mais ainda nesta época de globalização, onde tudo tende a afinar pela mesma nota, pelo mesmo diapasão. Sem obstaculizar a caminhada para um futuro e, provavelmente, ainda muito distante governo mundial (o da Europa já está à porta), há que manter vivo o que nos diferencia, o que nos confere uma identidade própria.
Ainda que tal possa parecer anacrónico, a nossa bandeira e o hino nacional, sendo símbolos da nossa identidade, são em meu entender um culto a preservar. Pertencem só a nós, portugueses. São factores que nos aproximam e que nos emocionam sempre que, fora das nossas fronteiras, são hasteados ou entoados.
Por isso concordo com as recentes palavras de Santana Lopes aquando das comemorações do 5 de Outubro e, tempos atrás, gostei de ver o Presidente da República (outro símbolo...) a entregar bandeiras portuguesas e a promover nas escolas primárias o ensino do hino nacional. AVRD
“Que é ser Português?”. Que é ser Português hoje, neste mundo em constante transformação? O que é que nos torna únicos e distintos dos restantes povos? A língua? O local de nascimento – espaço físico? O temperamento? A cultura? O que é que de facto nos distingue dos espanhóis, dos franceses, em suma dos europeus e dos restantes povos do mundo? Qual é nossa verdadeira identidade?
A língua é um factor de aproximação, de congregação, é a nossa dimensão universal, mas hoje não nos diferencia de outros povos. Tempos houve em que os países de expressão portuguesa, como agora sói dizer-se, eram considerados como parte integrante de Portugal. Mas era uma situação forçada, sem base de sustentação, uma violência sem futuro, que dava origem a anedotas como esta, que não resisto a contar: Dizia-se que em Ángola, nos tempos da outra senhora, o criado negro de um abastado fazendeiro fazia olhos gulosos para a filha do patrão sempre que esta se pavoneava nas bordas da piscina. Asperamente repreendido pelo atrevimento, respondeu: “Não posso fazer nada patrão. É este nosso temperamento latino...”
Pese embora a afirmação do poeta (que foi dos maiores, se não o maior da língua portuguesa), não é pela língua que nos distinguimos de outros povos. Não somos brasileiros (ainda que se diga existir o português do Brasil), não somos angolanos, nem moçambicanos, nem de qualquer outro país onde se fala a língua de Camões.
O local de nascimento também não parece ser o que determina a nossa nacionalidade. Os filhos de emigrantes nascidos fora do solo pátrio continuam a poder ser portugueses. O “jus sanguinae” sobrepõe-se ao “jus soli” (perdoem-me o meu latim, pois nunca gostei de línguas mortas). É certo que não se nasce impunemente nas praias de Portugal, mas não é por aqui, também, o caminho para chegar à essência...
Será a cultura? De facto a nossa é única, é só nossa, não a dividimos com mais ninguém e isso já constitui um factor de diferenciação. Não se trata do “comer bacalhau”, já que há outros povos que também o comem, ou de ser do Benfica, pois também há portugueses (embora poucos, convenhamos) que têm mais afinidades com outros clubes mais pequenos, mais regionais, mas da cultura em sentido lato, que abarca toda a nossa história comum, todo o nosso passado e que nos confere esta maneira de estar no mundo, este nosso temperamento tolerante, hospitaleiro, desenrascado, aventureiro, subserviente, desorganizado ... sei lá! (Recordo-me muitas vezes de um escocês com quem trabalhei. Dizia ele que nós éramos (somos) o país do mais ou menos. Sempre que pretendia uma resposta precisa sobre determinado assunto ou perguntava a alguém como estava de saúde, nunca obtinha uma ideia concreta sobre a matéria. A resposta era, invariavelmente, “mais ou menos...”).
Mais ninguém tem o nosso passado. E ser Português é ter esta História comum, de coisas boas e de coisas menos boas. De ter dado a conhecer ao mundo novos mundos. De ter acabado com uma bolorenta ditadura utilizando cravos na ponta das espingardas. De tantas, tantas outras coisas...Mas também de acções menos felizes que não vale a pena aqui recordar.
Em meu entender é isto que partilhamos, que nos une e que nos faz ser portugueses. E tudo aquilo que nos une deve ser preservado. Mais ainda nesta época de globalização, onde tudo tende a afinar pela mesma nota, pelo mesmo diapasão. Sem obstaculizar a caminhada para um futuro e, provavelmente, ainda muito distante governo mundial (o da Europa já está à porta), há que manter vivo o que nos diferencia, o que nos confere uma identidade própria.
Ainda que tal possa parecer anacrónico, a nossa bandeira e o hino nacional, sendo símbolos da nossa identidade, são em meu entender um culto a preservar. Pertencem só a nós, portugueses. São factores que nos aproximam e que nos emocionam sempre que, fora das nossas fronteiras, são hasteados ou entoados.
Por isso concordo com as recentes palavras de Santana Lopes aquando das comemorações do 5 de Outubro e, tempos atrás, gostei de ver o Presidente da República (outro símbolo...) a entregar bandeiras portuguesas e a promover nas escolas primárias o ensino do hino nacional. AVRD
Quarta-feira, Outubro 08, 2003
Olhar ruminante 8Out
Diálogo muito recente
Gravado no jardim de S. Bento
Sr. Feliz-Olha mais um, ou melhor, menos um.
Sr. Contente - Menos um que acaba por ser menos vários. Coitados.
Cidadão Feliz – É.
Pausa. Cai folha.
Sr. Contente - Mas depois logo a seguir entram outros. Lá em cima não há lugares vazios. E podem trocar com os que saíram do outro lado. Até é curricular.
Sr. Feliz – É.
Pausa. Cai outra folha.
Sr. Contente -Agora começa é a toto-nomeação.
Pausa. Pequeno vórtice com folhas caídas.
Sr. Contente (continuando) -Ultimamente é tão confidencial que os próprios nomeados só o sabem depois de sair na TV. Segurança absoluta, dizem eles.
Sr. Feliz -É.
Pausa. Cospe. Cai folha.
Sr. Contente - Estou a ver os gajos nervosos a atenderem com voz grave cada vez que toca o telemóvel. Trim, trim, trim.
Sr. Feliz – Trim, trim, trim. Trim clássico, coisa séria..
Pausa prolongada. Caiem várias folhas. Dos plátanos, parece, mas é irrelevante.
Sr. Contente – Isto deve ser do Outono, o cair da folha e do poleiro. Tem sido um ver se te avias. Todas as semanas é um.
Sr. Feliz – É. Dá para esquecer a crise. A dos valores. Da massa e das massas.
Sr. Contente - É.
Pausa. Parecem meditar.
Sr. Feliz - Este foi porquê?
Sr. Contente - Questão de honra, parece. E motivos familiares, coitado.
Sr. Feliz -É.
Pausa
Sr. Feliz, como que hesitando - E era bom ministro?
Sr. Contente - Mas isso tem importância?
Sr. Feliz - É
Caiem as árvores. O País acompanha. ASP
Diálogo muito recente
Gravado no jardim de S. Bento
Sr. Feliz-Olha mais um, ou melhor, menos um.
Sr. Contente - Menos um que acaba por ser menos vários. Coitados.
Cidadão Feliz – É.
Pausa. Cai folha.
Sr. Contente - Mas depois logo a seguir entram outros. Lá em cima não há lugares vazios. E podem trocar com os que saíram do outro lado. Até é curricular.
Sr. Feliz – É.
Pausa. Cai outra folha.
Sr. Contente -Agora começa é a toto-nomeação.
Pausa. Pequeno vórtice com folhas caídas.
Sr. Contente (continuando) -Ultimamente é tão confidencial que os próprios nomeados só o sabem depois de sair na TV. Segurança absoluta, dizem eles.
Sr. Feliz -É.
Pausa. Cospe. Cai folha.
Sr. Contente - Estou a ver os gajos nervosos a atenderem com voz grave cada vez que toca o telemóvel. Trim, trim, trim.
Sr. Feliz – Trim, trim, trim. Trim clássico, coisa séria..
Pausa prolongada. Caiem várias folhas. Dos plátanos, parece, mas é irrelevante.
Sr. Contente – Isto deve ser do Outono, o cair da folha e do poleiro. Tem sido um ver se te avias. Todas as semanas é um.
Sr. Feliz – É. Dá para esquecer a crise. A dos valores. Da massa e das massas.
Sr. Contente - É.
Pausa. Parecem meditar.
Sr. Feliz - Este foi porquê?
Sr. Contente - Questão de honra, parece. E motivos familiares, coitado.
Sr. Feliz -É.
Pausa
Sr. Feliz, como que hesitando - E era bom ministro?
Sr. Contente - Mas isso tem importância?
Sr. Feliz - É
Caiem as árvores. O País acompanha. ASP
Olhar ruminante 8,1 OUT
Estou a ouvir o Forum da TSF.
É óptimo para quem tenha ilusões.
Deixam de lhe dar trabalho.
Desaparecem.
Se os “populares” que participam nesta iniciativa forem representativos deste Povo.
Ignorância arrogante, inveja, vingançazinhas de frustrações antigas, interpretações deturpadas e deturpantes de coisas simples, besuntanços de intuitos reles em actos e atitudes da maior normalidade, “esperteza” boçal, morcãozice militante.
Irra!
Em três ou quatro casos a solução era ressuscitar Salazar! Noutros era acabar com o Estado! Noutros é a venatória aos culpados, desporto nacional. E a culpa é da democracia, do excesso de liberdades, da falta de alguém que governe este país, dos pretos, dos imigrantes, do 25 de Abril, do Salazar, dos paneleiros, dos espanhóis, da corrupção, da droga, dos culpados, em suma.
Povinho pequenininho, preocupadinho com coisinhas coisinhas. Mas muito sacaninha, muito perfidozinho, muitinho, muitinho poucachinho.
Fazer Política com tal gente só pode mesmo ser fazer política
A por carreira, como profissão, agentes mais ou menos administrativos do Poder.
O que, aliás, a grande maioria dos políticos portugueses já percebeu e adoptou.
Com insatisfação geral, salvo dos próprios.
Nós, a gente, podemos, então, dedicar-nos, sem dúvidas de consciência, a actividades lúdicas e perfeitamente inúteis, que vão desde a prática artística à paciência Spyder.
Ajuda à busca da Felicidade.
Resta a esperança que os “populares” que acedem ao Fórum não sejam amostra legítima do nosso Bom Povo Lusitano.
Será?
ASP
Estou a ouvir o Forum da TSF.
É óptimo para quem tenha ilusões.
Deixam de lhe dar trabalho.
Desaparecem.
Se os “populares” que participam nesta iniciativa forem representativos deste Povo.
Ignorância arrogante, inveja, vingançazinhas de frustrações antigas, interpretações deturpadas e deturpantes de coisas simples, besuntanços de intuitos reles em actos e atitudes da maior normalidade, “esperteza” boçal, morcãozice militante.
Irra!
Em três ou quatro casos a solução era ressuscitar Salazar! Noutros era acabar com o Estado! Noutros é a venatória aos culpados, desporto nacional. E a culpa é da democracia, do excesso de liberdades, da falta de alguém que governe este país, dos pretos, dos imigrantes, do 25 de Abril, do Salazar, dos paneleiros, dos espanhóis, da corrupção, da droga, dos culpados, em suma.
Povinho pequenininho, preocupadinho com coisinhas coisinhas. Mas muito sacaninha, muito perfidozinho, muitinho, muitinho poucachinho.
Fazer Política com tal gente só pode mesmo ser fazer política
A por carreira, como profissão, agentes mais ou menos administrativos do Poder.
O que, aliás, a grande maioria dos políticos portugueses já percebeu e adoptou.
Com insatisfação geral, salvo dos próprios.
Nós, a gente, podemos, então, dedicar-nos, sem dúvidas de consciência, a actividades lúdicas e perfeitamente inúteis, que vão desde a prática artística à paciência Spyder.
Ajuda à busca da Felicidade.
Resta a esperança que os “populares” que acedem ao Fórum não sejam amostra legítima do nosso Bom Povo Lusitano.
Será?
ASP
Olhar ruminante de 7OUT
Tema :Inspecção sub-tapete
Gravação ultra-secreta ( nem existiu) de conversa em gabinete (também inexistente), com personagens de ficção (mas existentes). Extractos.
The Boss – Rapazes, está no papo!
1º Rapaz – Boa, doutor.
2º Rapaz – Mas.....mesmo tudo?
The Boss – Tudinho.
1ª ratazana – E nós? Chega?
The Boss – E sobra. Eu não me esqueço que tiveram papel fundamental.
(Coro de ratazanas com sons de satisfação)
2º Rapaz – Mas.... e os gajos não desconfiam?
The Boss – Desconfiam, desconfiam, mas não têm com que provar. Mesmo quando têm não o sabem usar. Viu-se.
1ª ratazana ( presumivelmente a chefe das ratazanas) – E o truque da baralhação com aquele esquema, hã? Os gajos ainda não perceberam sequer o que aconteceu! Até dá gosto de serem tão parvos.
1º rapaz –É, quanto mais impantes, mais idiotas.
2º rapaz – Salvo o Boss, claro. Fica-lhe a bem a pompa. Confirma a vocação de grande estadista.
Coro de rapazes e de ratazanas – Do maior estadista desde Salazar.
The Boss – Bom, bom. Vamos festejar. Champagne! Gruyére! ASP
Tema :Inspecção sub-tapete
Gravação ultra-secreta ( nem existiu) de conversa em gabinete (também inexistente), com personagens de ficção (mas existentes). Extractos.
The Boss – Rapazes, está no papo!
1º Rapaz – Boa, doutor.
2º Rapaz – Mas.....mesmo tudo?
The Boss – Tudinho.
1ª ratazana – E nós? Chega?
The Boss – E sobra. Eu não me esqueço que tiveram papel fundamental.
(Coro de ratazanas com sons de satisfação)
2º Rapaz – Mas.... e os gajos não desconfiam?
The Boss – Desconfiam, desconfiam, mas não têm com que provar. Mesmo quando têm não o sabem usar. Viu-se.
1ª ratazana ( presumivelmente a chefe das ratazanas) – E o truque da baralhação com aquele esquema, hã? Os gajos ainda não perceberam sequer o que aconteceu! Até dá gosto de serem tão parvos.
1º rapaz –É, quanto mais impantes, mais idiotas.
2º rapaz – Salvo o Boss, claro. Fica-lhe a bem a pompa. Confirma a vocação de grande estadista.
Coro de rapazes e de ratazanas – Do maior estadista desde Salazar.
The Boss – Bom, bom. Vamos festejar. Champagne! Gruyére! ASP
LONGE, MUITO LONGE, NUM MÊS DE OUTUBRO
Lembras-te daquela noite em que a chuva começou a cair com tanta força que quase fomos capazes de acreditar que chovia como até então nunca tinha chovido?
Lembras-te das noites?
Lembras-te de ti e de mim?
Às vezes lembro-me de tanta coisa ao mesmo tempo que o mais difícil já nem é lembrar mas apenas esquecer.
Agora estou longe, muito longe.
Sempre em redor daquele lugar mágico que descobri um dia perdido entre palmeiras e onde, quando a tarde cai e os pescadores puxam as redes de volta para a praia, as águias e os gaviões vêm à procura de peixe na rebentação das ondas. Mas, depois, há aquela inquietação que tu conheces,
ainda te lembras?,
e fujo, fujo sempre, como se não existissem amanhãs e o mundo fosse composto todo por ontens que não voltam mais.
Fujo. Fujo de mim, claro!, para onde pouco importa. Fujo desta vez para oriente e para sul. Fujo sempre para oriente e é a sul que fica a tristeza, esse lugar exacto onde deve ficar, se calhar, a minha morada definitiva.
Percorro lugares impossíveis, pessoas de risos largos e olhos estreitos.
Percorro estradas que fervem de calor, durmo em buracos escuros, como com camponeses na beira das estradas, encho os olhos com as cores infinitas de mil pássaros fechados em gaiolas.
Estendo-me na areia de praias que fervem de andorinhas e papagaios de papel, sobrevôo montanhas que fumegam, sinto a febre dos templos escondidos nas florestas e da voracidade dos mosquitos.
Escuto as noites e os gritos de animais desconhecidos, os silvos das osgas na sua ascensão de paredes, vislumbro os gestos de papel dos morcegos que se desprendem das árvores largas.
Vivo uma vida que passa o tempo guardada no baú velho das esperas.
E se os dias fossem apenas isto?
Andar, andar sempre, o espaço aberto, os caminhos convidativos, o sol ao longe, brilhando sobre as distâncias.
E se eu fosse apenas isto?
Lembras-te da chuva batendo com força na vidraça?
Há dias, aqui, não mais atrás, foi assim que choveu. Água em cordas como manda a profecia dos duendes. Eu estava em Prambanan, em Java, fechado num vão de escadas, simplesmente a olhar o céu, uma menina surgiu, pergunto-me de onde vinha e, como na história do Príncipezinho, pediu-me, não que desenhasse um carneiro, mas que escrevesse palavras com letras de outras terras. Escrevi. Na capa de um caderno amarrotado, escrevi versos antigos
Eu vi-te chegar e eras o Tempo
E a translacção eterna dos planetas
Eras da ternura o curto exemplo
E um ténue esvoaçar de borboletas,
e li-os alto e ouvi-a rir-se como se não houvesse neles uma ponta de tristeza. Talvez tenha tropeçado de ternura. Às vezes acontece-me, como sabes,
ainda sabes?,
tu, sempre tu, tantas vezes tu que não sei se és tu se sou eu por ti.
Como se fala com alguém que nos não entende?
Talvez com as mãos, talvez com os olhos, talvez com o silêncio.
Caminhou quilómetros a meu lado, repetindo palavras guardadas na capa velha do seu caderno, saltitando nas poças de água, sorrindo muito, eu meio tímido, meio envergonhado de voltar a ser menino outra vez, eu que queria aprender a esquecer-me do que fui,
e tu, esqueceste-te?
Vou para sul. É a sul que fica a tristeza, é a sul que fico eu.
Gostava de poder não voltar mas não posso.
Queria parar de escrever mas não consigo.
Vou para sul, cada vez mais para sul.
Mesmo aqui fechado, neste minuto preciso, num quarto sujo que cheira a suores arrefecidos e tem grades nas janelas, continuo essa caminhada sem retorno. Como se caminhasse sem descanso em direcção àquele lugar onde se esconde o sossego que não existe.
A ventoinha corta o ar espesso de calor, mói a madrugada com o seu ruído repetitivo como a vida. Um marulhar vizinho de folhas de palmeiras, um rugido ligeiro de mar e de pedras que se enrolam umas nas outras em carícias moles de gatos negros. Uma solidão enorme que faz bem e um silêncio que fica por detrás dos ruídos da noite à espera de qualquer coisa que já não há. Um sorriso, um olhar magoado, um adeus,
lembra-te, por favor!,
longe, muito longe, num Outubro sem frios.
Talvez volte a chover amanhã. Um caderno velho com poemas na capa que nada significam, a relva molhada, os pássaros escondidos, as pessoas também. Alguém dá um grito à distância e ele faz eco num céu onde as estrelas são diferentes daquelas que aprendemos a contar.
Terei sido eu? AM
Lembras-te daquela noite em que a chuva começou a cair com tanta força que quase fomos capazes de acreditar que chovia como até então nunca tinha chovido?
Lembras-te das noites?
Lembras-te de ti e de mim?
Às vezes lembro-me de tanta coisa ao mesmo tempo que o mais difícil já nem é lembrar mas apenas esquecer.
Agora estou longe, muito longe.
Sempre em redor daquele lugar mágico que descobri um dia perdido entre palmeiras e onde, quando a tarde cai e os pescadores puxam as redes de volta para a praia, as águias e os gaviões vêm à procura de peixe na rebentação das ondas. Mas, depois, há aquela inquietação que tu conheces,
ainda te lembras?,
e fujo, fujo sempre, como se não existissem amanhãs e o mundo fosse composto todo por ontens que não voltam mais.
Fujo. Fujo de mim, claro!, para onde pouco importa. Fujo desta vez para oriente e para sul. Fujo sempre para oriente e é a sul que fica a tristeza, esse lugar exacto onde deve ficar, se calhar, a minha morada definitiva.
Percorro lugares impossíveis, pessoas de risos largos e olhos estreitos.
Percorro estradas que fervem de calor, durmo em buracos escuros, como com camponeses na beira das estradas, encho os olhos com as cores infinitas de mil pássaros fechados em gaiolas.
Estendo-me na areia de praias que fervem de andorinhas e papagaios de papel, sobrevôo montanhas que fumegam, sinto a febre dos templos escondidos nas florestas e da voracidade dos mosquitos.
Escuto as noites e os gritos de animais desconhecidos, os silvos das osgas na sua ascensão de paredes, vislumbro os gestos de papel dos morcegos que se desprendem das árvores largas.
Vivo uma vida que passa o tempo guardada no baú velho das esperas.
E se os dias fossem apenas isto?
Andar, andar sempre, o espaço aberto, os caminhos convidativos, o sol ao longe, brilhando sobre as distâncias.
E se eu fosse apenas isto?
Lembras-te da chuva batendo com força na vidraça?
Há dias, aqui, não mais atrás, foi assim que choveu. Água em cordas como manda a profecia dos duendes. Eu estava em Prambanan, em Java, fechado num vão de escadas, simplesmente a olhar o céu, uma menina surgiu, pergunto-me de onde vinha e, como na história do Príncipezinho, pediu-me, não que desenhasse um carneiro, mas que escrevesse palavras com letras de outras terras. Escrevi. Na capa de um caderno amarrotado, escrevi versos antigos
Eu vi-te chegar e eras o Tempo
E a translacção eterna dos planetas
Eras da ternura o curto exemplo
E um ténue esvoaçar de borboletas,
e li-os alto e ouvi-a rir-se como se não houvesse neles uma ponta de tristeza. Talvez tenha tropeçado de ternura. Às vezes acontece-me, como sabes,
ainda sabes?,
tu, sempre tu, tantas vezes tu que não sei se és tu se sou eu por ti.
Como se fala com alguém que nos não entende?
Talvez com as mãos, talvez com os olhos, talvez com o silêncio.
Caminhou quilómetros a meu lado, repetindo palavras guardadas na capa velha do seu caderno, saltitando nas poças de água, sorrindo muito, eu meio tímido, meio envergonhado de voltar a ser menino outra vez, eu que queria aprender a esquecer-me do que fui,
e tu, esqueceste-te?
Vou para sul. É a sul que fica a tristeza, é a sul que fico eu.
Gostava de poder não voltar mas não posso.
Queria parar de escrever mas não consigo.
Vou para sul, cada vez mais para sul.
Mesmo aqui fechado, neste minuto preciso, num quarto sujo que cheira a suores arrefecidos e tem grades nas janelas, continuo essa caminhada sem retorno. Como se caminhasse sem descanso em direcção àquele lugar onde se esconde o sossego que não existe.
A ventoinha corta o ar espesso de calor, mói a madrugada com o seu ruído repetitivo como a vida. Um marulhar vizinho de folhas de palmeiras, um rugido ligeiro de mar e de pedras que se enrolam umas nas outras em carícias moles de gatos negros. Uma solidão enorme que faz bem e um silêncio que fica por detrás dos ruídos da noite à espera de qualquer coisa que já não há. Um sorriso, um olhar magoado, um adeus,
lembra-te, por favor!,
longe, muito longe, num Outubro sem frios.
Talvez volte a chover amanhã. Um caderno velho com poemas na capa que nada significam, a relva molhada, os pássaros escondidos, as pessoas também. Alguém dá um grito à distância e ele faz eco num céu onde as estrelas são diferentes daquelas que aprendemos a contar.
Terei sido eu? AM
Terça-feira, Outubro 07, 2003
COM AS MÃOS CHEIAS DE MENINOS
Queria descrever mas não consigo.
Queria descrever a entrega de uns olhos enormes, negros, rasgados como se fossem os próprios horizontes a desenhá-los.
Queria descrever o sorriso tímido e o gesto de uma mão estendida para a minha na confiança total da sua dádiva.
Queria descrevê-los mas a verdade dolorosa é que as palavras não me servem para nada.
Um grupo de homens banha-se nas águas quase paradas do Bani; figuras negras despidas; os vultos dos barcos grandes encostados no porto de Mopti à espera de se lançarem na corrente e no seu destino de Timbuktu; as silhuetas finas das pirogas que deslizam quase como sombras; o sol ao fundo, cada vez mais frágil, apagando-se a pouco e pouco, não em tons laranjas e vermelhos mas simplesmente branco pelo meio da nuvem branca da poeira do deserto que paira ligeiramente acima da cidade e dos arrozais que cercam a cidade.
A gente atravessava o rio devagar; o rapaz dependurado na popa da piroga movimentava o remo com uma lentidão preguiçosa de finais de tarde; o muezzin de uma mesquita não muito distante chamava para a oração do sol que se põe com a ajuda de um microfone que lhe tornava o canto fanhoso; os gaviões traçavam círculos nas alturas numa espera de vislumbres de peixes; gente de roupas coloridas retomava o caminho de casa no fecho do mercado; um cheiro a comida insinuava-se por entre a confusão dos cheiros misturados.
Víamos os homens debruçados na oração, volta e meia erguendo as costas para voltarem a tocar o chão com a cara e as palmas das mãos; víamos aldeias quase vazias na sua solidão de casas de barro cinzento; víamos a curva em que o Bani se juntava com o Níger numa turbulência suave de remoinhos; víamos ao longe a massa anquilosada dos embondeiros; víamos as mulheres cozinhando sobre os barcos em fogueiras improvisadas num ninho de tijolos...
As crianças soltavam-se do fim da tarde como pássaros, distraíam-se das funções próprias dos adultos, puxavam garrafas de plástico com cordas como se fossem animais de estimação ou miniaturas de automóveis, riam-se das nossas figuras ocidentais empoeiradas saltando de uma canoa encaixada na lama das margens.
Queria descrever os olhos: enormes, negros, confiantes, talvez também interrogativos. Dezenas de olhos enormes, negros, confiantes, talvez também interrogativos.
Queria descrever os sorrisos abertos, divertidos, multiplicados.
Queria descrever e não consigo as mãos que se estendem para as minhas, as mãos pequenas que procuram os meus dedos, as mãos minúsculas que se agarram ao tecido das minhas calças. Corpos minúsculos de barrigas grandes dos excessos de farinhas, os umbigos proeminentes, os braços finos, as pernas ossudas.
Queria descrever a nuvem de crianças que me segue enquanto caminho pelas ruas desacertadas da aldeia que parece abandonada; os homens que rezam em vénias continuadas dirigidas para Meca; as mulheres debruçadas também elas mas sobre fogueiras pequenas onde as panelas desprendem cheiros quentes de comida.
Queria descrever o desenho da cidade de Mopti do outro lado do Bani, a cor impossível das suas casas, a forma estranha da sua mesquita de barro, o frenesi do seu porto que se dilui pela noite, por dentro da mais profunda escuridão; aqui e além uma lamparina iluminando corpos adormecidos; aqui e além vozes iniciando uma discussão que logo morre; aqui e além um choro infantil que se desprende dos molhos de roupa estendidos no pavimento.
Queria descrever a brancura impressionante do sol cada vez mais baixo do horizonte, sem brilho, apenas baço da poeira que paira ligeiramente acima da terra; o ziguezague de um Peugeot velho que abre sulcos por entre o tojo amarelecido no qual não há caminhos nem carreiros; o ruído dos remos na água lisa quando o silêncio cai lá do alto onde vive e cobre o derredor como se cobrisse toda a África; a paciência do pescador que remenda lentamente as suas redes.
As crianças em meu redor fazem-me perguntas que não entendo e que ficam sem resposta.
Queria descrever os pontos de interrogação que vejo desenharem-se nos seus olhos enormes, negros, brilhantes.
Queria descrever a forma como as suas mãos me procuram, confiantes e disponíveis.
Queria descrever os seus sorrisos alegres, os seus saltitares felizes, a sua vozearia incontida. Queria descrever a sensação das suas mãos pequenas nos meus dedos, dedos a menos para tantas mãos; queria descrever a procissão que segue atrás de nós para além da aldeia das casas de barro cinzento, ao longo das margens do Bani; as vacas mergulhadas na água até aos joelhos; um jumento ao largo abanando as orelhas; o céu escurecendo da ausência do sol branco que se escondeu já para ocidente.
Queria descrever a menina de tranças que espreita por cima de um muro, curiosa deste movimento inusitado, a mão levantada no comprimento do braço em adeus, acenando muito, acenando sempre, também ela com um sorriso alegre e olhos enormes, negros e brilhantes.
Queria acenar-lhe também, responder ao seu gesto carinhoso. Mas não posso: trago as mãos cheias de meninos. A M
Queria descrever mas não consigo.
Queria descrever a entrega de uns olhos enormes, negros, rasgados como se fossem os próprios horizontes a desenhá-los.
Queria descrever o sorriso tímido e o gesto de uma mão estendida para a minha na confiança total da sua dádiva.
Queria descrevê-los mas a verdade dolorosa é que as palavras não me servem para nada.
Um grupo de homens banha-se nas águas quase paradas do Bani; figuras negras despidas; os vultos dos barcos grandes encostados no porto de Mopti à espera de se lançarem na corrente e no seu destino de Timbuktu; as silhuetas finas das pirogas que deslizam quase como sombras; o sol ao fundo, cada vez mais frágil, apagando-se a pouco e pouco, não em tons laranjas e vermelhos mas simplesmente branco pelo meio da nuvem branca da poeira do deserto que paira ligeiramente acima da cidade e dos arrozais que cercam a cidade.
A gente atravessava o rio devagar; o rapaz dependurado na popa da piroga movimentava o remo com uma lentidão preguiçosa de finais de tarde; o muezzin de uma mesquita não muito distante chamava para a oração do sol que se põe com a ajuda de um microfone que lhe tornava o canto fanhoso; os gaviões traçavam círculos nas alturas numa espera de vislumbres de peixes; gente de roupas coloridas retomava o caminho de casa no fecho do mercado; um cheiro a comida insinuava-se por entre a confusão dos cheiros misturados.
Víamos os homens debruçados na oração, volta e meia erguendo as costas para voltarem a tocar o chão com a cara e as palmas das mãos; víamos aldeias quase vazias na sua solidão de casas de barro cinzento; víamos a curva em que o Bani se juntava com o Níger numa turbulência suave de remoinhos; víamos ao longe a massa anquilosada dos embondeiros; víamos as mulheres cozinhando sobre os barcos em fogueiras improvisadas num ninho de tijolos...
As crianças soltavam-se do fim da tarde como pássaros, distraíam-se das funções próprias dos adultos, puxavam garrafas de plástico com cordas como se fossem animais de estimação ou miniaturas de automóveis, riam-se das nossas figuras ocidentais empoeiradas saltando de uma canoa encaixada na lama das margens.
Queria descrever os olhos: enormes, negros, confiantes, talvez também interrogativos. Dezenas de olhos enormes, negros, confiantes, talvez também interrogativos.
Queria descrever os sorrisos abertos, divertidos, multiplicados.
Queria descrever e não consigo as mãos que se estendem para as minhas, as mãos pequenas que procuram os meus dedos, as mãos minúsculas que se agarram ao tecido das minhas calças. Corpos minúsculos de barrigas grandes dos excessos de farinhas, os umbigos proeminentes, os braços finos, as pernas ossudas.
Queria descrever a nuvem de crianças que me segue enquanto caminho pelas ruas desacertadas da aldeia que parece abandonada; os homens que rezam em vénias continuadas dirigidas para Meca; as mulheres debruçadas também elas mas sobre fogueiras pequenas onde as panelas desprendem cheiros quentes de comida.
Queria descrever o desenho da cidade de Mopti do outro lado do Bani, a cor impossível das suas casas, a forma estranha da sua mesquita de barro, o frenesi do seu porto que se dilui pela noite, por dentro da mais profunda escuridão; aqui e além uma lamparina iluminando corpos adormecidos; aqui e além vozes iniciando uma discussão que logo morre; aqui e além um choro infantil que se desprende dos molhos de roupa estendidos no pavimento.
Queria descrever a brancura impressionante do sol cada vez mais baixo do horizonte, sem brilho, apenas baço da poeira que paira ligeiramente acima da terra; o ziguezague de um Peugeot velho que abre sulcos por entre o tojo amarelecido no qual não há caminhos nem carreiros; o ruído dos remos na água lisa quando o silêncio cai lá do alto onde vive e cobre o derredor como se cobrisse toda a África; a paciência do pescador que remenda lentamente as suas redes.
As crianças em meu redor fazem-me perguntas que não entendo e que ficam sem resposta.
Queria descrever os pontos de interrogação que vejo desenharem-se nos seus olhos enormes, negros, brilhantes.
Queria descrever a forma como as suas mãos me procuram, confiantes e disponíveis.
Queria descrever os seus sorrisos alegres, os seus saltitares felizes, a sua vozearia incontida. Queria descrever a sensação das suas mãos pequenas nos meus dedos, dedos a menos para tantas mãos; queria descrever a procissão que segue atrás de nós para além da aldeia das casas de barro cinzento, ao longo das margens do Bani; as vacas mergulhadas na água até aos joelhos; um jumento ao largo abanando as orelhas; o céu escurecendo da ausência do sol branco que se escondeu já para ocidente.
Queria descrever a menina de tranças que espreita por cima de um muro, curiosa deste movimento inusitado, a mão levantada no comprimento do braço em adeus, acenando muito, acenando sempre, também ela com um sorriso alegre e olhos enormes, negros e brilhantes.
Queria acenar-lhe também, responder ao seu gesto carinhoso. Mas não posso: trago as mãos cheias de meninos. A M
Olhar ruminante de 6OUT
Da auto-demissão convidada do ministro, à nomeação secreta da sua substituta ou As massas (estudantis) que não querem pagar as massas (das propinas)
Peça surrealista de mistério em 5 curtos actos
Preâmbulo
Era uma vez um ministro que estava a procurar fazer o seu papel ou pelo menos o que ele pensava ser o seu papel : reformas, num quadro sustentável de gestão corrente.
Se eram boas ou más ninguém se parecia preocupar.
Deveriam ser boas, para ter uma tão generalizada oposição.
Act.1
O ministro, no meio da papelada do despacho corrente, fez um favor a um colega, abrindo uma fileira de excepções, a começar no caso, para já singular, da filha do dito cujo.
Um gesto , à luz dos brandos costumes que constituem a cultura nacional, até simpático. Um gesto bem cultural, mas pouco científico.
E ele era ministro da Ciência.
Indesculpável.
Gesto também com configuração de “cunha” ou, como se dizia antigamente, “empenho”.
Act.2.
Atitude que os rigoristas formais de todas as oposições (e o Portugal de hoje é apenas constituído por oposições mútuas), após rasgarem as vestes e bramarem o “Blafesmou” da praxe, se entretiveram a glosar como sendo um pecado inaceitável num Estado de Direito.
Talvez abusando da referência bíblica, a palhinha no olho do outro, sem dar pelas pilhas de argueiros que nos rodeiam por todos os lados.
Argueiros do futuro ex-ministro Portas e de vários ex-ministros; e de tantos deputados da nação, tantos autarcas, tantos juízes inimputáveis e responsáveis irresponsáveis.
É quase uma ternura de índole social a forma com que a opinião pública lida com estes factos.
Act.3.
O ministro demitiu-se, calando a turba multa.
Segundo a Fórmula 1 adoptada presentemente pelo 1º Ministro, para resolver casos que ameacem inchar.
Livrou-se também de ter que resolver, a mal seguramente, a turbulência juvenil dos universitários, que, como portugueses que são, querem eximir-se a pagar propinas, ou seja o que for.
Act.4
Porque não se diga que Portugal é, presentemente, um país sem princípios.
Veja-se o omnipresente princípio do utilizador-pagador, que permeia todos os sectores e actividades.
E nesse princípio deverão ser os estudantes a pagar o diferencial que as contas do estado em que isto está apresentam como necessário para suprir aquilo que o OGE pretende “poupar”.
Os estudantes são aventureiros e românticos e não têm, evidentemente, pachorra para este tipo de argumentação.
Depois, é sabido que há universitários pobres e que, para os que o não são, é preferível por o Estado a pagar a sua educação, porque dificilmente ele subsidiará as surtidas nocturnas pelos bares de Alcântara.
Act. 5
A estória entra então na sua fase mais empolgante, ou seja, da adivinhação de quem será o substituto ministerial.
O Governo, mais uma vez, demonstrou a sua rapidez nas decisões.
No dia seguinte vinha nos media, com fotografia e CV, o Prof. Valadares Tavares, com encómios q.b. quanto à bondade e justeza da nomeação.
Talvez por isso – os governos gostam de fazer surpresas, quando não partidas, aos cidadãos – no domingo, a TVI e a SIC anunciam que será uma senhora, adjunta do ex-ministro, a ser nomeada, o que permite o inefável professor Marcelo gabar a escolha e tecer considerações simpáticas sobre as mulheres em geral e aquela em particular.
Sabe-se hoje, afinal, que a dita senhora nem havia sequer sido consultada, muito menos convidada e que soubera da sua nomeação pelos noticiários da televisão.
Epílogo
Baralhação, baralhação.
ASP
Da auto-demissão convidada do ministro, à nomeação secreta da sua substituta ou As massas (estudantis) que não querem pagar as massas (das propinas)
Peça surrealista de mistério em 5 curtos actos
Preâmbulo
Era uma vez um ministro que estava a procurar fazer o seu papel ou pelo menos o que ele pensava ser o seu papel : reformas, num quadro sustentável de gestão corrente.
Se eram boas ou más ninguém se parecia preocupar.
Deveriam ser boas, para ter uma tão generalizada oposição.
Act.1
O ministro, no meio da papelada do despacho corrente, fez um favor a um colega, abrindo uma fileira de excepções, a começar no caso, para já singular, da filha do dito cujo.
Um gesto , à luz dos brandos costumes que constituem a cultura nacional, até simpático. Um gesto bem cultural, mas pouco científico.
E ele era ministro da Ciência.
Indesculpável.
Gesto também com configuração de “cunha” ou, como se dizia antigamente, “empenho”.
Act.2.
Atitude que os rigoristas formais de todas as oposições (e o Portugal de hoje é apenas constituído por oposições mútuas), após rasgarem as vestes e bramarem o “Blafesmou” da praxe, se entretiveram a glosar como sendo um pecado inaceitável num Estado de Direito.
Talvez abusando da referência bíblica, a palhinha no olho do outro, sem dar pelas pilhas de argueiros que nos rodeiam por todos os lados.
Argueiros do futuro ex-ministro Portas e de vários ex-ministros; e de tantos deputados da nação, tantos autarcas, tantos juízes inimputáveis e responsáveis irresponsáveis.
É quase uma ternura de índole social a forma com que a opinião pública lida com estes factos.
Act.3.
O ministro demitiu-se, calando a turba multa.
Segundo a Fórmula 1 adoptada presentemente pelo 1º Ministro, para resolver casos que ameacem inchar.
Livrou-se também de ter que resolver, a mal seguramente, a turbulência juvenil dos universitários, que, como portugueses que são, querem eximir-se a pagar propinas, ou seja o que for.
Act.4
Porque não se diga que Portugal é, presentemente, um país sem princípios.
Veja-se o omnipresente princípio do utilizador-pagador, que permeia todos os sectores e actividades.
E nesse princípio deverão ser os estudantes a pagar o diferencial que as contas do estado em que isto está apresentam como necessário para suprir aquilo que o OGE pretende “poupar”.
Os estudantes são aventureiros e românticos e não têm, evidentemente, pachorra para este tipo de argumentação.
Depois, é sabido que há universitários pobres e que, para os que o não são, é preferível por o Estado a pagar a sua educação, porque dificilmente ele subsidiará as surtidas nocturnas pelos bares de Alcântara.
Act. 5
A estória entra então na sua fase mais empolgante, ou seja, da adivinhação de quem será o substituto ministerial.
O Governo, mais uma vez, demonstrou a sua rapidez nas decisões.
No dia seguinte vinha nos media, com fotografia e CV, o Prof. Valadares Tavares, com encómios q.b. quanto à bondade e justeza da nomeação.
Talvez por isso – os governos gostam de fazer surpresas, quando não partidas, aos cidadãos – no domingo, a TVI e a SIC anunciam que será uma senhora, adjunta do ex-ministro, a ser nomeada, o que permite o inefável professor Marcelo gabar a escolha e tecer considerações simpáticas sobre as mulheres em geral e aquela em particular.
Sabe-se hoje, afinal, que a dita senhora nem havia sequer sido consultada, muito menos convidada e que soubera da sua nomeação pelos noticiários da televisão.
Epílogo
Baralhação, baralhação.
ASP
Segunda-feira, Outubro 06, 2003
UM MEDO ANTIGO DA MENINA DO COPPERTONE
O comboio desliza paralelo ao mar, um azul profundo entra-me pelos olhos em forma de ondas, o ruído do metal e o cheiro da ferrugem marca o ritmo das viagens. Lembro-me do que valia nesse Verão um cromo do Jairzinho, acho que era por não me atrever a querer ser o Pelé nos jogos de rua que escolhia ser sempre o Jairzinho, acho que era por ninguém se atrever a querer ser o Pelé nos jogos de rua que os nossos jogos de rua estavam cheios de Rivelinos e Tostões e Clodoaldos
(Jairzinho só havia um! Era eu!)
e nem um Pelé para amostra.
Mas nesse Verão o Pelé não entrava nos cromos, por isso não contava.
O Jairzinho entrava e era difícil como só me lembro de ter sido mais tarde o Nicolau da Académica e, antes dele, o Caló do União de Tomar.
A menina do anúncio do Coppertone também não entrava nos jogos de rua e eu também gostava muito da menina do anúncio da Coppertone: o cãozinho preto puxando o fato de banho, um bocadinho do rabo a ver-se-lhe branco na pele torrada, o seu ar espantado, as sardas nas bochechas. Nesse tempo eu era muito sensível a sardas nas bochechas.
Disseram-me mais tarde, muito mais tarde, ou li num lado qualquer, que a menina da Coppertone era a Jodie Foster. Não sei se é verdade ou não. Para mim há-de ser sempre a menina da Coppertone e, ao fundo, como num cenário de cinema antigo, passa a senhora dos bolos com uma caixa vermelha na cabeça, fazemos um intervalo no jogo das caricas correndo como automóveis nas pistas desenhadas na areia à força de piparotes, o cheiro doce das bolas de Berlim e das almofadas e dos jesuítas faz-me fome para depois do banho, o mar azul pelo corpo dentro na baía de Cascais, a minha mãe besuntando-me as costas de creme sem que eu conseguisse fugir a tempo.
O creme devia ser Coppertone, era como se a minha mãe me besuntasse com um bocado peganhento da Jodie Foster, as coisas que a gente fazia por um rim de chocolate quentinho, por um livro do Sandokan, o Tigre da Malásia, da Romano Torres a oito escudos, por um pacote de cromos do Mundial de 74, saía o Sparwasser da Alemanha Oriental, saía o Bonev da Bulgária, o Grabowski da Alemanha Ocidental, o Rep da Holanda, mas nada do Jairzinho que tinha deixado crescer o cabelo em forma de bola à volta da cabeça e já não era nada como o Jairzinho do Mundial de 70, já não era nada como o verdadeiro Jairzinho. A gente sabia de cor uma canção que ia assim:
Do meio do gramado
Vem a bola p’rá Tostão
Tostão p’rá Rivelino
Está formada a contorção
Rivelino p’rá Pelé
Olha aí olhó negão
Olélé, olálá, ‘tão botando p’rá quebra’,
embora não soubéssemos nem de cor nem de maneira alguma o que era o diabo da contorção, e eu preocupava-se com a possibilidade, na altura bem menos académica do que agora se possa pensar, de um dia a menina da Coppertone se chegar ao pé de mim e me perguntar com o descaramento próprio de quem tem sardas nas bochechas:
- Ouve lá, o que é a contorção?,
e eu atrapalhado, a fastar o cãozinho preto antes que ele me puxasse também os calções e me deixasse um bocadinho do rabo à mostra para que a malta da corrida das caricas gozasse à brava, incapaz de lhe dar uma resposta com sentido.
A minha avó e as minhas tias tomavam chá na esplanada do Hotel Albatroz, um barco passava ao longe absolutamente decidido a contornar o Bugio, o sol batia-me na cabeça e derretia o gelado de morango e pêssego da Santini, o Sandokan desembainhava a cimitarra numa das florestas do Bornéu infestada de piratas e panteras, não havia ninguém à vista com ar de que estivesse disposto a trocar o Rivera da Itália
(cheguei a ter sete Riveras!)
pelo Peter Lorimer da Escócia, ou o Lato da Polónia
(cheguei a ter nove Latos!)
pelo raio do cabeça de bola do Jairzinho que andava há um ror de dias a fazer-me negaças com o seu rectângulo em branco na caderneta, não havia mesmo ninguém à vista às duas horas da tarde na praia dos pescadores, talvez um casal de ingleses velhinhos atravessando a rua lá para os lados da lota, talvez uma menina caminhando devagar pela areia.
Eu ficava com medo que ela viesse na minha direcção, ficava com medo que por debaixo do chapéu branco estivessem as bochechas sardentas da Jodie Foster
(nesse tempo eu sabia lá quem era a Jodie Foster; nesse tempo havia lá alguém que soubesse quem era a Jodie Foster...),
ficava com medo que ela chegasse ao pé de mim com o cãozinho preto a saltitar-lhe nos calcanhares e me fizesse aquela pergunta terrível e embaraçosa:
- Ouve lá, o que é a contorção?
Imaginava-me corado, mudo, arregalando os olhos para ela sem saber o que responder-lhe, perdido no travesso encantamento das suas sardas, perdido no meu embaraço pateta, perdido no azul inquieto em forma de ondas, os olhos azuis da minha avó e das minhas tias espetados nas minhas costas, afiados como a cimitarra do Sandokan, o Tigre da Malásia, e eu incapaz de falar o que quer que fosse, incapaz de deixar de esbugalhar os olhos, incapaz de impedir que a boca se me abrisse de espanto, incapaz de soltar a minha vontade guardada lá no fundo de lhe dizer:
- Gosto de ti! AM
O comboio desliza paralelo ao mar, um azul profundo entra-me pelos olhos em forma de ondas, o ruído do metal e o cheiro da ferrugem marca o ritmo das viagens. Lembro-me do que valia nesse Verão um cromo do Jairzinho, acho que era por não me atrever a querer ser o Pelé nos jogos de rua que escolhia ser sempre o Jairzinho, acho que era por ninguém se atrever a querer ser o Pelé nos jogos de rua que os nossos jogos de rua estavam cheios de Rivelinos e Tostões e Clodoaldos
(Jairzinho só havia um! Era eu!)
e nem um Pelé para amostra.
Mas nesse Verão o Pelé não entrava nos cromos, por isso não contava.
O Jairzinho entrava e era difícil como só me lembro de ter sido mais tarde o Nicolau da Académica e, antes dele, o Caló do União de Tomar.
A menina do anúncio do Coppertone também não entrava nos jogos de rua e eu também gostava muito da menina do anúncio da Coppertone: o cãozinho preto puxando o fato de banho, um bocadinho do rabo a ver-se-lhe branco na pele torrada, o seu ar espantado, as sardas nas bochechas. Nesse tempo eu era muito sensível a sardas nas bochechas.
Disseram-me mais tarde, muito mais tarde, ou li num lado qualquer, que a menina da Coppertone era a Jodie Foster. Não sei se é verdade ou não. Para mim há-de ser sempre a menina da Coppertone e, ao fundo, como num cenário de cinema antigo, passa a senhora dos bolos com uma caixa vermelha na cabeça, fazemos um intervalo no jogo das caricas correndo como automóveis nas pistas desenhadas na areia à força de piparotes, o cheiro doce das bolas de Berlim e das almofadas e dos jesuítas faz-me fome para depois do banho, o mar azul pelo corpo dentro na baía de Cascais, a minha mãe besuntando-me as costas de creme sem que eu conseguisse fugir a tempo.
O creme devia ser Coppertone, era como se a minha mãe me besuntasse com um bocado peganhento da Jodie Foster, as coisas que a gente fazia por um rim de chocolate quentinho, por um livro do Sandokan, o Tigre da Malásia, da Romano Torres a oito escudos, por um pacote de cromos do Mundial de 74, saía o Sparwasser da Alemanha Oriental, saía o Bonev da Bulgária, o Grabowski da Alemanha Ocidental, o Rep da Holanda, mas nada do Jairzinho que tinha deixado crescer o cabelo em forma de bola à volta da cabeça e já não era nada como o Jairzinho do Mundial de 70, já não era nada como o verdadeiro Jairzinho. A gente sabia de cor uma canção que ia assim:
Do meio do gramado
Vem a bola p’rá Tostão
Tostão p’rá Rivelino
Está formada a contorção
Rivelino p’rá Pelé
Olha aí olhó negão
Olélé, olálá, ‘tão botando p’rá quebra’,
embora não soubéssemos nem de cor nem de maneira alguma o que era o diabo da contorção, e eu preocupava-se com a possibilidade, na altura bem menos académica do que agora se possa pensar, de um dia a menina da Coppertone se chegar ao pé de mim e me perguntar com o descaramento próprio de quem tem sardas nas bochechas:
- Ouve lá, o que é a contorção?,
e eu atrapalhado, a fastar o cãozinho preto antes que ele me puxasse também os calções e me deixasse um bocadinho do rabo à mostra para que a malta da corrida das caricas gozasse à brava, incapaz de lhe dar uma resposta com sentido.
A minha avó e as minhas tias tomavam chá na esplanada do Hotel Albatroz, um barco passava ao longe absolutamente decidido a contornar o Bugio, o sol batia-me na cabeça e derretia o gelado de morango e pêssego da Santini, o Sandokan desembainhava a cimitarra numa das florestas do Bornéu infestada de piratas e panteras, não havia ninguém à vista com ar de que estivesse disposto a trocar o Rivera da Itália
(cheguei a ter sete Riveras!)
pelo Peter Lorimer da Escócia, ou o Lato da Polónia
(cheguei a ter nove Latos!)
pelo raio do cabeça de bola do Jairzinho que andava há um ror de dias a fazer-me negaças com o seu rectângulo em branco na caderneta, não havia mesmo ninguém à vista às duas horas da tarde na praia dos pescadores, talvez um casal de ingleses velhinhos atravessando a rua lá para os lados da lota, talvez uma menina caminhando devagar pela areia.
Eu ficava com medo que ela viesse na minha direcção, ficava com medo que por debaixo do chapéu branco estivessem as bochechas sardentas da Jodie Foster
(nesse tempo eu sabia lá quem era a Jodie Foster; nesse tempo havia lá alguém que soubesse quem era a Jodie Foster...),
ficava com medo que ela chegasse ao pé de mim com o cãozinho preto a saltitar-lhe nos calcanhares e me fizesse aquela pergunta terrível e embaraçosa:
- Ouve lá, o que é a contorção?
Imaginava-me corado, mudo, arregalando os olhos para ela sem saber o que responder-lhe, perdido no travesso encantamento das suas sardas, perdido no meu embaraço pateta, perdido no azul inquieto em forma de ondas, os olhos azuis da minha avó e das minhas tias espetados nas minhas costas, afiados como a cimitarra do Sandokan, o Tigre da Malásia, e eu incapaz de falar o que quer que fosse, incapaz de deixar de esbugalhar os olhos, incapaz de impedir que a boca se me abrisse de espanto, incapaz de soltar a minha vontade guardada lá no fundo de lhe dizer:
- Gosto de ti! AM
A minha India88 (final)
São Índias diferentes a tua e a minha, caro Afonso. Tu gostas da Índia das pessoas, do convívio, da cultura natural, da descoberta das outras formas de viver e justificar a vida.
Eu também já gostei. Mas, na altura e agora já não podia gostar dessa maneira. Estatuto, conforto, preguiça, responsabilidades, essas coisas. A lisura do seixo.
Salvo por vezes, felizmente.
Reconheço que a tua Índia é mais gira do que a minha.
Talvez porque tu também fazes parte dela, enquanto que eu nunca me lá meti.
Por medo, prudência, falta de apelo ou meramente cansaço. De rolar, rolar, rolar.
Nessas caminhadasm Índia, China, Toronto ou Patagónia, já não encontro diferenças. A paisagem é diferente? E daí? O clima é sui generis? E daí? Os monumentos são esplendorosos e antiquiíssimos? E daí? A comida é mais esquisita? E daí? O povo é afável, é rude, é agressivo, é fanático, é corrupto, é hedonista, é lúbrico, é seco, é miserável, é formidável? E daí? A vida é barata, as compras fantásticas? E daí?
Todo o sítio tem, em certo grau, todos esses atractivos ou repulsivos. Já tenho a minha conta de exotismo pago, de catedrais, de museus, de artesanato, de folclore, de gastronomias, de aldrabice, de aventura. A curiosidade satisfaço-a na TV ou no vídeo. A vida posso e devo vivê-la bem aqui e agora.
Daí que deixei de viajar para viajar.
Encontro mais estímulo num novo encontro, na descoberta de uma pessoa nova companheira, no prazer do convívio em amizade, do que na busca do até então desconhecido, da novidade cultural ou etnográfica, de ambientes ainda não vividos.
Uma das razões porque gostei da Índia, foi porque lá descobri um bom amigo. E um bom amigo faz uma boa ocasião, faz um local bom e uma boa viagem.
Gostei da Índia. ASP
São Índias diferentes a tua e a minha, caro Afonso. Tu gostas da Índia das pessoas, do convívio, da cultura natural, da descoberta das outras formas de viver e justificar a vida.
Eu também já gostei. Mas, na altura e agora já não podia gostar dessa maneira. Estatuto, conforto, preguiça, responsabilidades, essas coisas. A lisura do seixo.
Salvo por vezes, felizmente.
Reconheço que a tua Índia é mais gira do que a minha.
Talvez porque tu também fazes parte dela, enquanto que eu nunca me lá meti.
Por medo, prudência, falta de apelo ou meramente cansaço. De rolar, rolar, rolar.
Nessas caminhadasm Índia, China, Toronto ou Patagónia, já não encontro diferenças. A paisagem é diferente? E daí? O clima é sui generis? E daí? Os monumentos são esplendorosos e antiquiíssimos? E daí? A comida é mais esquisita? E daí? O povo é afável, é rude, é agressivo, é fanático, é corrupto, é hedonista, é lúbrico, é seco, é miserável, é formidável? E daí? A vida é barata, as compras fantásticas? E daí?
Todo o sítio tem, em certo grau, todos esses atractivos ou repulsivos. Já tenho a minha conta de exotismo pago, de catedrais, de museus, de artesanato, de folclore, de gastronomias, de aldrabice, de aventura. A curiosidade satisfaço-a na TV ou no vídeo. A vida posso e devo vivê-la bem aqui e agora.
Daí que deixei de viajar para viajar.
Encontro mais estímulo num novo encontro, na descoberta de uma pessoa nova companheira, no prazer do convívio em amizade, do que na busca do até então desconhecido, da novidade cultural ou etnográfica, de ambientes ainda não vividos.
Uma das razões porque gostei da Índia, foi porque lá descobri um bom amigo. E um bom amigo faz uma boa ocasião, faz um local bom e uma boa viagem.
Gostei da Índia. ASP
Sexta-feira, Outubro 03, 2003
O sono dogmático
Acho que foi Kant que empregou a expressão “astúcia da razão”. Na análise do processo do conhecimento, em que se manifesta a sua enorme capacidade descritiva, Kant deu-nos a arquitectura global; e isso sem prova de laboratório, informações sobre a química do cérebro, cartografia cerebral e outros meios modernos. É com efeito inacreditável o poder do filósofo na captação dos fenómenos, apenas com o recurso ao seu pensamento, aliado a uma terminologia nem sequer muito obscura, pelo menos vai-se percebendo o que está a ser designado. Por outro lado, a descoberta do empirismo anglo-saxónico acordou-o, como o próprio disse, do sono dogmático. Kant não vai ser mais um cego racionalista. Isso levou-o a superar o raciocínio assente apenas num dos lados do conhecimento, o do sujeito. No entanto esbarra em obstáculos à coerência, que o próprio resolve com a introdução de esquemas adicionais devidamente analisados e explicados, para melhor se compreender o processo.
Na sua completa crítica, o sábio contorna efectivamente as dificuldades no raciocínio analítico, como foi o caso da introdução do comentário sobre a astúcia da razão Acho que se entende que ela existe e talvez outros menos sábios percepcionem no dia a dia que há gente que não se deixa enganar, não é levada por convicções pessoais exorbitantes, é dotada de senso e distingue onde está o real, onde está a verdade ou a mentira, o que são os outros. Muitas vezes isso é feito no ar, ou seja, não deriva da pura inteligência, não deriva da pura razão nem dos puros raciocínios, porque para tanto a razão precisa de astúcia.
Vem isto a propósito dos srs. drs. juizes que instauram processos inquisitórios, interrogam suspeitos com perguntas tontas e decretam na base do entendimento pessoal, o que eles acham. Este é o caso, que atinge contornos paranóicos, de um homem, de origens incertas, grosso e mal vestido, destituído de intuição, bruscamente assertivo, em vez de sensato na inquirição, uma espécie de fora da lei do Oeste, encartado de justiceiro pela corporação, quase brincando com a vida num grau de bestialidade chocante, sem respeito pela cidadania, esse, não faz mais do que demonstrar e ilustrar o que é O erro da razão. E sobretudo nunca mais acorda do sono dogmático. LACP
Acho que foi Kant que empregou a expressão “astúcia da razão”. Na análise do processo do conhecimento, em que se manifesta a sua enorme capacidade descritiva, Kant deu-nos a arquitectura global; e isso sem prova de laboratório, informações sobre a química do cérebro, cartografia cerebral e outros meios modernos. É com efeito inacreditável o poder do filósofo na captação dos fenómenos, apenas com o recurso ao seu pensamento, aliado a uma terminologia nem sequer muito obscura, pelo menos vai-se percebendo o que está a ser designado. Por outro lado, a descoberta do empirismo anglo-saxónico acordou-o, como o próprio disse, do sono dogmático. Kant não vai ser mais um cego racionalista. Isso levou-o a superar o raciocínio assente apenas num dos lados do conhecimento, o do sujeito. No entanto esbarra em obstáculos à coerência, que o próprio resolve com a introdução de esquemas adicionais devidamente analisados e explicados, para melhor se compreender o processo.
Na sua completa crítica, o sábio contorna efectivamente as dificuldades no raciocínio analítico, como foi o caso da introdução do comentário sobre a astúcia da razão Acho que se entende que ela existe e talvez outros menos sábios percepcionem no dia a dia que há gente que não se deixa enganar, não é levada por convicções pessoais exorbitantes, é dotada de senso e distingue onde está o real, onde está a verdade ou a mentira, o que são os outros. Muitas vezes isso é feito no ar, ou seja, não deriva da pura inteligência, não deriva da pura razão nem dos puros raciocínios, porque para tanto a razão precisa de astúcia.
Vem isto a propósito dos srs. drs. juizes que instauram processos inquisitórios, interrogam suspeitos com perguntas tontas e decretam na base do entendimento pessoal, o que eles acham. Este é o caso, que atinge contornos paranóicos, de um homem, de origens incertas, grosso e mal vestido, destituído de intuição, bruscamente assertivo, em vez de sensato na inquirição, uma espécie de fora da lei do Oeste, encartado de justiceiro pela corporação, quase brincando com a vida num grau de bestialidade chocante, sem respeito pela cidadania, esse, não faz mais do que demonstrar e ilustrar o que é O erro da razão. E sobretudo nunca mais acorda do sono dogmático. LACP
Cavalgada
Ainda não sei qual deles inventou as estações, se foi coisa de caldeu ou de romano. Lá de pontes a coisa vê-se, foi romano e dá passagem. Se foi romano que fez os meses, calculou mal a sequência e não tratou das passagens. Passa-se do inverno para as praias, das praias para o Natal e não tarda aí está-se no dia de anos. É uma cavalgada de acontecimentos por cima de acontecimentos, estonteante e bruta, que vai de tal modo à solta que se arrisca o coiro de ficar este sem consciência. Isso é o nada, não é o tempo. Porque no tempo, depois de se ir a consciência, fica lá o corpo, a apodrecer é certo, mas demora qualquer coisa. Por isso não sou favorável à queimadura da incineração. Faz o serviço depressa demais e é contratempo. Deixe-se o corpo apodrecer devagar, não se force a natureza... Bem, o meu ponto diz respeito ao escalonamento do tempo convencionado por um estratego pragmático, talvez egípcio, e foi coisa certamente de melhor rentabilizar qualquer trabalho escravo e erguer uma economia sem escala. Isto baralha a boa vontade de um blogger a braços com o tempo e o nada. LACP
Ainda não sei qual deles inventou as estações, se foi coisa de caldeu ou de romano. Lá de pontes a coisa vê-se, foi romano e dá passagem. Se foi romano que fez os meses, calculou mal a sequência e não tratou das passagens. Passa-se do inverno para as praias, das praias para o Natal e não tarda aí está-se no dia de anos. É uma cavalgada de acontecimentos por cima de acontecimentos, estonteante e bruta, que vai de tal modo à solta que se arrisca o coiro de ficar este sem consciência. Isso é o nada, não é o tempo. Porque no tempo, depois de se ir a consciência, fica lá o corpo, a apodrecer é certo, mas demora qualquer coisa. Por isso não sou favorável à queimadura da incineração. Faz o serviço depressa demais e é contratempo. Deixe-se o corpo apodrecer devagar, não se force a natureza... Bem, o meu ponto diz respeito ao escalonamento do tempo convencionado por um estratego pragmático, talvez egípcio, e foi coisa certamente de melhor rentabilizar qualquer trabalho escravo e erguer uma economia sem escala. Isto baralha a boa vontade de um blogger a braços com o tempo e o nada. LACP
A minha India88 (continuação)Mas teria gostado mais se não fosse quem sou, ou mesmo quem eu era na altura e fosse o eu dos anos 70. Seria, se tivesse sobrevivido, mais giro. Um calhau pouco rolado no caudal da vida gosta mais das novidades. E sente mais. No gosto e no desgosto.
Do Taj Mahal o que gostei mais foi dos macacos que andavam à solta a fanar coisas aos turistas, cá fora. Para maravilha do mundo, para mim, falta-lhe muito. É giro, é imponente ao pé , tem um trabalho de talha do caraças, com incrustações de pedras coloridas, tem lá o túmulo e a lenda de adequada lamechice romântica e milhares de indianos, em fila, indiana, claro, para porem uma flor ou outra dádiva, no túmulo que fica numa cripta abafada de odores tropicais.
A sensação é igual à visita do túmulo de Napoleão, ou do Lenine, mais acanhado e com os tais odores, que puseram KO a minha mulher e a mim dali para fora com grande urgência. Mas eu sou por vezes um bocado bruto. É de visitar. Até para se poderem dizer estas coisas.
A comer em hotéis, pela tal prudência já referida, a que agradeço a nossa sobrevivência, fomos depois para Jaipur, vendo pelo caminho mais uns fortes e palácios, todos magníficos nas decorações e trabalhos de pedra, mas todos parecidos. Pedra vermelha, pedra branca, pedra negra, pedra amarela, pedra assim-assim.
Em Jaipur fiquei como um marajá.
Gostei ASP
Do Taj Mahal o que gostei mais foi dos macacos que andavam à solta a fanar coisas aos turistas, cá fora. Para maravilha do mundo, para mim, falta-lhe muito. É giro, é imponente ao pé , tem um trabalho de talha do caraças, com incrustações de pedras coloridas, tem lá o túmulo e a lenda de adequada lamechice romântica e milhares de indianos, em fila, indiana, claro, para porem uma flor ou outra dádiva, no túmulo que fica numa cripta abafada de odores tropicais.
A sensação é igual à visita do túmulo de Napoleão, ou do Lenine, mais acanhado e com os tais odores, que puseram KO a minha mulher e a mim dali para fora com grande urgência. Mas eu sou por vezes um bocado bruto. É de visitar. Até para se poderem dizer estas coisas.
A comer em hotéis, pela tal prudência já referida, a que agradeço a nossa sobrevivência, fomos depois para Jaipur, vendo pelo caminho mais uns fortes e palácios, todos magníficos nas decorações e trabalhos de pedra, mas todos parecidos. Pedra vermelha, pedra branca, pedra negra, pedra amarela, pedra assim-assim.
Em Jaipur fiquei como um marajá.
Gostei ASP
Quinta-feira, Outubro 02, 2003
A minha Índia 88 (continuação)
Contratei, em local adequado, um carro de aluguer com condutor calado e tisnado. Um carro-vestígio dos anos 40, com um alegado ar condicionado que punha a temperatura lá dentro um grau abaixo de lá fora : entre 35 e 40ºC. Para fazer o calisto circuito Delhi- Agra- Jaipur, passando pelo Taj Mahal e outros postais ilustrados.
A condução era por buzina, pela direita, esquerda, centro, faixa da estrada que estivesse mais livre. Emoção a rodos, com enormes camiões policolores embicados para a gente sem qualquer abrandamento e e todo o mundo a apitar.
“Horn please”, é a tabuleta que está em todos os carros. Talvez como exorcismo, ou saudação aos deuses. E hornam que se fartam. Umas 10.000 apitadelas aos 100km, que lá são milhas.
A estrada era uma aventura, com os mais estranhos desastres a ladearem-na, entre os quais um elefante atropelado, como no “Deus das pequenas coisas”, camelos esparralhados em estertores de patas e grupos sentados sobre sacos á espera de uma sempre possível boleia.
Salvo o nosso carro, sahibs em férias, tudo estava sobrelotado de gente e coisas.
A paisagem, chata. Tudo é globalmente confuso, parcialmente miserável e com coisas de extrema beleza.
Gostei. A SP
Contratei, em local adequado, um carro de aluguer com condutor calado e tisnado. Um carro-vestígio dos anos 40, com um alegado ar condicionado que punha a temperatura lá dentro um grau abaixo de lá fora : entre 35 e 40ºC. Para fazer o calisto circuito Delhi- Agra- Jaipur, passando pelo Taj Mahal e outros postais ilustrados.
A condução era por buzina, pela direita, esquerda, centro, faixa da estrada que estivesse mais livre. Emoção a rodos, com enormes camiões policolores embicados para a gente sem qualquer abrandamento e e todo o mundo a apitar.
“Horn please”, é a tabuleta que está em todos os carros. Talvez como exorcismo, ou saudação aos deuses. E hornam que se fartam. Umas 10.000 apitadelas aos 100km, que lá são milhas.
A estrada era uma aventura, com os mais estranhos desastres a ladearem-na, entre os quais um elefante atropelado, como no “Deus das pequenas coisas”, camelos esparralhados em estertores de patas e grupos sentados sobre sacos á espera de uma sempre possível boleia.
Salvo o nosso carro, sahibs em férias, tudo estava sobrelotado de gente e coisas.
A paisagem, chata. Tudo é globalmente confuso, parcialmente miserável e com coisas de extrema beleza.
Gostei. A SP
OLHOS
Olhos enormes.
Olhos com a Índia dentro.
Vejo-os na minha frente: curiosos, talvez demasiado curiosos.
Grandes, negros, meigos.
Estamos na Índia: olhos de vaca. Como são meigos os olhos das vacas. Um tudo nada demasiado submissos para meu gosto, mas com uma ternura infinita que não há nos olhos das mulheres.
Vejo-os e recordo o que leio: «Esses inesquecíveis olhos orientais que, contemplados de certo modo, nos oferecem – pura e clara – a visão do princípio e do fim das coisas, do princípio e do fim dos homens, e da eternidade divina». Quem escreveu? Cecília Meireles.
Continuo a cumprir a minha promessa de ler tudo sobre a Índia.
E depois vou.
ALGURES EM KALIMPONG
Do alto do mosteiro de Zon-Dog vêem-se montanhas cobertas pela névoa.
Pássaros soltos vêm debicar os bolos de tsampa de oferta aos deuses.
É cedo. Muito cedo.
Faz um frio de neves e um silêncio opaco de lugares vazios.
À porta, o busto colorido de T.N.Sherpa, com o seu chapéu à Fernando Pessoa, negro como o casaco, e o seu rosto sorridente pintado de laranja faz com que tudo ganhe, de repente, um lugar no espaço indefinido que fica entre o belo e o ridículo.
Quando a noite cai, o nevoeiro toma conta das ruas e as portas de madeiras das lojas fecham-se a pouco e pouco.
Vultos destacam-se das sombras como fantasmas e perdem-se na escuridão.
A cidade ganha contornos fantásticos dentro dos quais sobressaem as chamas das lanternas de petróleo que iluminam os pequenos quiosques de comida.
À entrada de um beco, na ombreira de uma porta, um homem nu, sem braços e sem pernas, só pés e mãos agarrados aos pulsos e calcanhares, aquece-se na fogueira improvisada de papéis e esmola alguns paisa a quem passa. Na sua moldura de cimento, parece o quadro tétrico de um Velasquez bêbado. A M
Olhos enormes.
Olhos com a Índia dentro.
Vejo-os na minha frente: curiosos, talvez demasiado curiosos.
Grandes, negros, meigos.
Estamos na Índia: olhos de vaca. Como são meigos os olhos das vacas. Um tudo nada demasiado submissos para meu gosto, mas com uma ternura infinita que não há nos olhos das mulheres.
Vejo-os e recordo o que leio: «Esses inesquecíveis olhos orientais que, contemplados de certo modo, nos oferecem – pura e clara – a visão do princípio e do fim das coisas, do princípio e do fim dos homens, e da eternidade divina». Quem escreveu? Cecília Meireles.
Continuo a cumprir a minha promessa de ler tudo sobre a Índia.
E depois vou.
ALGURES EM KALIMPONG
Do alto do mosteiro de Zon-Dog vêem-se montanhas cobertas pela névoa.
Pássaros soltos vêm debicar os bolos de tsampa de oferta aos deuses.
É cedo. Muito cedo.
Faz um frio de neves e um silêncio opaco de lugares vazios.
À porta, o busto colorido de T.N.Sherpa, com o seu chapéu à Fernando Pessoa, negro como o casaco, e o seu rosto sorridente pintado de laranja faz com que tudo ganhe, de repente, um lugar no espaço indefinido que fica entre o belo e o ridículo.
Quando a noite cai, o nevoeiro toma conta das ruas e as portas de madeiras das lojas fecham-se a pouco e pouco.
Vultos destacam-se das sombras como fantasmas e perdem-se na escuridão.
A cidade ganha contornos fantásticos dentro dos quais sobressaem as chamas das lanternas de petróleo que iluminam os pequenos quiosques de comida.
À entrada de um beco, na ombreira de uma porta, um homem nu, sem braços e sem pernas, só pés e mãos agarrados aos pulsos e calcanhares, aquece-se na fogueira improvisada de papéis e esmola alguns paisa a quem passa. Na sua moldura de cimento, parece o quadro tétrico de um Velasquez bêbado. A M
RUDE GOLPE - UM SULISTA NO PORTO
Não gosto de estar no Porto. É um facto interiorizado e assumido. Não é que o Porto não seja bonito, antes pelo contrário. É uma cidade com raízes históricas bem profundas, monumentos grandiosos e inúmeras belezas naturais. Basta assistir ao cair do dia na zona ribeirinha ou na foz, naquele período em que se misturam as últimas cores naturais com a iluminação nocturna da cidade, para se perceber do que falo. Mas esta vinda para o Porto teve, para mim, inúmeras consequências negativas: retirou-me do meu território, alterou os meus hábitos, perturbou as minhas relações familiares e privou-me do convívio com os meus amigos.
Como nada na vida é intrinsecamente bom, nem intrinsecamente mau, teve também uma faceta positiva: ficar a conhecer mais de perto esta maneira de estar e de pensar das gentes do Norte, este regionalismo exacerbado, esta urbe complexa e complexada, que se sente mas não se admite inferior à Capital, fazendo com que, a par e passo, sejam enaltecidas as virtudes do Norte: puro, trabalhador e genuinamente português, em contraste com os defeitos do Sul: preguiçoso, valdevinos e repleto de execráveis mouros (a propósito, terá sido nesta dicotomia que o Dr. Alberto João se inspirou para a sua cruzada contra os cubanos do Continente ?).
Mas, dizia eu, esta cidade tem coisas absolutamente admiráveis e uma delas não resisto a evidenciar e enaltecer, pois penso que não é conhecida por muita gente além Mondego. Refiro-me ao “príncipe”. Não, não é filho do D. Duarte Nuno nem faz parte, que eu saiba, de nenhuma das casas reais europeias. É pura e simplesmente uma medida de capacidade, daquelas que não se aprendem nas escolas primárias, mas sim nas mesas ou balcões das cervejarias. Desconheço o autor de tal invenção - a quem desde já rendo as minhas homenagens - e, embora eu seja um mais fervoroso adepto de Baco que do líquido que os antigos egípcios tanto prezavam (consta que os actuais também gostam), entendo que a dimensão líquida utilizada, se situa no ponto ideal, é a medida perfeita, exacta e rigorosamente entre a “imperial”, magra, insuficiente e que faz secas as últimas dentadas na sanduíche, e a “caneca” que, por excessiva, enfarta e dilata o estômago.
Juro que fiquei rendido. Oriundo de uma família de empedernidos republicanos, senti abanar os meus alicerces mais profundos. Confesso que quase fiquei tentado a perdoar ao Paiva Couceiro as suas inúmeras arremetidas e, máximo dos máximos, admito, envergonhadamente, que me perpassou o espírito, ainda que fugazmente, uma hipotética filiação no PPM. AVRD
Não gosto de estar no Porto. É um facto interiorizado e assumido. Não é que o Porto não seja bonito, antes pelo contrário. É uma cidade com raízes históricas bem profundas, monumentos grandiosos e inúmeras belezas naturais. Basta assistir ao cair do dia na zona ribeirinha ou na foz, naquele período em que se misturam as últimas cores naturais com a iluminação nocturna da cidade, para se perceber do que falo. Mas esta vinda para o Porto teve, para mim, inúmeras consequências negativas: retirou-me do meu território, alterou os meus hábitos, perturbou as minhas relações familiares e privou-me do convívio com os meus amigos.
Como nada na vida é intrinsecamente bom, nem intrinsecamente mau, teve também uma faceta positiva: ficar a conhecer mais de perto esta maneira de estar e de pensar das gentes do Norte, este regionalismo exacerbado, esta urbe complexa e complexada, que se sente mas não se admite inferior à Capital, fazendo com que, a par e passo, sejam enaltecidas as virtudes do Norte: puro, trabalhador e genuinamente português, em contraste com os defeitos do Sul: preguiçoso, valdevinos e repleto de execráveis mouros (a propósito, terá sido nesta dicotomia que o Dr. Alberto João se inspirou para a sua cruzada contra os cubanos do Continente ?).
Mas, dizia eu, esta cidade tem coisas absolutamente admiráveis e uma delas não resisto a evidenciar e enaltecer, pois penso que não é conhecida por muita gente além Mondego. Refiro-me ao “príncipe”. Não, não é filho do D. Duarte Nuno nem faz parte, que eu saiba, de nenhuma das casas reais europeias. É pura e simplesmente uma medida de capacidade, daquelas que não se aprendem nas escolas primárias, mas sim nas mesas ou balcões das cervejarias. Desconheço o autor de tal invenção - a quem desde já rendo as minhas homenagens - e, embora eu seja um mais fervoroso adepto de Baco que do líquido que os antigos egípcios tanto prezavam (consta que os actuais também gostam), entendo que a dimensão líquida utilizada, se situa no ponto ideal, é a medida perfeita, exacta e rigorosamente entre a “imperial”, magra, insuficiente e que faz secas as últimas dentadas na sanduíche, e a “caneca” que, por excessiva, enfarta e dilata o estômago.
Juro que fiquei rendido. Oriundo de uma família de empedernidos republicanos, senti abanar os meus alicerces mais profundos. Confesso que quase fiquei tentado a perdoar ao Paiva Couceiro as suas inúmeras arremetidas e, máximo dos máximos, admito, envergonhadamente, que me perpassou o espírito, ainda que fugazmente, uma hipotética filiação no PPM. AVRD
Quarta-feira, Outubro 01, 2003
Conceito operacional
Não queria nada que pensassem em proselitismo e presunção de que se emenda o mundo com tiradas. A questão não é connosco, é com eles, com os que estão lá no palco da acção sem ser teatro, esses é que devem pensar na coerência e na fidelidade, não é connosco do lado de cá desta montra, donde não se passa para o palco e onde apenas se rascunham sentenças e se escrevem enlevos. É com eles, é coisa deles. Dos que se concentram e agitam a tratarem da conquista do poder e devem destruir argumentos e até corpos adversos e mesmo assim devem permanecer honestos. LACP
Não queria nada que pensassem em proselitismo e presunção de que se emenda o mundo com tiradas. A questão não é connosco, é com eles, com os que estão lá no palco da acção sem ser teatro, esses é que devem pensar na coerência e na fidelidade, não é connosco do lado de cá desta montra, donde não se passa para o palco e onde apenas se rascunham sentenças e se escrevem enlevos. É com eles, é coisa deles. Dos que se concentram e agitam a tratarem da conquista do poder e devem destruir argumentos e até corpos adversos e mesmo assim devem permanecer honestos. LACP
(continuação) a Minha India 88
DelhiO sítio é tríplice:
Belo e atraente, por exemplo nas mulheres, mesmo as mais pobres, acocoradas a fazer calçadas nos passeios, com os seus saris lindíssimos e uma coqueterie endógena, natural, com anéis nos dedos dos pés, o que prova que a elegância não precisa da riqueza. Monumentos e palácios, jardins e avenidas, sim senhor. Para registo fotográfico para memória futura. Corteses, simpáticos, mas um pouco distantes. Namasté.
Nojento e miserável nos cantos escondidos. Esgotos ao ar livre e o respectivo cheiro, hoje em dia globalizado.. Lixo a apodrecer. Moribundos pelo chão. Sobre-população visível. Há latente um peso na relação, dos muitíssimos paupérrimos face ao ocidental forro nas suas economias, olhares baços com ecos de tempos coloniais, uma certa frieza no trato que marca a distância entre nós e eles, eles e nós.
E perigoso, pelo menos para um ocidental turista fortuito.. Não tanto pela violência potencial decorrente da desproporção de 1 para 1000 milhões, do calor, da humidade penetrante, da luxuriante natureza na monção, da língua e da cultura apenas entreaberta nos guias. Desconhecida. Há perigo concreto nos tifos, nas desenterias, nos mosquitos e bichos nojentos um pouco a vulso, em todo o sítio. Uma bebida, uma prova de bolinho de rua, que não seja num 4 estrelas certificado, estraga a viagem e ás vezes a própria saúde.
E na possibilidade sempre presente de agressão, roubo, violência. Política, religiosa ou meramente por banditismo, que também existe.
A ratazana e o corvo são animais frequentes.
Falam em média o inglês. De resto a gente não os entende.
É o outro lado do exotismo. Quando não de Disneylândia. O real. O do mergulho para a descoberta.
Principalmente de nós próprios. ASP
DelhiO sítio é tríplice:
Belo e atraente, por exemplo nas mulheres, mesmo as mais pobres, acocoradas a fazer calçadas nos passeios, com os seus saris lindíssimos e uma coqueterie endógena, natural, com anéis nos dedos dos pés, o que prova que a elegância não precisa da riqueza. Monumentos e palácios, jardins e avenidas, sim senhor. Para registo fotográfico para memória futura. Corteses, simpáticos, mas um pouco distantes. Namasté.
Nojento e miserável nos cantos escondidos. Esgotos ao ar livre e o respectivo cheiro, hoje em dia globalizado.. Lixo a apodrecer. Moribundos pelo chão. Sobre-população visível. Há latente um peso na relação, dos muitíssimos paupérrimos face ao ocidental forro nas suas economias, olhares baços com ecos de tempos coloniais, uma certa frieza no trato que marca a distância entre nós e eles, eles e nós.
E perigoso, pelo menos para um ocidental turista fortuito.. Não tanto pela violência potencial decorrente da desproporção de 1 para 1000 milhões, do calor, da humidade penetrante, da luxuriante natureza na monção, da língua e da cultura apenas entreaberta nos guias. Desconhecida. Há perigo concreto nos tifos, nas desenterias, nos mosquitos e bichos nojentos um pouco a vulso, em todo o sítio. Uma bebida, uma prova de bolinho de rua, que não seja num 4 estrelas certificado, estraga a viagem e ás vezes a própria saúde.
E na possibilidade sempre presente de agressão, roubo, violência. Política, religiosa ou meramente por banditismo, que também existe.
A ratazana e o corvo são animais frequentes.
Falam em média o inglês. De resto a gente não os entende.
É o outro lado do exotismo. Quando não de Disneylândia. O real. O do mergulho para a descoberta.
Principalmente de nós próprios. ASP
Olhar ruminante 1OUT
Ontem vi na TVI um acontecimento inédito: a jornalista de serviço, Moura Guedes, virar-se contra o comentador convidado, Sousa Tavares e entrar em discussão acesa sobre o assunto comentado.
Tratava-se da questão da justiça no caso Casa Pia, a propósito dos toques críticos dados pelo PR sobre o assunto.
Do meu ponto de vista ele tinha razão, defendendo o chamado Estado de Direito, isto é, de defesa dos cidadãos; ela não, tipificando o pensamento superficial corrente da “defesa das crianças”, misturada com muita confusão mental e emocional.
O Eduardo Prado Coelho preocupava-se no Público, quanto à bipolarização nacional neste caso. Bem.
Já se não pensa, desconfia-se.
Já se não debate. Acusa-se, ofende-se.
Posições apriorísticas num lado, com pensamentos fundados em emoções.
O desejo que os culpados, identificados como “o Mal”, sejam castigados. A pena de morte chegou a ser proposta. Opiniões que têm a mesma natureza que as declarações de fé. Fé na Justiça nacional, neste caso.
Uma espécie de histeria de exorcizar o Mal. Mas Mal mal definido nos seus contornos. Como os antigos autos-de-fé.
A lógica é se os presos estão presos, é porque são culpados. Um pouco no seguimento da Acusação e do Juiz de Instrução (árbitro nitidamente parcial) de que como foram acusados são certamente culpados, porque não têm mais ninguém para o ser. Há que, agora, demonstrar a culpa. Vem no Manual do perfeito juiz do Tribunal do Santo Oficio...
O outro grupo, mais racional e inteligente, acho eu, protesta com a sucessão de comportamentos estranhos, por vezes absurdos, ao arrepio das regras elementares da Democracia e dos Direitos Humanos. E constata que eles têm patrocinado uma densa nuvem de fumo sobre o mais grave crime na panóplia dos que estão em causa neste processo : o de tráfego de crianças e da constituição da rede de prostituição infantil.
Pela acusação (por quem?, de quê?) de personalidades tão notáveis que concentram a atenção da opinião pública, mas que não serão os “organizadores” das redes, mas apenas os utentes, de “fim de linha”, conseguiu-se esquecer os grandes criminosos, em abono do escândalo de atirar para a fogueira das más-línguas os mais conhecidos.
Deliberadamente? Por precipitação? Por incompetência?
A Crença contra a Razão.
O combate histórico deste Portugal em vias de subdesenvolvimento, porque a Crença está novamente a ganhar. Bem fez o PR em intervir. ASP
Ontem vi na TVI um acontecimento inédito: a jornalista de serviço, Moura Guedes, virar-se contra o comentador convidado, Sousa Tavares e entrar em discussão acesa sobre o assunto comentado.
Tratava-se da questão da justiça no caso Casa Pia, a propósito dos toques críticos dados pelo PR sobre o assunto.
Do meu ponto de vista ele tinha razão, defendendo o chamado Estado de Direito, isto é, de defesa dos cidadãos; ela não, tipificando o pensamento superficial corrente da “defesa das crianças”, misturada com muita confusão mental e emocional.
O Eduardo Prado Coelho preocupava-se no Público, quanto à bipolarização nacional neste caso. Bem.
Já se não pensa, desconfia-se.
Já se não debate. Acusa-se, ofende-se.
Posições apriorísticas num lado, com pensamentos fundados em emoções.
O desejo que os culpados, identificados como “o Mal”, sejam castigados. A pena de morte chegou a ser proposta. Opiniões que têm a mesma natureza que as declarações de fé. Fé na Justiça nacional, neste caso.
Uma espécie de histeria de exorcizar o Mal. Mas Mal mal definido nos seus contornos. Como os antigos autos-de-fé.
A lógica é se os presos estão presos, é porque são culpados. Um pouco no seguimento da Acusação e do Juiz de Instrução (árbitro nitidamente parcial) de que como foram acusados são certamente culpados, porque não têm mais ninguém para o ser. Há que, agora, demonstrar a culpa. Vem no Manual do perfeito juiz do Tribunal do Santo Oficio...
O outro grupo, mais racional e inteligente, acho eu, protesta com a sucessão de comportamentos estranhos, por vezes absurdos, ao arrepio das regras elementares da Democracia e dos Direitos Humanos. E constata que eles têm patrocinado uma densa nuvem de fumo sobre o mais grave crime na panóplia dos que estão em causa neste processo : o de tráfego de crianças e da constituição da rede de prostituição infantil.
Pela acusação (por quem?, de quê?) de personalidades tão notáveis que concentram a atenção da opinião pública, mas que não serão os “organizadores” das redes, mas apenas os utentes, de “fim de linha”, conseguiu-se esquecer os grandes criminosos, em abono do escândalo de atirar para a fogueira das más-línguas os mais conhecidos.
Deliberadamente? Por precipitação? Por incompetência?
A Crença contra a Razão.
O combate histórico deste Portugal em vias de subdesenvolvimento, porque a Crença está novamente a ganhar. Bem fez o PR em intervir. ASP
OS CIÚMES ASSASSINOS DO DOUTOR JIVAGO
Desconfio
(se é que não tenho mesmo a certeza)
que o ciúme é um sentimento adolescente.
Aliás, comecei a desconfiá-lo quando percebi que nunca me passou pela cabeça ter ciúmes da Michelle Pfeiffer e que os meus sentimentos já amadureceram muito desde os primórdios da Debra Winger, apesar de ainda recentemente ter ficado absolutamente convencido de que aquele sorriso estonteante de felicidade da Gwineth Paltrow na Paixão de Shakespeare
- This is a new world!,
acabadinha de sair da cama, era dedicado em exclusivo ao estonteado senhor do assento G18 da Sala Estúdio do Cinema Monumental que, de tão surpreendido, se sentiu corar
(ainda bem que os filmes se vêem às escuras!)
e que por acaso até era eu.
Estou na dúvida se a primeira vez que senti a picada humilhante desse sentimento adolescente a que se convencionou chamar ciúme foi por causa da Ginger Rogers, da Maureen O’Hara ou da menina lourinha que, no liceu finalmente misto, se sentava a meu lado por via da abençoada regra das ordens alfabéticas. A Ginger Rogers e a Maureen O’Hara não eram especialmente bonitas, mas uma dançava sem parar e em qualquer lugar
(até no tecto!!!)
com o Fred Astaire, e a outra, além de ser a ruiva mais ruiva que jamais vi a preto e branco, balouçava-se sem parar em lianas pelo meio da selva com o Tarzan, o que fazia delas mulheres fascinantes e interessantíssimas e me fazia, a mim, querer dançar em qualquer lugar como o Fred Astaire
(massacrando a vizinhança com o desatino dos sapateados)
e balouçar-me pela selva em lianas como o Tarzan
(massacrando a vizinhança com gritos desafinados),
tarefas em cujas tentativas acumulei sucessivos insucessos.
Apesar de já não me lembrar da cara dela com muita nitidez, a menina lourinha que se sentava a meu lado por via da abençoada regra das ordens alfabéticas era lindíssima como nenhuma outra! E, além do mais, corava muito, e ainda bem que as salas de aulas, ao contrário das salas de cinema, nunca estão às escuras porque assim eu podia vê-la corar e achá-la ainda mais lindíssima.
A partir de então, o ciúme devastou-me a adolescência...
Ferveu-me o sangue nas veias quando o Robert Redford/Sundance Kid se escondeu no quarto da Katherine Ross/Etta Place, a vê-la despir-se lentamente na penumbra. E ferveu-me ainda mais o sangue quando ela, apercebendo-se da sua presença, em vez de ficar furiosa e o escorraçar pela janela, se limitou a dizer-lhe:
- You know what I wish? I wish for once you’d get here on time.
Hoje, ao rever o filme, o sangue já não me ferve nas veias, mas continuo a desejar pedalar na bicicleta em lugar do Paul Newman/Butch Cassidy com a mesmíssima Katherine Ross/Etta Place sentada no guiador e a ouvir o J.H. Thomas cantar o Rain Drops Falling on My Head, para um lado e para o outro em plena Primavera. Vendo bem, a Katherine Ross foi uma fonte inesgotável de ciúmes, como também terá sido a Claudia Cardinale, mas noutro género.
Agora me recordo que em A Primeira Noite fiquei com uma inveja terrível do Dustin Hoffman que ainda por cima tinha também um caso com a mãezinha dela, a muito apetecível Anne Bancroft a fazer de Mrs. Robinson. Acho que foi esse o momento em que percebi, finalmente, que nem todas as mulheres a partir dos quarenta estão condenadas a ser só mãezinhas.
Da Natalie Wood tive ciúmes de roer unhas e sabugo. Gostava de ter emoldurada na sala
(e nem sei porque é que não tenho),
talvez por cima da lareira, uma fotografia dela naquela cena da banheira do Esplendor na Relva, ou com um sorriso de Maria no West Side Story, ou eternamente Rebelde Sem Causa sem James Dean nem Warren Beatty nem Richard Beymer nem nenhum desses molengas que se punham a beijá-la sem jeito nenhum, aposto que só para me encherem de nervos, eu bem via como eles olhavam para mim com ar de gozo, exactamente o olhar de gozo
(se bem que também ligeiramente de carneiro mal morto)
que o Omar Sharif me deitava pelo canto do ecrã quando se abraçava à Julie Christie no Doutor Jivago. Eu fazia de conta que não reparava, fazia de conta que não era nada comigo, o pior era quando ele se virava de costas lá nos confins da Sibéria e, de repente, a sala do Cinema Paris ficava toda azul daquele azul dos olhos de Lara, daquele azul que era mar e céu num dia feliz, ficava atormentado na cadeira durante muito tempo, queria que o filme durasse horas e horas
(e por acaso até durava),
queria que o Yuri ficasse estraçalhado debaixo de um comboio, dava-me uma satisfaçãozinha vingativa
(é muito feio, bem sei, mas o ciúme é mesmo assim)
quando o via sair do eléctrico a correr e a deitar os bofes pela boca e a rebentar do coração, e ela sempre a andar, sem o ver bater desesperadamente nas vidraças do eléctrico, sem ver os olhos de carneiro mal morto a esbugalharem-se como olhos de garoupa, andando sempre pela rua alheia a tudo, alheia a todos, eu ria-me por dentro, lá muito no fundo, a sala do Cinema Paris ficava ainda mais azul, convencia-me de que ela caminhava ao meu encontro num ponto qualquer da plateia antecipadamente combinado, num ponto qualquer da Rua Domingos Sequeira ou do Jardim da Estrela, perto dos repuxos da água, por exemplo, ou do coreto,
(à sombra de uma araucária das grandes, não fosse dar-se o caso de a menina lourinha que se sentava a meu lado por via da abençoada regra das ordens alfabéticas e que era lindíssima como nenhuma outra passar por ali e nos ver e fazer, por sua vez, uma cena de ciúmes)
e o Dr. Jivago agarrado ao coração, de braços estendidos em desespero, muito morto na calçada com ciúmes de nós.A M
Desconfio
(se é que não tenho mesmo a certeza)
que o ciúme é um sentimento adolescente.
Aliás, comecei a desconfiá-lo quando percebi que nunca me passou pela cabeça ter ciúmes da Michelle Pfeiffer e que os meus sentimentos já amadureceram muito desde os primórdios da Debra Winger, apesar de ainda recentemente ter ficado absolutamente convencido de que aquele sorriso estonteante de felicidade da Gwineth Paltrow na Paixão de Shakespeare
- This is a new world!,
acabadinha de sair da cama, era dedicado em exclusivo ao estonteado senhor do assento G18 da Sala Estúdio do Cinema Monumental que, de tão surpreendido, se sentiu corar
(ainda bem que os filmes se vêem às escuras!)
e que por acaso até era eu.
Estou na dúvida se a primeira vez que senti a picada humilhante desse sentimento adolescente a que se convencionou chamar ciúme foi por causa da Ginger Rogers, da Maureen O’Hara ou da menina lourinha que, no liceu finalmente misto, se sentava a meu lado por via da abençoada regra das ordens alfabéticas. A Ginger Rogers e a Maureen O’Hara não eram especialmente bonitas, mas uma dançava sem parar e em qualquer lugar
(até no tecto!!!)
com o Fred Astaire, e a outra, além de ser a ruiva mais ruiva que jamais vi a preto e branco, balouçava-se sem parar em lianas pelo meio da selva com o Tarzan, o que fazia delas mulheres fascinantes e interessantíssimas e me fazia, a mim, querer dançar em qualquer lugar como o Fred Astaire
(massacrando a vizinhança com o desatino dos sapateados)
e balouçar-me pela selva em lianas como o Tarzan
(massacrando a vizinhança com gritos desafinados),
tarefas em cujas tentativas acumulei sucessivos insucessos.
Apesar de já não me lembrar da cara dela com muita nitidez, a menina lourinha que se sentava a meu lado por via da abençoada regra das ordens alfabéticas era lindíssima como nenhuma outra! E, além do mais, corava muito, e ainda bem que as salas de aulas, ao contrário das salas de cinema, nunca estão às escuras porque assim eu podia vê-la corar e achá-la ainda mais lindíssima.
A partir de então, o ciúme devastou-me a adolescência...
Ferveu-me o sangue nas veias quando o Robert Redford/Sundance Kid se escondeu no quarto da Katherine Ross/Etta Place, a vê-la despir-se lentamente na penumbra. E ferveu-me ainda mais o sangue quando ela, apercebendo-se da sua presença, em vez de ficar furiosa e o escorraçar pela janela, se limitou a dizer-lhe:
- You know what I wish? I wish for once you’d get here on time.
Hoje, ao rever o filme, o sangue já não me ferve nas veias, mas continuo a desejar pedalar na bicicleta em lugar do Paul Newman/Butch Cassidy com a mesmíssima Katherine Ross/Etta Place sentada no guiador e a ouvir o J.H. Thomas cantar o Rain Drops Falling on My Head, para um lado e para o outro em plena Primavera. Vendo bem, a Katherine Ross foi uma fonte inesgotável de ciúmes, como também terá sido a Claudia Cardinale, mas noutro género.
Agora me recordo que em A Primeira Noite fiquei com uma inveja terrível do Dustin Hoffman que ainda por cima tinha também um caso com a mãezinha dela, a muito apetecível Anne Bancroft a fazer de Mrs. Robinson. Acho que foi esse o momento em que percebi, finalmente, que nem todas as mulheres a partir dos quarenta estão condenadas a ser só mãezinhas.
Da Natalie Wood tive ciúmes de roer unhas e sabugo. Gostava de ter emoldurada na sala
(e nem sei porque é que não tenho),
talvez por cima da lareira, uma fotografia dela naquela cena da banheira do Esplendor na Relva, ou com um sorriso de Maria no West Side Story, ou eternamente Rebelde Sem Causa sem James Dean nem Warren Beatty nem Richard Beymer nem nenhum desses molengas que se punham a beijá-la sem jeito nenhum, aposto que só para me encherem de nervos, eu bem via como eles olhavam para mim com ar de gozo, exactamente o olhar de gozo
(se bem que também ligeiramente de carneiro mal morto)
que o Omar Sharif me deitava pelo canto do ecrã quando se abraçava à Julie Christie no Doutor Jivago. Eu fazia de conta que não reparava, fazia de conta que não era nada comigo, o pior era quando ele se virava de costas lá nos confins da Sibéria e, de repente, a sala do Cinema Paris ficava toda azul daquele azul dos olhos de Lara, daquele azul que era mar e céu num dia feliz, ficava atormentado na cadeira durante muito tempo, queria que o filme durasse horas e horas
(e por acaso até durava),
queria que o Yuri ficasse estraçalhado debaixo de um comboio, dava-me uma satisfaçãozinha vingativa
(é muito feio, bem sei, mas o ciúme é mesmo assim)
quando o via sair do eléctrico a correr e a deitar os bofes pela boca e a rebentar do coração, e ela sempre a andar, sem o ver bater desesperadamente nas vidraças do eléctrico, sem ver os olhos de carneiro mal morto a esbugalharem-se como olhos de garoupa, andando sempre pela rua alheia a tudo, alheia a todos, eu ria-me por dentro, lá muito no fundo, a sala do Cinema Paris ficava ainda mais azul, convencia-me de que ela caminhava ao meu encontro num ponto qualquer da plateia antecipadamente combinado, num ponto qualquer da Rua Domingos Sequeira ou do Jardim da Estrela, perto dos repuxos da água, por exemplo, ou do coreto,
(à sombra de uma araucária das grandes, não fosse dar-se o caso de a menina lourinha que se sentava a meu lado por via da abençoada regra das ordens alfabéticas e que era lindíssima como nenhuma outra passar por ali e nos ver e fazer, por sua vez, uma cena de ciúmes)
e o Dr. Jivago agarrado ao coração, de braços estendidos em desespero, muito morto na calçada com ciúmes de nós.A M
Olhar ruminante
Sobre a minha Índia, 881988.
Visitei a Índia norte, o triângulo Agra-Jaipur, Delhi. Uma semana. Sem falsas presunções de não ser turista. Porque o era e pela elementar prudência que um pai de quatro filhos deve assumir.
Usei os olhos que tinha e o descodificador de sensações e emoções próprios da idade e estado de então. Casado. Cansado. Vindo da China.
As a rolling stone, mas já quase totalmente calhau rolado, sem arestas ou protuberâncias.
Para que conste, as coisas e a vida passaram durante essa semana com pouco atrito, suavemente, sem marcas sensíveis e memoráveis. Apenas uma memória geral de doçura, humidade, quentura e cheiro a folhas a apodrecerem.
Chegada confusa, altas horas, apanhando um táxi conduzido por um motorista quase todo debruçado na janela do carro para apanhar fresco.
O homem mascava betel, seria. Tinha um olhar vidrado e uma condução ainda mais vidrada, mudando de vez em quando da faixa esquerda para a direita, consoante o estado do piso. Iria a uns 60km/h, mas o estado do carro triplicava a sensação de velocidade. Tive medo, um pouco.
Uma emoção que me dá de vez em quando. Nem sempre quando há mais perigo.
A cidade estava escura e eu sentia-me a mergulhar num longo negro indecifrável, com um tipo meio marado conduzir aos esses, a ganhar balanço para um salto no desconhecido. porque fiquei em
A casa para onde ia, de um amigo meu que lá vivia , era longe, numa espécie de Restelo índio.
(continua) ASP
Sobre a minha Índia, 881988.
Visitei a Índia norte, o triângulo Agra-Jaipur, Delhi. Uma semana. Sem falsas presunções de não ser turista. Porque o era e pela elementar prudência que um pai de quatro filhos deve assumir.
Usei os olhos que tinha e o descodificador de sensações e emoções próprios da idade e estado de então. Casado. Cansado. Vindo da China.
As a rolling stone, mas já quase totalmente calhau rolado, sem arestas ou protuberâncias.
Para que conste, as coisas e a vida passaram durante essa semana com pouco atrito, suavemente, sem marcas sensíveis e memoráveis. Apenas uma memória geral de doçura, humidade, quentura e cheiro a folhas a apodrecerem.
Chegada confusa, altas horas, apanhando um táxi conduzido por um motorista quase todo debruçado na janela do carro para apanhar fresco.
O homem mascava betel, seria. Tinha um olhar vidrado e uma condução ainda mais vidrada, mudando de vez em quando da faixa esquerda para a direita, consoante o estado do piso. Iria a uns 60km/h, mas o estado do carro triplicava a sensação de velocidade. Tive medo, um pouco.
Uma emoção que me dá de vez em quando. Nem sempre quando há mais perigo.
A cidade estava escura e eu sentia-me a mergulhar num longo negro indecifrável, com um tipo meio marado conduzir aos esses, a ganhar balanço para um salto no desconhecido. porque fiquei em
A casa para onde ia, de um amigo meu que lá vivia , era longe, numa espécie de Restelo índio.
(continua) ASP
Os donos da fita
Há uns que sobem ao poder e nem se apercebem das pequeníssimas pontes de passagem que há entre a condução política e a história. Têm coisas mais à vista para verem. Mal se apercebem que a História está à mão. Do que falo é da ascensão dos medíocres ao protagonismo dos tempos. São formas e tipos de assalto, feitos por perus emproados ainda por cima de gravata. Pegam num país mínimo, de negócios frágeis, valentias bacocas, desordem e lá vai a tomada do poder no imaginário do país. São os ministros. O desaire. Já viram o primeiro que nos deram? Tanto colarinho de goma, mísero ex-estudante de direito, incompetência própria dos balofos. O seu discurso não assenta em conteúdos, é um discurso propositadamente vazio. É um discurso barreira. Por trás esconde-se o vago, onde nada se pode ver com recorte preciso. Age através da negação, com o “discurso de silêncio “, elucidativo apenas de uma estratégia destinada a queimar à volta e condicionar o imediato. E no segredo, vai traçando uma trajectória de actuação a médio prazo, onde o necessário é ele estar sempre presente, estar lá, sem conteúdo evidentemente, para pairar melhor e conduzir as coisas e os acontecimentos para o lado das suas vantagens. É um homem lento, uma pequena figura realista, incapaz de transcendência.LACP
Há uns que sobem ao poder e nem se apercebem das pequeníssimas pontes de passagem que há entre a condução política e a história. Têm coisas mais à vista para verem. Mal se apercebem que a História está à mão. Do que falo é da ascensão dos medíocres ao protagonismo dos tempos. São formas e tipos de assalto, feitos por perus emproados ainda por cima de gravata. Pegam num país mínimo, de negócios frágeis, valentias bacocas, desordem e lá vai a tomada do poder no imaginário do país. São os ministros. O desaire. Já viram o primeiro que nos deram? Tanto colarinho de goma, mísero ex-estudante de direito, incompetência própria dos balofos. O seu discurso não assenta em conteúdos, é um discurso propositadamente vazio. É um discurso barreira. Por trás esconde-se o vago, onde nada se pode ver com recorte preciso. Age através da negação, com o “discurso de silêncio “, elucidativo apenas de uma estratégia destinada a queimar à volta e condicionar o imediato. E no segredo, vai traçando uma trajectória de actuação a médio prazo, onde o necessário é ele estar sempre presente, estar lá, sem conteúdo evidentemente, para pairar melhor e conduzir as coisas e os acontecimentos para o lado das suas vantagens. É um homem lento, uma pequena figura realista, incapaz de transcendência.LACP
Pois é, Júlia...
Assaltaram a casa ao Figo, em Madrid. Rudegolpe que fez o inefável ministro da bola deslocar-se ao local, solidário e compungido. Mais grave terá sido que a queda da ponte no IC19, que nem um secretariozinho de estado teve...
Não lembra a uma Cúria! Então o papa não pede aos especialistas paulistas para reverem a liturgia em baixa? Sem alegria, sem mulheres, se possível com o máximo de sofrimento? E depois queixam-se da falta de vocações. É preciso ser masoquista.
Mas em compensação a Conferência Episcopal conclui por sete pecados sociais que não estão mal vistos. Pena é que os media pouco lhe tenham ligado. Dava panos para mangas se esmiuçado. ASP
Assaltaram a casa ao Figo, em Madrid. Rudegolpe que fez o inefável ministro da bola deslocar-se ao local, solidário e compungido. Mais grave terá sido que a queda da ponte no IC19, que nem um secretariozinho de estado teve...
Não lembra a uma Cúria! Então o papa não pede aos especialistas paulistas para reverem a liturgia em baixa? Sem alegria, sem mulheres, se possível com o máximo de sofrimento? E depois queixam-se da falta de vocações. É preciso ser masoquista.
Mas em compensação a Conferência Episcopal conclui por sete pecados sociais que não estão mal vistos. Pena é que os media pouco lhe tenham ligado. Dava panos para mangas se esmiuçado. ASP
PARA LÁ DE OXFORD STREET
Em redor de St. Pancras e Kings Cross, Londres ganha os tons soturnos de uma pobreza que incomoda. Faz um calor húmido de trovoadas que se aproximam, abafado e irrespirável, e os cheiros pegajosos da noite trazem-me à memória as canículas indianas de Calcutá, Hyderabad e Bombaim.
As caras escuras dos teenagers que se encostam aos varões de ferro que separam os passeios das avenidas parecem prisões absurdas ou impedimentos insuficientes de suicidios iminentes. O ar pesa e a gente suporta-o.
Tranquilo, de jornal na mão, um homem de pijama está deitado na frente da porta da entrada da Littlewoods enquanto o movimento da Oxford Street redobra nas procissões de gente que se dirige para as ruas estreitas do Soho. Luzes amarelas e avermelhadas chamam a atenção para as casas de strip-tease e para os peep-shows antiquados e em desuso. As working-girls de pernas descobertas e decotes generosos acenam provocadoramente aos homens que passam disfarçando o desejo e ensaiam expressões meio obscenas com os lábios, ao mesmo tempo que os olhos não disfarçam os desancantos de uma obediência contrariada à força irresistível do dinheiro.
Uma vez, no Bairro Alto, já nascia o sol, uma puta pediu-me um cigarro e disse-me com o ar sério que só as putas conseguem ter: ninguém segue a profissão de puta por prazer. Fazia um frio brusco, era Janeiro, e eu lembrei-me daquele poema do meu velho amigo Fernando Assis Pacheco que diz assim:
Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena
vi-as às duas e três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena
essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena
mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena
E é tão triste esse poema que o decorei de uma só vez e sou capaz de escrevê-lo de um folgo, sem ter de recorrer ao volume trinta mil vezes sublinhado d’A Musa Irregular.
O Assis Pacheco também tem um poema sobre a Oxford Street onde estava no momento em que comecei a escrever. Mas não sinto necessidade de recorrer a ele. Vejo restaurantes, bares, discotecas, prostíbulos camuflados. Ouço a música que se entorna para a rua dos primeiros andares de baças luminosidades cor-de-rosa; observo atitudes agressivas de grupelhos masculinos e ruidosos; contemplo figuras desistentes, encolhidas nas bermas das calçadas, olhares sôfregos e curiosos de meninos adulterados.
Mas não só.
Há no meio de toda esta babilónia os que se concentram nos detalhes de si próprios, um no outro absorvidos e alheados, toques suaves de pontas de dedos e roçares imperfeitos de corpo inteiro. Minutos eternos como se o Mundo se esquecesse de ir rodando ao longo da noite. E neles existem, discretamente, por entre o frenesi do redor, as ampulhetas sem pressa dos afectos e dos carinhos. A M
Em redor de St. Pancras e Kings Cross, Londres ganha os tons soturnos de uma pobreza que incomoda. Faz um calor húmido de trovoadas que se aproximam, abafado e irrespirável, e os cheiros pegajosos da noite trazem-me à memória as canículas indianas de Calcutá, Hyderabad e Bombaim.
As caras escuras dos teenagers que se encostam aos varões de ferro que separam os passeios das avenidas parecem prisões absurdas ou impedimentos insuficientes de suicidios iminentes. O ar pesa e a gente suporta-o.
Tranquilo, de jornal na mão, um homem de pijama está deitado na frente da porta da entrada da Littlewoods enquanto o movimento da Oxford Street redobra nas procissões de gente que se dirige para as ruas estreitas do Soho. Luzes amarelas e avermelhadas chamam a atenção para as casas de strip-tease e para os peep-shows antiquados e em desuso. As working-girls de pernas descobertas e decotes generosos acenam provocadoramente aos homens que passam disfarçando o desejo e ensaiam expressões meio obscenas com os lábios, ao mesmo tempo que os olhos não disfarçam os desancantos de uma obediência contrariada à força irresistível do dinheiro.
Uma vez, no Bairro Alto, já nascia o sol, uma puta pediu-me um cigarro e disse-me com o ar sério que só as putas conseguem ter: ninguém segue a profissão de puta por prazer. Fazia um frio brusco, era Janeiro, e eu lembrei-me daquele poema do meu velho amigo Fernando Assis Pacheco que diz assim:
Eu vi gelar as putas da Avenida
ao griso de Janeiro e tive pena
do que elas chamam em jargão a vida
com um requebro triste de açucena
vi-as às duas e três falando
como se fala antes de entrar em cena
o gesto já compondo à voz de mando
do director fatal que lhes ordena
essa pose de flor recém-cortada
que para as mais batidas não é nada
senão fingirem lírios da Lorena
mas a todas o griso ia aturdindo
e eu que do trabalho vinha vindo
calçando as luvas senti tanta pena
E é tão triste esse poema que o decorei de uma só vez e sou capaz de escrevê-lo de um folgo, sem ter de recorrer ao volume trinta mil vezes sublinhado d’A Musa Irregular.
O Assis Pacheco também tem um poema sobre a Oxford Street onde estava no momento em que comecei a escrever. Mas não sinto necessidade de recorrer a ele. Vejo restaurantes, bares, discotecas, prostíbulos camuflados. Ouço a música que se entorna para a rua dos primeiros andares de baças luminosidades cor-de-rosa; observo atitudes agressivas de grupelhos masculinos e ruidosos; contemplo figuras desistentes, encolhidas nas bermas das calçadas, olhares sôfregos e curiosos de meninos adulterados.
Mas não só.
Há no meio de toda esta babilónia os que se concentram nos detalhes de si próprios, um no outro absorvidos e alheados, toques suaves de pontas de dedos e roçares imperfeitos de corpo inteiro. Minutos eternos como se o Mundo se esquecesse de ir rodando ao longo da noite. E neles existem, discretamente, por entre o frenesi do redor, as ampulhetas sem pressa dos afectos e dos carinhos. A M